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01/08/2008

Questão racial passa ao primeiro plano na campanha presidencial

The New York Times
Michael Cooper e Michael Powell, do The New York Times
Em Orlando, Flórida
Na quinta-feira, a campanha do senador John McCain acusou o senador Barack Obama de fazer uso da "carta racial", citando seus comentários de que os republicanos tentariam assustar os eleitores ao apontar que ele "não se parece com todos aqueles outros presidentes nas cédulas de dólar".

A discussão trouxe pela primeira vez a questão racial para o primeiro plano na campanha da eleição geral, após ter dominado de forma implícita a disputa entre Obama e a senadora Hillary Rodham Clinton nas primárias. Ela ocorre no momento em que a campanha de McCain intensifica os ataques, tentando tirar seu adversário democrata do curso antes das convenções.

"Barack Obama fez uso da carta racial, e a tirou do fundo do baralho", acusou o diretor de campanha de McCain, Rick Davis, em uma declaração que McCain posteriormente disse concordar. "É divisora, negativa, vergonhosa e errada."

Ao fazer a acusação, Davis se referia aos comentários feitos por Obama no Missouri, na quarta-feira, quando reagiu ao tom cada vez mais negativo e às propagandas negativas por parte da campanha de McCain nos últimos dias, incluindo uma exibida na quarta-feira, comparando o status de celebridade de Obama ao de Paris Hilton e Britney Spears.

"Já que ninguém acredita que Bush ou McCain tenham qualquer resposta real aos desafios que enfrentamos, o que eles vão tentar fazer é tentar deixá-los com medo de mim", disse Obama na quarta-feira, em Springfield, Missouri, repetindo comentários anteriores. "Vocês sabem, ele não é suficientemente patriótico. Ele tem um nome engraçado. Vocês sabem, ele não se parece com todos aqueles outros presidentes nas cédulas de dólar. Ele é arriscado. Este é basicamente o argumento que apresentam."

Com sua contestação do uso da "carta racial", Davis basicamente assegurou que a questão racial novamente se tornará um assunto inevitável, à medida que os eleitores se vêem diante de uma eleição histórica na qual, pela primeira vez, um dos candidatos dos grandes partidos é um afro-americano.

Com suas críticas, a campanha de McCain garante que a raça de Obama - ele é filho de um negro do Quênia com uma branca do Kansas - novamente será um fator na cobertura da corrida presidencial, e na quinta-feira isso tirou os holofotes de Obama, quando ele buscava atacar McCain nas questões de energia.

É uma tática que pode cortar de ambos os lados: ela pode explorar os receios que alguns eleitores operários brancos em Estados cruciais possam ter a respeito de um candidato negro, ou pode ricochetear de volta contra a campanha de McCain, que é acusada até mesmo por alguns republicanos de promover uma campanha exageradamente negativa nos últimos dias.

Os comentários colocaram a campanha de Obama, que tentou impedir que o candidato fosse definido pela raça, em uma posição delicada. Obama não abordou pessoalmente o assunto na quinta-feira, e sua campanha tentou cuidadosamente conter o assunto, dizendo que ele não acreditava que McCain tentou usar a raça como uma questão.

"Esta é uma disputa sobre grandes desafios - uma economia em declínio, uma política externa quebrada e uma crise de energia para todos, exceto para as companhias de petróleo", disse Robert Gibbs, um porta-voz da campanha. "Barack Obama não acredita de forma alguma que a campanha de McCain esteja usando a raça como uma questão, mas ele acredita que estão usando a mesma velha política baixa de distrair os eleitores das questões reais nesta campanha, e são destas questões que continuaremos falando."

A disputa em torno da raça inseriu um elemento imprevisível na campanha. Disputas anteriores freqüentemente foram influenciadas por imagens raciais, sejam explícitas, como as propagandas de Willie Horton contra Michael Dukakis na corrida presidencial de 1988, ou sutis.

Na disputa ao Senado do Tennessee em 2006, os republicanos veicularam uma propaganda contra um candidato negro ao Senado, Harold Ford Jr., exibindo uma mulher branca dizendo, piscando, "Harold, me ligue". Alguns traçaram um paralelo entre esta propaganda e a propaganda da campanha de McCain, sobrepondo Britney Spears e Paris Hilton a Obama.

McCain tratou dos comentários de Davis sobre a "carta da raça" na quinta-feira. "Eu concordo com ele, e estou desapontado que o senador Obama tenha dito as coisas que disse", disse McCain em seu ônibus de campanha em Racine, Wisconsin, segundo a agência de notícias "The Associated Press".

Os comentários de Davis ocorreram enquanto a campanha de McCain adota uma postura bem mais agressiva e negativa em relação a Obama nos últimos dias, tentando defini-lo como arrogante, fora da realidade e despreparado para a presidência. Mas até esta semana, a campanha de McCain não tinha invocado raça.

Mas Obama já foi vítima de alguns ataques racistas e raciais neste ano, particularmente durante as primárias. Campanhas por e-mail divulgaram o rumor falso de que ele é muçulmano, e questionaram seu patriotismo ao acusar falsamente que ele não coloca a mão no coração quando o Juramento de Lealdade é recitado. Um button avistado do lado de fora da convenção republicana do Texas perguntava: "Se Obama for presidente... Ainda poderemos chamá-la de Casa Branca?"

Mas McCain vinha condenando as campanhas racistas, além de repreender os grupos republicanos que tentavam explorar os comentários inflamatórios feitos pelo ex-pastor de Obama, o reverendo Jeremiah A. Wright Jr., assim como um de seus próprios simpatizantes, que se referiu a Obama como "Barack Hussein Obama" em um comício de McCain.

Obama já foi mais explícito no passado sobre o papel da raça nos ataques contra ele, apesar de raramente especificar quem está por trás deles. "Nós sabemos que tipo de campanha eles farão", ele disse recentemente. "Eles vão tentar deixar vocês com medo de mim. Ele é jovem, inexperiente e tem um nome engraçado. E eu já mencionei que ele é negro?"

Steve Schmidt, que comanda as operações do dia-a-dia da campanha de McCain, disse que esta foi levada a emitir a declaração em parte devido aos estragos que viram causados pelas acusações dos simpatizantes de Obama, durante as primárias democratas, de que o ex-presidente Bill Clinton foi racialmente insensível, ou pior.

"A campanha de McCain foi levada a responder a este ataque ultrajante porque não permitiremos que John McCain seja manchado pelo senador Obama como sendo racista, após ter feito críticas legítimas", ele disse. "Nós esperávamos há meses com a sensação de que este momento chegaria, porque vimos o que fizeram com o presidente Clinton. Digam o que quiserem sobre o presidente Clinton; seu retrospecto nesta questão é inatacável."

Na campanha das primárias democratas, os simpatizantes de Obama acusaram em várias ocasiões a campanha de Hillary Clinton de usar táticas com tons raciais, particularmente após Bill Clinton comparar a vitória de Obama na primária da Carolina do Sul com a vitória do reverendo Jesse Jackson na primária de 1988. O próprio Clinton se queixou na época, em uma entrevista de rádio em abril, de que a campanha de Obama "usou a carta da raça contra mim".

Os assessores de Hillary Clinton concluíram que cometeram um erro na campanha ao não tentarem rebater aquela noção com mais força. Howard Wolfson, que foi diretor de comunicação da campanha de Clinton, disse: "A campanha de McCain obviamente assistiu nossas primárias atentamente e reconheceu quão danoso foi a rotulação de uso da raça".

Adam Nagourney e Michael Falcone, em Washington, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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