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31/07/2008

Friedman: perfurando poços no Afeganistão

The New York Times
Thomas Friedman
Colunista do The New York Times
Às vezes na política, especialmente durante as campanhas, os partidos ficam colados a slogans - tão colados que ninguém se dá ao trabalho de pensar no que eles estão dizendo, se a realidade mudou e quais serão as conseqüências caso os seus adesivos de pára-choque realmente digam respeito a políticas a serem adotadas quando eles assumirem o poder.

Atualmente temos dois exemplos disso: "Democratas para o Afeganistão" e "Republicanos para a Perfuração de Poços de Petróleo no Alto-Mar".

Os republicanos tornaram-se tão obcecados com a idéia de que nós podemos superar a atual crise de energia perfurando poços que a reabertura das nossas águas litorâneas para a prospecção de petróleo tornou-se a resposta deles para toda questão referente à energia.

Quem observar o crescimento das classes médias em todo o mundo e a crescente demanda delas por recursos naturais, bem como os perigos de uma mudança climática provocada pelo nosso vício em combustíveis fósseis, poderá enxergar que as energias renováveis limpas - eólica, solar, nuclear e outras que ainda não inventamos - serão a próxima grande indústria global. E precisarão ser, para que possamos crescer de uma forma estável.

Portanto, o país que contar com a maior indústria de energia limpa será o dono da nova revolução tecnológica - a revolução de tecnologias de energia - e criará milhões de empregos e milhares de novos negócios, assim como fez a revolução de tecnologias de informação.

Os republicanos, repetindo sem raciocinar o seu mantra da prospecção de petróleo no mar, e focando-se em um combustível do século 19, me fazem lembrar de uma pessoa, em 1980, argumentando que deveríamos investir todo o nosso dinheiro na fabricação de uma maior quantidade de máquinas de datilografar IBM Selectric mais baratas - e esquecer essas coisas chamadas "PC" e "Internet". Essa é uma estratégia para transformar os Estados Unidos em uma potência e uma economia de segunda classe.

Mas os democratas contam com algo análogo. Para muitos democratas, o Afeganistão sempre foi a "boa guerra", ao contrário do Iraque. Creio que Barack Obama precisa perguntar-se honestamente: "Eu defendo o envio de mais soldados ao Afeganistão porque acredito realmente que podemos vencer e porque creio que isso acabará de fato com o terrorismo, ou só estou fazendo isso porque, para ser eleito nos Estados Unidos pós-atentados de 11 de setembro, preciso defender a vitória em alguma guerra?".

A verdade é que o Iraque, o Afeganistão, a Arábia Saudita, o Líbano e o Paquistão são apenas frentes diferentes na mesma guerra. O problema central é que o mundo árabe-muçulmano não conseguiu, em muitos e muitos lugares, alinhar-se à modernidade, e se não fosse pelo fato de o barril de petróleo estar custando US$ 120, esse fracasso seria ainda mais óbvio. Durante muito tempo essa região tem sido dominada por políticas autoritárias, desemprego maciço da juventude, sistemas educacionais obsoletos, um establishment religioso que resiste a reformas e, atualmente, um culto da morte que exalta o suicídio dos jovens, muitas vezes em ações contra outros muçulmanos.

A humilhação produzida por esse coquetel é a verdadeira fonte do terrorismo. Saddam Hussein explorou-a. A Al Qaeda a explora. Os serviços de inteligência do Paquistão a exploram. O Hezbollah a explora. O Taleban a explora.

A única forma de enfrentar esse problema é por meio de uma alteração de políticas. A criação de ilhas de governo decente e consensual em Bagdá, Cabul ou Islamabad seria uma contribuição muito mais significativa e duradoura para a guerra contra o terrorismo do que até mesmo matar Bin Laden na sua caverna. Mas para isso são necessários parceiros locais. O motivo pelo qual o aumento do número de soldados no Iraque ajudou foi o fato de os iraquianos terem assumido a liderança na batalha contra os seus próprios extremistas - os xiitas e os sunitas em suas respectivas áreas. Essa notícia é muito boa - embora ainda não se saiba se os dois grupos são capazes de conviver juntos em um governo funcional.

O principal motivo pelo qual nós estamos perdendo a guerra no Afeganistão não é o fato contarmos com poucos soldados norte-americanos, mas sim a ausência de uma quantidade suficiente de afegãos dispostos a lutar e morrer pelo governo que nós queremos.

Reserve 20 minutos para ler o surpreendente artigo de Thomas Schweich - uma ex-autoridade do governo Bush da área de combate ao narcotráfico - sobre o Afeganistão, publicado no domingo passado na "New York Times Magazine". Observe o parágrafo sobre o presidente afegão Hamid Karzai:

"Karzai lidou conosco como se estivesse tocando um violino: os Estados Unidos gastariam bilhões de dólares com a melhoria da infra-estrutura; os Estados Unidos e os seus aliados combateriam o Taleban; os amigos de Karzai poderiam enriquecer com o tráfico de drogas; ele poderia culpar o Ocidente pelos seus problemas; e em 2009 ele seria eleito para um novo mandato".

Leia, a seguir, o artigo de capa de Rory Stewart, escrito em Cabul e publicado na edição de 17 de julho da revista "Time": "Um aumento do número de soldados provavelmente inflamaria o nacionalismo afegão porque a aversão dos afegãos pelos estrangeiros é maior do que acreditamos, e o apoio à nossa presença nas áreas da insurgência está diminuindo... Quanto mais responsabilidades nós assumirmos no Afeganistão, mais minaremos a credibilidade e a responsabilidade do governo afegão, e mais o encorajaremos a agir de forma irresponsável. As nossas alegações de que o Afeganistão é 'a linha de frente na guerra contra o terrorismo' e 'o fracasso não é uma opção' convenceram o governo afegão de que nós precisamos mais dele do que ele precisa de nós. Quanto mais as coisas pioram, mais assistência ele parece receber. Isso não é um incentivo para a promoção de reformas".

Antes de adotarem o "Mais Tropas para o Afeganistão" como o seu adesivo de pára-choques, os democratas precisam se certificar de que esta é uma estratégia para vencer uma guerra - e não uma eleição. UOL

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