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30/07/2008

Krugman: outro paliativo temporário

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
O grande projeto imobiliário foi aprovado no Congresso. Esta é uma boa notícia: Fannie e Freddie precisavam ser socorridos, e a outra principal provisão do projeto - um programa especial de empréstimo para evitar execuções hipotecárias - ajudará algumas famílias em mais dificuldades. É muito melhor contar com este projeto do que não.

Mas eu espero que ninguém ache que o Congresso fez tudo o que precisa ser feito, ou mesmo grande parte disso.

Este projeto de lei é o mais recente de uma série de paliativos temporários ao sistema financeiro - tentativas de evitar que tudo desmorone com elásticos e fita adesiva - que, pelo menos até o momento, tiveram sucesso em evitar o colapso total. Mas estes paliativos não fizeram nada para resolver as falhas existentes no sistema. Na verdade, elas abrem caminho para desastres futuros ainda maiores - a menos que sejam seguidas por reformas fundamentais.

Antes de tratar disso, vamos deixar claro uma coisa: mesmo que este projeto de lei tenha sucesso em suas metas, afastar uma contração de crédito severa e ajudar alguns proprietários a evitarem uma execução hipotecária, ele não mudará o fato de que a dupla bolha desta década, nos preços dos imóveis e do crédito fácil, foi um desastre para milhões de americanos.

Afinal, o novo projeto de lei irá, quanto muito, reduzir modestamente a taxa de execuções hipotecárias. E ele não faz nada para todos aqueles que não correm o risco de perderem suas casas, mas estão vendo grande parte de seu valor líquido ser eliminado - um golpe particularmente duro para americanos que estão se aproximando da aposentadoria, ou imaginavam estar, até descobrirem que financeiramente não podem parar de trabalhar.

É tarde demais para evitar esta dor. Mas podemos tentar assegurar que não enfrentaremos novas e maiores crises no futuro.

A história por trás da atual crise é a forma como os bancos tradicionais - bancos com depósitos segurados federalmente, cujos riscos que podem correr são limitados, assim como a quantidade de alavancagem que podem empregar - foram empurrados de lado por agentes financeiros não regulados. Nos foi assegurado por pessoas como Alan Greenspan que isso não era um problema: o mercado asseguraria que o risco corrido seria disciplinado e, de qualquer forma, os fundos dos contribuintes não estavam em jogo.

E então a realidade veio à tona.

Longe de serem disciplinados nos riscos que corriam, os credores enlouqueceram. As preocupações com a capacidade dos mutuários de pagar a dívida foram deixadas de lado; assim como as perguntas sobre se a valorização dos preços dos imóveis residenciais fazia sentido.

Os credores ignoraram os sinais de alerta porque faziam parte de um sistema construído em torno do princípio de cara, eu ganho, coroa, outra pessoa perde. Aqueles que concediam os empréstimos hipotecários não se preocupavam com a solvência dos mutuários, porque vendiam rapidamente os empréstimos concedidos, geralmente para investidores que não tinham idéia do que estavam comprando. Por todo o setor financeiro, os executivos recebiam bônus imensos quando pareciam estar produzindo grandes lucros, mas não precisavam devolver o dinheiro quando esses lucros se transformavam em prejuízos ainda maiores.

E a história de que o dinheiro dos contribuintes não estava em risco? Esqueça. Ao longo do ano passado, o Federal Reserve (o banco central americano) e o Tesouro dos Estados Unidos tiveram de usar centenas de bilhões de dólares dos contribuintes, escorando instituições financeiras grandes demais, ou estratégicas demais, para falirem (eu não os culpo - eu acho que não tinham nenhuma alternativa).

Enquanto isso, os bancos tradicionais, regulados, tiveram um pequeno papel no frenesi de empréstimos, já que contavam com subsidiárias não reguladas, "fora dos balancetes". O caso do IndyMac - que faliu por ser especializado em empréstimos de risco Alt-A, enquanto os reguladores faziam vista grossa - é a exceção que prova a regra.

A moral desta história parece clara - e é o que Barney Frank, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, vem dizendo há algum tempo: a regulação financeira precisa ser ampliada para cobrir uma variedade muito maior de instituições. Basicamente, a estrutura financeira criada nos anos 30, que proporcionou gerações de relativa estabilidade, precisa ser atualizada para as condições do século 21.

Os esforços desesperados de resgate do ano passado tornam uma ampliação da regulação ainda mais urgente. Se o governo vai garantir as instituições financeiras, estas instituições precisam ser melhor reguladas - porque, caso contrário, o jogo de cara, eu ganho, coroa, você perde, será jogado de forma cada vez mais furiosa às custas dos contribuintes.

É claro, os defensores de uma maior regulação, independentemente de quão fortes sejam seus argumentos, terão de enfrentar uma oposição muito bem financiada pelo setor financeiro. E como apontou Upton Sinclair, é difícil fazer com que um homem entenda algo quando seu salário - ou, poderíamos acrescentar, seus fundos de campanha - depende de que não entenda.

Mas vamos esperar que a simples escala desta crise financeira tenha concentrado mentes suficientes para tornar a reforma possível. Caso contrário, a próxima crise será ainda maior. George El Khouri Andolfato

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