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02/08/2008

Krugman: esse planeta pode ser salvo?

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
O site The Politico perguntou recentemente a Nancy Pelosi, porta-voz da Câmara dos Deputados norte-americana, por que ela estava bloqueando as tentativas de transformar as emendas sobre perfuração de poços de petróleo no mar em leis de incentivo. "Estou tentando salvar o planeta; estou tentando salvar o planeta", ela respondeu.

Fico contente em saber. Mas continuo preocupado com as perspectivas do planeta.

Verdade, a declaração de Pelosi foi uma lembrança feliz de que a política ambiental não está mais nas mãos de loucos. Lembre-se de que há menos de dois anos o senador James Inhofe - um teórico da conspiração que insistia que o aquecimento global era uma "grande fraude" perpetrada pela comunidade científica - era o presidente do Comitê de Meio Ambiente e Serviços Públicos do Senado.

Além disso, a resposta de Pelosi mostra que ela compreende as questões mais profundas por trás do debate atual sobre energia.

A maior parte das críticas sobre a decisão de John McCain de seguir o rumo tomado pelo governo Bush e adotar a perfuração de poços oceânicos para combater os preços altos da gasolina tem se concentrado na acusação de que isso é uma visão econômica viciada - o que é verdade.

Uma propaganda da campanha de McCain diz que os preços da gasolina estão em alta porque "algumas pessoas em Washington ainda são contra a perfuração oceânica nos Estados Unidos". Isso é basicamente desonesto:
o próprio Departamento de Informações sobre Energia dos EUA diz que remover as restrições para a perfuração oceânica não levaria a uma produção adicional de petróleo até 2017, e que essa a produção extra teria um impacto "insignificante" nos preços do petróleo mesmo quando atingisse o seu ápice.

Ainda mais importante que a visão econômica ruim de McCain, todavia, é o que sua mudança de idéia em relação ao assunto - ele já foi contra a perfuração oceânica - diz a respeito de suas prioridades.

Quando ele ainda cultivava uma imagem de rebeldia, McCain retratava a si mesmo como alguém com uma consciência ambiental maior do que o restante de seu partido. Ele chegou até mesmo a apoiar uma lei que demandava um sistema de créditos de carbono para limitar as emissões de gás de efeito estufa (apesar de suas declarações recentes sugerirem que ele não compreende a própria proposta). Mas ao que parece, bastou a sedução de obter algum ganho político para transformá-lo novamente em um republicano adepto do perfurar-e-queimar.

E o planeta não pode se dar ao luxo de tolerar esse tipo de cinismo.

Por si só, as restrições em relação à perfuração oceânica são um assunto de importância modesta. Mas os conflitos sobre a perfuração são o estágio inicial de uma briga muito maior em relação à política ambiental. O que está em jogo nessa briga, acima de tudo, é se nós iremos entrar em ação contra a mudança climática antes que seja absolutamente tarde demais.

É verdade que os cientistas não sabem exatamente o quanto as temperaturas mundiais irão aumentar se continuarmos tocando com nossos negócios como sempre. Mas essa incerteza é exatamente o que torna a ação tão urgente. Ao mesmo tempo em que existe a possibilidade de agirmos contra o aquecimento global para depois descobrir que o perigo havia sido superestimado, também existe a possibilidade de não agirmos e depois descobrirmos que os resultados da inação foram catastróficos.
Qual risco você prefere correr?

Martin Weitzman, economista de Harvard que tem conduzido a maior parte dos debates recentes de alto-nível, oferece alguns números sóbrios.
Depois de pesquisar uma ampla variedade de modelos climáticos, ele argumenta que, no geral, eles sugerem uma possibilidade de 5% de que as temperaturas do planeta possam aumentar em mais de 10 graus Celsius (ou seja, as temperaturas do mundo irão aumentar 18 graus Farenheit). Conforme Weitzman aponta, isso é o suficiente para "efetivamente destruir o planeta Terra tal como o conhecemos". É uma total irresponsabilidade se não fizermos tudo que pudermos para eliminar essa ameaça.

Agora as más notícias: a total irresponsabilidade pode ser uma estratégica política vencedora.

O argumento de McCain, de que os opositores da perfuração oceânica são responsáveis pelo preço alto da gasolina, é ridículo - e os principais veículos noticiosos apontaram isso, dando crédito a eles. Ainda assim a manobra de McCain parece estar funcionando: o apoio público para acabar com as restrições à perfuração aumentou drasticamente, com cerca de metade dos eleitores dizendo que o aumento na perfuração oceânica iria reduzir os preços da gasolina dentro de um ano.

Por isso a minha preocupação: se um argumento totalmente falso de que a proteção ambiental contribui para aumentar o preço da energia consegue esse tanto de força política, quais são as chances de adotar ações sérias contra o aquecimento global? Afinal, um sistema de créditos de carbono seria na realidade uma taxa sobre as emissões (apesar de McCain aparentemente não saber disso), o que de fato aumentaria os preços da energia.

O único jeito de conseguirmos alguma ação, eu diria, é se aqueles que estão impedindo a ação passarem ser vistos não apenas como equivocados, mas sim como imorais. Incidentalmente, foi por isso que fiquei desapontado com a resposta de Barack Obama à postura de McCain em relação à política energética - de que aquilo era "a mesma política de sempre". Obama se mostrou indiferente quando deveria ter se mostrado indignado.

Mas como já disse, estou muito feliz de saber que Nancy Pelosi está tentando salvar o planeta. Eu só gostaria de ter mais certeza de que ela terá sucesso. Eloise De Vylder

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