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02/08/2008

Para bilionário brasileiro, dinheiro do minério é poder do cosmo

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Salvador
"Estou conectado ao divino e às forças daqui", afirma João Carlos Cavalcanti, o magnata brasileiro da mineração, apontando para o lago coberto de lírios aquáticos que fica atrás da sua mansão de US$ 15 milhões.

Uma brisa suave agita a sua barba branca e espessa. Cavalcante fica de pé no pier e fecha os olhos por um momento. Uma servente uniformizada, que faz parte de uma equipe de 15 empregados, circula por perto levando acepipes e bebidas não alcoólicas. Ela sabe muito bem que não deve perturbar um homem que medita três horas por dia e que refere-se constantemente a si como uma "pessoa mística" que retira a sua força "do cosmo" - quando não está colecionando carros e pinturas caros ou quando não se encontra envolvido com outros passatempos.

Minutos depois, quando Cavalcante retorna, subindo a colina, passando pelos seus jardins de inspiração tailandesa e indonésia, ornamentados com estátuas budistas, o seu telefone celular toca. Um outro banqueiro está ligando, do Canadá, ansioso por fazer negócios com um dos mais novos bilionários brasileiros. Cavalcanti explica que tem os seus próprios projetos grandiosos, a fim de criar um "banco mundial de mineração" com o Merrill Lynch e levantar capital para projetos de prospecção em todo o mundo.

Esta é a vida do novo bilionário no Brasil - a vida com a qual Cavalcanti diz ter sonhado desde os nove anos de idade, e desde que mergulhou na leitura das biografias de Henry Ford, John Jacob Astor e John D. Rockefeller.

Formado em geologia, Cavalcante - ele atende pelas iniciais J.C. - investiu o seu conhecimento e a argúcia considerável na descoberta de grandes reservas de minério de ferro e outros minerais. Hoje ele tem uma fortuna de US$ 1,2 bilhão, o que o coloca entre os 20 homens mais ricos do Brasil. Até o final deste ano, ele garante que terá US$ 1 bilhão em investimentos líquidos, que acompanharão os seus 39 carros, dez casas e dois aviões.

Cavalcanti, 59, é membro de um grupo de mega-ricaços emergentes no Brasil, o país cuja economia aquecida foi, no ano passado, a terceira que mais criou milionários, perdendo apenas para Índia e China, segundo um estudo recente feito pelo Merrill Lynch e pela grande empresa de consultoria Capgemini. Ele faz parte do grupo de novos ricos que se beneficia do boom brasileiro na produção de commodities como a soja e o minério de ferro.

Este grupo inclui Eike Batista, um empresario do setor petrolífero e da mineração que tem um patrimônio de US$ 6,6 bilhões, segundo a "Forbes". Batista, que abandonou a universidade antes de se formar e que é ex-campeão de corridas de lanchas, afirma que irá se tornar o homem mais rico do Brasil no ano que vem.

Atualmente, a lista dos milionários brasileiros ainda tem os seus banqueiros e empresários do setor industrial. De fato, um desses empresários, Antônio Ermírio de Moraes, presidente do Grupo Votorantim, que produz metais, papel, cimento e eletricidade, é tido como a pessoa mais rica da América do Sul, com uma fortuna estimada em US$ 10 bilhões. Logo atrás dele vem Joseph Safra, dono do Grupo Safra, um conglomerado de bancos e firmas de investimentos. Segundo a "Forbes", Safra tem uma fortuna de US$ 8,8 bilhões.

Cavalcanti, filho de um trabalhador braçal de ferrovia, não parecia contar com a probabilidade de tornar-se bilionário. Ele passou os seus primeiros anos em uma casa rústica de dois quartos em Caculê, no Estado da Bahia. Aos 24 anos, Cavalcanti concluiu que a Bahia era muito pequena para ele, e foi trabalhar como consultor para uma firma alemã em São Paulo. Ele passava os domingos dirigindo pelos bairros ricos, fotografando mansões no Morumbi e no Jardim Europa e admirando BMWs e Porsches em exposições.

"Sempre tive uma idéia daquilo que desejava possuir", diz ele.

Mais tarde, ele passou a fazer prospecção de minérios por conta própria. Em 2003, quando o dinheiro para apoiar a sua atividade começou a faltar, ele vendeu a casa de praia e um apartamento para levantar fundos de investimentos. A aposta deu resultado em 2004, quando ele descobriu uma enorme jazida de minério de ferro na Bahia. Outros geólogos já tinham desistido da área havia muito tempo. Segundo Cavalcanti, a Vale do Rio Doce, que é dona de uma reserva de magnésio ali perto, não descobriu a jazida de ferro.

Ele conta que descobriu a jazida quando dirigia à noite, na maioria das vezes sozinho na sua caminhonete com tração nas quatro rodas, guiando-se por velhos mapas regionais de 1937.

Segundo as publicações da indústria de mineração, mais tarde Cavalcanti vendeu a reserva, que contém pelo menos US$ 1,8 bilhão de toneladas de minério, para o empresário indiano Pramod Agarwal por cerca de US$ 360 milhões. Ele não nega essa versão.

"J.C. é um empresário nato", afirma João César de Freitas Pinheiro, diretor-geral-assistente do Departamento Nacional de Produção Mineral. "Ele teve a intuição de que o mercado melhoraria, e esperou uma oportunidade para fazer prospecção quando os preços melhorassem".

Depois disso Cavalcanti entrou em um frenesi de compras. Ele afirma que os seus 39 automóveis valem cerca de US$ 10 milhões, incluindo uma Ferrari, uma Maserati, um Porsche e dois BMWs. O seu amor por carros estende-se a clássicos norte-americanos como a caminhonete Ford 1959 estacionada na sua casa. Cavalcanti diz que está em meio a uma negociação para comprar um Mercedes McLaren cujo valor é US$ 1,4 milhão (segundo ele, somente três brasileiros possuem um McLaren, sendo que um deles é Batista).

Em dezembro do ano passado, ele e a mulher, Renilce, 55, mudaram-se para uma casa no estilo do filme "E o Vento Levou". Recentemente ela exibiu as obras de arte no valor de US$ 3 milhões que o casal comprou para decorar três paredes de uma de suas residências. Todos os quadros são de pintores brasileiros, incluindo Ismael Nery e Flávio de Carvalho. O paisagista brasileiro Gilberto Elkis recebeu US$ 1 milhão para projetar os jardins esculpidos da residência.

Recentemente Cavalcanti comprou um avião Hawker 900 de US$ 15 milhões, bem como um Learjet, de maior autonomia, o que permite que ele faça viagens sem escalas à Europa e aos Estados Unidos.

Filho de imigrantes italianos, Cavalcanti diz que está construindo uma casa na Toscana, a região de onde veio a sua família. Esta será a sua 11ª residência.

Apesar de todos estes bens ostentosos, Cavalcante se descreve como sendo uma alma disciplinada que há muito trocou a vida de playboy por uma outra profundamente espiritual. Ele não bebe nem fuma. Cavalcanti descreve o futebol, a paixão da maioria dos brasileiros, como "uma perda de tempo". Ele diz detestar o carnaval, festa orgíaca que ocorre anualmente no Brasil, e pela qual Salvador é conhecida em todo o mundo.

Ele conheceu a sua mulher, Renilce, em um casamento de família quando tinha 12 anos de idade. Ele conta que os dois têm paixão pelo estudo de gurus espirituais de todos os tipos. A biblioteca da sua casa em Salvador é repleta de livros de autores como Joel S. Goldsmith, da Igreja Cristo Cientista.

Com a sua barba espessa, o cabelo branco ondulado e o seu hábito de falar com os olhos fechados, Cavalcanti parece um membro do movimento New Age. Na sua casa em Salvador, ele medita quase toda manhã às 3h, sentado em uma cadeira budista no quintal, com os braços estendidos, enquanto ouve música relaxante. Às vezes o seu gato, Felicity, participa da meditação.

Ele e a mulher afirmam que todas as coisas vivas devem ser protegidas. Cavalcanti conta que recusou um acordo com um empresário do setor de mineração em 2004 depois que o homem esmagou uma grande formiga com o punho em um restaurante de Salvador. "Eu disse que não faria mais negócio com ele", diz Cavalcanti. "O empresário achou que eu fosse louco".

Ele diz que pretende tornar-se um grande filantropista, de forma semelhante a Warren Buffett e Bill e Melinda Gates. Os Cavalcanti criaram uma fundação para a proteção de animais abandonados, que até o momento tem 2.000 cães e 500 gatos. Cavalcanti diz que pretende ainda criar um hospital para o tratamento de crianças com câncer.

Apesar das armadilhas da riqueza, ele afirma que no fundo continua sendo um explorador. No início do mês passado ele decidiu que era hora de retornar ao campo e procurar mais jazidas de minerais.

"Preciso descobrir novas reservas que possam gerar mais riquezas e mais empregos", diz ele. "Tenho que voltar a ser J.C. no interior".

*Mery Galanternick, no Rio de Janeiro, contribuiu para esta matéria. UOL

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