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01/08/2008

Karadzic ouve calmamente acusações de genocídio e crimes de guerra

The New York Times
Marlise Simons
Em Haia, na Holanda
Magro, rígido e mostrando uma educação impecável, Radovan Karadzic recusou-se a responder, na quinta-feira (31), na sua primeira aparição perante o tribunal de crimes de guerra em Haia, às acusações de que conduziu a Bósnia a uma guerra étnica que transformou-se em genocídio.

AFP 
Clientes em restaurante sérvio nacionalista assistem ao julgamento de Karadzic

Em vez disso, enquanto os familiares das vítimas dos massacres que ele é acusado de arquitetar assistiam ao vivo pela televisão na Bósnia, o ex-líder sérvio-bósnio afirmou que foi seqüestrado três dias antes de a sua prisão ter sido anunciada em Belgrado em 21 de julho.

"Fui mantido em um local desconhecido; ninguém me informou quais eram os meus direitos; não tive direito a telefonar ou sequer a enviar uma mensagem de texto", afirmou ele, em uma audiência de 75 minutos, mantendo-se calmo na maior parte do tempo, com episódios ocasionais de raiva ou humor.

Sentado na mesma cadeira que o seu antigo mentor, Slobodan Milosevic, ocupou no julgamento que enfrentou aqui, Karadzic também repetiu velhos boatos de que um ex-enviado dos Estados Unidos, Richard C. Holbrooke, fez um acordo com ele, possibilitando que escapasse da Justiça. Karadzic disse que temia pela sua vida, após passar 13 anos como fugitivo, porque Holbrooke "tinha a intenção de liqüidá-lo".

"Se Holbrooke ainda quiser a minha morte, porque o tribunal não tem sentença de morte, me pergunto se o braço dele é suficientemente longo para me alcançar aqui", disse ele ao juiz, Alphons Orie.

Apesar das suas alegações estranhas, Karadzic, usando um terno escuro com gravata, tinha uma aparência quase empresarial. O seu disfarce de curandeiro barbudo e cabeludo foi removido, e o seu comportamento tornou-se bem mais discreto quando comparado aos anos em que foi o pomposo ideólogo que liderou o auto-proclamado mini-Estado da República Bósnio-Sérvia durante as guerras dos Bálcãs de 1992 a 1995.

Na audiência, Karadzic, 63, recusou-se a ler a íntegra da acusação: atrocidades contra civis que provocaram acusações de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Alguns especialistas, ainda desnorteados com a aparição súbita de Karadzic após tantos anos, dizem acreditar que tais acusações - até mesmo a de genocídio - podem ser mais fáceis de se provar do que as acusações similares que foram feitas contra Milosevic, o ex-líder iugoslavo. Após quatro anos de julgamento, Milosevic morreu em 2006, antes que o tribunal chegasse a um veredicto.

Este caso dirá respeito principalmente a crimes cometidos em um só país, ao contrário do caso de Milosevic, que tinha uma amplitude enorme, referindo-se a guerras ocorridas em três países no período de uma década.

E, ainda segundo os especialistas, as provas também são bem mais claras.

Antes mesmo do início da guerra na Bósnia, Karadzic declarava freqüentemente que a sua missão era "proteger" os sérvios cristãos dos bósnios muçulmanos que ameaçavam criar um Estado islâmico. Ele fez discursos virulentos, advertindo que, caso a Bósnia separasse-se da Iugoslávia, a população muçulmana seria dizimada.

Após a guerra, as forças sérvias bósnias sob o seu comando destruíram diversos registros militares, mas as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vasculharam quartéis do exército e da polícia e conseguiram confiscar milhares de documentos. A acusação conta com grande quantidade de material que foi apresentado ao tribunal em mais de 20 casos relacionados à Bósnia. Especialistas em medicina legal escavaram sepulturas coletivas. E existem interceptações telefônicas e de rádio com conversas entre Karadzic e políticos e comandantes de alto escalão.

"Karadzic estava mais próximo da ação do que Milosevic", afirma Geoffrey Nice, o ex-promotor principal no julgamento de Milosevic. "Ele estava lá, dando as ordens. Ele estava no comando. Milosevic contribuía de longe, com apoio político e militar. Karadzic usou uma linguagem explícita e furiosa nos seus discursos públicos. Não sei se isso é suficiente, mas é algo muito poderoso".

Para a corte de Justiça, muita coisa está em jogo no julgamento deste novo réu famoso, que será julgado no momento em que o tribunal, criado em 1993 pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), ruma para o fechamento. Alguns vêem nisto uma chance para que o tribunal - criticado com freqüência pela lentidão e pelos casos excessivamente complicados, especialmente o de Milosevic - melhore a sua imagem.

"Com a chegada de Karadzic, fica bem mais fácil para o tribunal ter um impacto forte e duradouro", afirma David Kaye, que acompanhou o tribunal como diplomata dos Estados Unidos em Haia, e que atualmente leciona direito na Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Esta é a chance para contar a história integral daquilo que ocorreu na Bósnia. Karadzic tinha a visão geral, a estrutura de comando e a responsabilidade direta pelos acontecimentos do período de guerra".

Karadzic compareceu ao tribunal, em uma audiência preliminar relativa a acusações feitas em 1995, apenas um dia após ter sido transferido da Sérvia para cá. As acusações contra ele, que se seguiram ao mandado de prisão, foram oficializadas pela primeira vez em 1995. Na semana passada, os seus advogados na Sérvia já tinham reclamado de que Karadzic foi preso três dias antes do anúncio da captura. As autoridades sérvias negam isso.

Além disso, Holbrooke, o diplomata dos Estados Unidos que assinou o tratado de paz que pôs fim à guerra em 1995, negou as alegações de Karadzic de que ele fez um acordo, classificando a acusação de "ridícula".

Em uma entrevista, Holbrooke afirmou que em julho de 1996 viajou a Belgrado, e, após dez horas de conversações, negociou um acordo que obrigou Karadzic a renunciar ao cargo de líder sérvio bósnio, sendo que Milosevic fez pressão para que ele acatasse.

"Havia um acordo para que ele deixasse o poder", disse Holbrooke. "Ele não recebeu nada em troca".

Na audiência, Orie desculpou-se pelas longas formalidades legais, que exigiam que ele fizesse perguntas aparentemente óbvias - e que permitiram que Karadzic tivesse os seus momentos de humor seco.

Em determinado momento, o juiz, que é holandês, perguntou a Karadzic se a sua família ou alguém mais precisava ser informado de que ele está detido na prisão do tribunal.

"Não acredito que haja alguém que não saiba disto", respondeu Karadzic com um sorriso. Orie também sorriu rapidamente.

Karadzic recusou-se a entrar com um pedido de negociação de pena, e afirmou que prefere aguardar até que a promotoria conclua as mudanças planejadas na acusação. As regras permitem a ele aguardar 30 dias para entrar com tal pedido.

O juiz ordenou à acusação que revele as suas provas contra Karadzic o mais rapidamente possível, e marcou a próxima audiência para 28 de agosto.

O estado de saúde de Karadzic parece ser bem melhor do que o de Milosevic, que chegou ao tribunal em 2001 sofrendo de uma cardiopatia. Isso fez com que o julgamento dele fosse interrompido regularmente, e também com que as audiências fossem reduzidas a três sessões por semana, cada uma durando a metade de um dia. Milosevic morreu em sua cela em 2006, antes do final do julgamento.

"A minha saúde é perfeita", disse Karadzic ao juiz.

Para que haja um julgamento eficiente de Karadzic, que é responsabilizado como líder político e comandante-em-chefe, alguns especialistas argumentam que a acusação deveria concentrar-se em menos crimes. O documento de acusação tem 25 páginas que citam crimes cometidos em diversos locais, e especialmente o cerco de três anos a Sarajevo, que provocou a morte de mais de 10 mil civis, e o assassinato em massa em Srebrenica, no qual 8.000 homens e garotos desarmados foram executados em um massacre que durou uma semana.

Mas também são mencionados fatos ocorridos em cerca de 40 municípios e pelo menos dez campos de prisioneiros.

"A promotoria terá de sintetizar este caso", afirmou em uma entrevista Antonio Cassese, ex-juiz daquela corte de Justiça. "De qualquer maneira, o tribunal não será capaz de satisfazer todas as vítimas e julgar milhares de pessoas em todos os lugares. O tribunal tem que fazer opções, e, sendo assim, é melhor escolher um julgamento efetivo".

Um documento revelador utilizado em outros julgamentos e que indica que havia uma tragédia em andamento traz a assinatura de Karadzic. Nele há instruções transmitidas aos comandantes militares bósnios sérvios em março de 1995, quatro meses antes do assassinato em massa em Srebrenica.

A ordem instrui a Corporação Drina do Exército a cortar todos os contatos entre Srebrenica e Zepa, dois encraves protegidos pelas tropas da ONU. "Por meio de operações de combate planejadas e bem pensadas, criem uma situação insuportável de total insegurança, na qual não haja esperança de sobrevivência ou vida para os habitantes de Srebrenica e Zepa", diz a ordem.

O massacre de Srebrenica e o cerco a Sarajevo foram extensamente documentados em outros julgamentos. O próprio Karadzic foi filmado visitando posições do exército sérvio que atiravam contra os civis de Sarajevo. Karadzic pode argumentar que não ordenou o massacre em Srebrenica. Os promotores terão que provar que, ainda que Karadzic não tenha dado tal ordem, ele foi mantido informado e poderia ter interrompido os assassinatos.

Graham Bowley, em Nova York, contribuiu para esta matéria. UOL

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