UOL Notícias Internacional
 

31/07/2008

Em uma bifurcação na estrada, Cuba segue dois caminhos

The New York Times
Marc Lacey
Em Havana, Cuba
Quando o presidente Raúl Castro falou na semana passada em um velho quartel militar onde ele e seu irmão mais velho Fidel iniciaram a revolução cubana há 55 anos, o Castro mais jovem parecia minúsculo em comparação à imensa imagem de seu antecessor pairando sobre ele.

Jose Goitia/The New York Times 

Foto mostra local onde Raúl Castro será enterrado quando morrer

Era um símbolo adequado para o governo de Raúl, que atua de bom grado à sombra de Fidel, ao mesmo tempo em que tenta forjar um caminho próprio.

Raúl, cujos funcionários penduraram a imagem de Fidel na entrada do quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, antes do feriado de 26 de julho que celebra um ataque fracassado ao quartel, disse que submete voluntariamente seus discursos para aprovação de seu irmão, mesmo quando planeja divergir do que seu irmão teria dito.

As mudanças nas políticas também são submetidas a Fidel, mesmo quando se desviam das suas antigas posições. E Raúl não perde a chance de elogiar seu irmão nos discursos, o usando como um símbolo de vigor revolucionário, mesmo quando argumenta que a experiência socialista criada por seu irmão está ligeiramente fora de curso.

Esta estranha dinâmica entre os dois irmãos se retratando como unidos, mesmo enquanto divergem de formas importantes, pode ser desajeitada, mas atende aos interesses de ambos. Raúl, que extrai grande parte de sua legitimidade do nome da família e da popularidade de seu irmão, é conhecido ente os cubanos não apenas pelo primeiro nome, mas por um gesto: um toque no queixo como se estivesse acariciando uma barba imaginária.

E Fidel, que deixou o país em tamanho desarranjo financeiro a ponto de parecer se manter graças ao seu mercado negro, tem sua honra salva.

Os dois homens são claramente diferentes em estilo, com Raúl bem mais modesto do que Fidel. Por exemplo, Raúl, 77 anos, recentemente sinalizou sua mortalidade quando o governo organizou uma excursão de ônibus para os repórteres, que mostrou onde o presidente seria enterrado ao lado de sua esposa falecida recentemente. O túmulo já tem o nome de Raúl gravado.

Em comparação, os detalhes específicos do mal intestinal que levou Fidel - que completará 82 anos em agosto - a transferir o poder ao seu irmão, permanecem um segredo de Estado, e o local onde será enterrado é um grande mistério.

O ex-presidente, que podia fazer um discurso com duração de horas e regularmente o fazia, não é visto em público há dois anos, mas parece tão disposto como sempre a manifestar suas opiniões. Sua nova forma de expressão parece ser por meio de uma série de reflexões que anota em um caderno e que os jornais do Partido Comunista zelosamente imprimem na primeira página como um furo de reportagem.

Alguns dos recentes comentários de Fidel Castro pareciam um tanto defensivos, soando um pouco como um homem tentando defender seu legado, apesar de ainda participar ostensivamente de sua reforma.

Após Raúl demitir o antigo ministro da Educação de seu irmão, Luis Ignacio Gómez, apenas dois meses após assumir a presidência em fevereiro, Fidel assumiu um crédito parcial pela medida, dizendo que Gómez tinha perdido seu zelo revolucionário.

"Eu fui consultado e completamente informado", escreveu Fidel sobre a decisão no "Granma", o jornal do Partido Comunista, e outros veículos estatais.

O comentário criticava Gómez por suas freqüentes viagens ao exterior e por assumir crédito pessoal pela reforma das escolas de Cuba, que são consideradas entre as melhores da América Latina. Mas o ensaio levantou a questão do motivo para Fidel não ter demitido um ministro tão desobediente durante os mais de 18 anos em que Gómez, que foi um ferrenho defensor de Fidel, ocupou o cargo.

Posteriormente, Raúl anunciou novos incentivos para atrair professores aposentados de volta às salas de aula para compensar o déficit de 8 mil professores em toda a ilha, cuja maioria tem procurado por outros empregos melhor remunerados em Cuba ou fora da ilha. Ele reconheceu as "deficiências" no sistema educacional, que alguns cubanos viram como uma crítica ao programa implantado por seu irmão há quase uma década, para usar recém-formados no ensino médio como professores improvisados.

Os pais cubanos que dispõem de recursos frequentemente contratam os professores aposentados como professores particulares para seus filhos, porque não confiam nas escolas, onde algumas classes ficam abarrotadas com 40 alunos.

"Nós não deveríamos ter que contratar alguém por fora para que nossas crianças possam aprender", disse Juan, pai de um aluno da terceira série, que criticou ambos os irmãos Castro, mas que teve medo de se identificar, por temer problemas com as autoridades.

"Nossas escolas caíram em um buraco", disse um veterano de 20 anos de magistério, que trocou as salas de aula por um salão de beleza porque disse que os salários eram baixos demais, menos de US$ 20 por mês. "Eu não me vejo retornando", ele disse, também pedindo anonimato.

Comentários como esses são ouvidos freqüentemente, dizem os cubanos, nas reuniões de bairro que Raúl encoraja para levar as deficiências à atenção das autoridades cubanas e para engajar a população no aprimoramento do socialismo de Cuba.

Mas Fidel desdenha a idéia de que as salas de aula de Cuba estão sofrendo. "Eu não acredito, para começar, que estamos em uma situação tão ruim", ele disse em um comentário recente.

Fidel alertou em seus textos contra fazer "concessões vergonhosas à ideologia imperialista", ao mesmo tempo em que Raúl permite maior acesso dos cubanos a celulares, aparelhos elétricos, hotéis para turistas e carros alugados.

Ainda assim, Raúl tem buscado reforçar a idéia de que não há um racha entre os irmãos e que as mudanças representam um ajuste, não uma reforma. Durante um recente discurso para a Assembléia Nacional, ele disse que apresentou a Fidel os comentários que delineavam seu plano para a educação, se referindo ao seu irmão com o afago no queixo.

"Às vezes é ele quem me passa as notícias internacionais que não tive tempo de ler", Raúl disse sobre Fidel.

Os dois homens, em seus novos papéis complicados, às vezes se vêem se comunicando por meio de intermediários. Raúl, por exemplo, disse que não ouviu diretamente de seu irmão sobre o discurso na Assembléia Nacional, mas sim que recebeu um telefonema de uma assistente, que transmitiu a palavra de que foi "perfeito".

Raúl, por sua vez, disse à assistente para parabenizar seu irmão.

"Ela respondeu: 'Parabenizá-lo?'" disse Raúl. "E eu disse: 'Sim, parabenizá-lo, porque ele tem um irmão muito inteligente e que aprendeu tudo com ele." George El Khouri Andolfato

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