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04/08/2008

Cientistas decifram funcionamento de "computador" ancestral

The New York Times
John Noble Wilford
Depois de um exame minucioso da máquina de Anticítera, uma maravilha remanescente da antiga tecnologia grega, os cientistas descobriram que a máquina não apenas previa os eclipses solares, mas também organizava o calendário em ciclos de quatro anos equivalentes aos intervalos entre as Olimpíadas, antecessoras dos atuais Jogos Olímpicos.

As novas descobertas, divulgadas na quarta-feira (30) pela revista científica Nature, também sugerem que o projeto do mecanismo teve origem nas colônias de Corinto, possivelmente em Siracusa, na Sicília. Os cientistas disseram que isso poderia implicar uma conexão com Arquimedes.

Arquimedes, que viveu em Siracusa e morreu em 212 a.C., inventou um planetário calculando os movimentos da Lua e dos planetas conhecidos e escreveu um manuscrito perdido sobre mecanismos astronômicos. Algumas evidências já haviam ligado o complexo aparelho de discos e engrenagens à ilha de Rhodes e ao astrônomo Hiparco, que estudou as irregularidades da órbita lunar.

O Mecanismo Antikythera, considerado por alguns como o primeiro computador analógico, foi recuperado há mais de um século no naufrágio de um navio na costa da minúscula ilha de Antikythera, ao norte de Creta. As primeiras pesquisas mostraram que o mecanismo foi provavelmente construído entre 140 e 100 a.C.

Só agora, usando sistemas de imagem de alta-resolução e tomografia de raio-X tridimensional, os especialistas foram capazes de decifrar as inscrições e reconstruir as funções das engrenagens de bronze do mecanismo. A última pesquisa revelou alguns detalhes dos discos localizados no lado de trás do instrumento, como os nomes dos 12 meses de um calendário antigo.

No relatório publicado pela Nature, a equipe liderada pelo matemático e cineasta Tony Freeth do Projeto de Pesquisa do Mecanismo de Antikythera, em Cardiff, País de Gales, disse que os nomes dos meses "são surpreendentemente de origem coríntia", o que sugere "uma herança que data de Arquimedes."

Na época, ainda não se conheciam os nomes dos meses do calendário chamado metônico, notaram os pesquisadores. Esse calendário, assim como outras informações aparentes no mecanismo, ilustram a influência da astronomia babilônica sobre os gregos. O calendário foi usado por babilônicos desde pelo menos o início do século 5 a.C.

Freet, que também é associado da companhia Images First Ltd., em Londres, explicou em uma mensagem de e-mail que o calendário metônico foi elaborado para reconciliar a duração dos meses lunares com o ano solar. Doze meses lunares somam 11 dias a menos do que um ano solar, mas 235 meses lunares cabem dentro de 19 anos.

"A partir disso é possível construir um calendário matemático artificial que mantém a sincronização entre o Sol e a Lua", disse Freeth.

O calendário metônico, observou Freeth, é a base do calendário judaico e dos cálculos para estabelecer a data da Páscoa no calendário cristão.

A ligação do mecanismo com os coríntios foi inesperada, dizem os pesquisadores, porque outros objetos encontrados no naufrágio pareciam ser do leste do Mediterrâneo, de lugares como Kos, Rhodes e Pergamon. Conforme escreveram os cientistas, os nomes dos meses gravados no instrumento são "praticamente os mesmos" dos calendários de Illyria e Epirus, no noroeste da Grécia, e da ilha de Corfu. Os nomes de sete meses sugerem uma possível ligação com Siracusa.

As inscrições também mostraram que um dos discos do instrumento era usado para determinar a época dos jogos pan-helênicos, um ciclo de quatro anos que era "uma estrutura comum para a cronologia" dos gregos, dizem os pesquisadores.

"O mecanismo ainda contém muitos mistérios", disse Freeth, citando as dúvidas existentes sobre algumas das engrenagens remanescentes e sobre um almanaque estelar na frente do mecanismo que confundiu os especialistas.

Entre as principais questões a serem respondidas, cientistas e historiadores dizem que o ainda não se compreende qual o lugar que o Mecanismo Antikythera ocupa no desenvolvimento da tecnologia grega. Várias referências a instrumentos similares aparecem na literatura clássica, incluindo a descrição de Cícero sobre um mecanismo construído por Arquimedes. Mas este, retirado do fundo do mar em 1901, é o único exemplo sobrevivente.

"Acreditamos que esse mecanismo não pode ter sido o primeiro a existir, uma vez que é tão sofisticado e complexo", disse Freeth. "E não entendemos como essa extraordinária tecnologia pôde desaparecer por tantas centenas de anos, para retornar apenas mais tarde nos grandes relógios astronômicos do século 14 em diante." Eloise De Vylder

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