UOL Notícias Internacional
 

04/08/2008

Estrangeiros com moedas fortes fazem inveja aos nova-iorquinos

The New York Times
Alex Williams
Negin Farsad, cineasta e comediante que mora no East Village, lembra-se quando, há não muito tempo, seus amigos europeus visitavam Nova York para vê-la e não, como diz ela, para fazer de seu apartamento "um armário temporário para sacolas de compras".

Farsad, de 32 anos, recentemente acompanhou duas amigas de Londres na inevitável excursão de europeus querendo-comprar-tudo-na-loja-da-Apple, onde elas compraram um MacBook Pro por cerca de US$ 3.000, mais centenas de dólares em memória extra (e por que não?), e continuaram descontroladas em compras que incluíram boutiques do East Village e a Bloomingdale's. À noite, a dupla - ambas trabalham como produtoras de televisão em seu país - jantavam em restaurantes e iam se divertir em bares chiques, sem se preocupar com os custos.

"Lembro que na manhã seguinte, a minha amiga abriu a carteira e disse, 'Parece que gastei US$ 165 pagando três rodadas de bebidas para todo mundo'", lembra Farsad.

"Na terra delas, são pessoas comuns, com empregos simples", acrescentou, "mas aqui, elas agem como se fossem constituídas de três partes de Kimora Simmons (que interpretava uma rica modelo e empresária num reality show) e duas partes do Oasis (a banda inglesa), lá por 1995".

Neste verão, Nova York está inundada de visitantes do exterior, que devem superar o número recorde do verão passado, dizem funcionários do setor de turismo. Graças em parte às suas moedas domésticas que se mantiveram fortes contra o dólar, até mesmo turistas de classe média de Hamburgo, Yokohama ou Perth podem se dar ao luxo de sair adquirindo o estilo Nova York - as roupas, os restaurantes mais na moda, os clubes noturno - a preços de pechincha.

Mas para os nova-iorquinos presos do outro lado do desequilíbrio cambial, é fácil sentir-se ambivalente quanto à invasão. Uma grande entrada de dinheiro estrangeiro é bem-vinda em uma cidade que enfrenta uma economia vacilante e um possível déficit de bilhões no orçamento. Mas mesmo alguns moradores locais que se consideram cosmopolitas e internacionalistas confessam sentir inveja, sem se falar na sensação de ter seu território invadido ao ver pessoas de fora tratarem sua cidade como um Wal-Mart com estilo.

A festa deles se espalha bem na hora em que a ressaca está chegando para os norte-americanos. Os antagonismos surgem - especialmente num verão com uma recessão à espreita, onde muitos dos moradores locais não se sentem suficientemente ricos para viajar para o exterior. (E nem vamos tocar no tema de suas semanas de férias de verão).

"É inveja", disse Randi Ungar, de 30 anos, um gerente de vendas para publicidade online que mora no Upper West Side. "Estou com inveja por não poder ir à Itália comprar 12 bolsas Prada, mas eles podem vir para cá e comprar 18 delas."

Steven Schoenfeld, um gerente de investimentos de 45 anos que mora perto do Lincoln Center, disse que saúda a chegada de visitantes, em teoria, como um estímulo para a economia local, mas "às vezes nos sentimos como se de repente eles fossem parar e tirar uma foto: 'Vejam uma espécie em extinção - um novaiorquino nativo, com uma pasta, indo para o trabalho'".

Polly Blitzer, ex-editora de uma revista de beleza que agora dirige um site na Internet para assuntos de beleza, disse acreditar que uma guerra por território está em andamento este verão entre os europeus que gastam à vontade e os moradores locais, quanto aos bistrôs chiques, spas, boutiques e lojas de departamentos que ela, uma nativa de Nova York considera a sua área de recreação.

Ela disse ter chegado a essa conclusão em uma recente ida à Bergdorf Goodman para ajudar o noivo a comprar um par de sapatos para usar com o smoking em seu casamento.

Usando o tipo de roupa que geralmente funcionaria como uma sirene para os vendedores de lojas de departamentos - um estiloso vestido Tory Burch e sapatos Jimmy Choo - ela se viu em vez disso, esperando atrás de um casal europeu de tênis e calças de ciclista, que "tinham feito tantas compras que não conseguimos ninguém para nos ajudar a encontrar os sapatos Ferragamo tamanho 11 ½ que queríamos levar para a lua-de-mel", lembra Blitzer, de 32 anos.

"Os europeus", ela disse, "compraram sacolas e sacolas de sapatos" enquanto o vendedor embrulhava seus pedidos e conversava com eles a respeito de restaurantes e viagens. "Eu não quis partir para o 'ei-eu-estou-esperando-aqui', mas fomos obrigados a esperar por cinco ou dez minutos enquanto aqueles grandes gastadores ficavam na conversa fiada".

Ela estava acostumada a ser recebida sempre com um serviço de primeira classe, disse, acrescentando que "agora, porém, existe uma ultra-primeira-classe".

Os moradores de Manhattan sem orçamento para comprar na Bergdorf estão descobrindo que são obrigados a trabalhar muito mais - figurativa e literalmente - para poder acompanhar seus amigos da Europa ou da Ásia que vêm visitá-los.

Jessica S. Le, executiva assistente em uma empresa do setor de banco de investimentos que mora no Lower East Side, disse que recentemente começou a fazer horas extras, levando cães para passear, em parte para ganhar a renda extra da qual precisa para encontrar com os amigos do exterior que jantam no WD-50 ou no Suba, ou vão beber no Thor. Tais amigos europeus e asiáticos "aparecem e se divertem em Nova York como se estivessem jogando Candyland", disse ela em um e-mail.

Sim, ela está com inveja das amigas, como aquela de Londres, que chega com as malas vazias, pronta para comprar todo o guarda-roupa do outono. Mas, diz que tenta manter uma atitude realista. No ano passado, foi para o Vietnã onde desfrutou de noites de excelentes jantares para 10, por menos de US$ 20 por pessoa, onde, diz ela, "senti como se estivesse na minha própria Candyland."

O número de viajantes internacionais que devem visitar Nova York em junho, julho e agosto deve subir em cerca de 118.000, dos 3,12 milhões do verão passado (aquele número foi um recorde - e um salto de cerca de 20% em relação a 2006), segundo previsões da NYC& Co., a agência de turismo e marketing da cidade.

Enquanto isso, o euro ascendeu a níveis recorde contra o dólar todo o verão; tem alta de 22% nos dois últimos anos, e desde 2001, quase dobrou contra o dólar. Nos cinco últimos anos, o iene teve alta de quase 12% contra o dólar, a libra britânica 23%, o franco suíço quase 31%, a coroa dinamarquesa 42%, o dólar australiano quase 45%.

Sentindo-se ricos, os visitantes estrangeiros são visivelmente mais pródigos nos seus hábitos de consumo, dizem alguns comerciantes e donos de restaurantes de Nova York.

Richard Thomas, o diretor de marketing da Marquee, uma boate de Chelsea, disse que houve um grande aumento de clientes europeus este verão, e até mesmo visitantes que parecem ser de origens mais humildes que os usuais "jet-setters" que se vestem com Gucci estão agora "dispostos a fazer parte do grupo que pede serviço por garrafa", referindo-se à prática segundo a qual as bebidas são compradas em uma garrafa por vez, por centenas de dólares ou mais.

"Trata-se de pessoas com rendas mais modestas, que simplesmente não entram e pedem 'Hei, quero uma mesa' se estiverem em seus países, como em Londres, onde é caro demais ir ao Boujis," disse Thomas, referindo-se a uma popular boate no distrito de Kensington naquela cidade. "Mas em Nova York, eles conseguem isso".

Eytan Suygarman, que é dono, com seus sócios, Trace Ayala e Justin Timberlake, do restaurante Southerns Hospitality no Upper East Side, disse que não é incomum, neste verão, ver turistas estrangeiros encomendarem várias entradas diferentes, só para degustá-las, sem consumir totalmente nenhuma delas.

Autoridades municipais e proprietários de empresas dão as boas-vindas a tais extravagâncias. Muitos saúdam a onda de turistas em Nova York como um dos principais fatores que mantêm a economia em pleno curso durante esse problemático período econômico.

Na EOS New York, uma boutique de relógios e acessórios no West Village, a base de clientes é formada agora por cerca de 70% de turistas internacionais, disse o proprietário da empresa, Mukul Lalchandani. "Desnecessário dizer que, com a economia em má situação, nós recebemos muito bem esse aumento no tráfego," ele diz.

No Buddakan, o restaurante pan-asiático do tamanho de um hangar no Meatpacking District (o bairro dos atacadistas de carne), o tráfego de estrangeiros aumentou de 20% a 30% nos quatro últimos meses, disse o proprietário Stephen Starr.

"É uma coisa maravilhosa que em um clima econômico tão difícil nós tenhamos essa espécie de apólice de seguro em divisas estrangeiras," disse Starr. "E para ser honesto com você, é ótimo estar em um restaurante e ouvir tantos idiomas diferentes. É algo que se acrescenta à teatralidade da experiência."

A NYC & Co. calcula que os gastos dos turistas internacionais aumentaram 20% no primeiro trimestre do ano. Embora a agência só venha a encerrar no final do ano a compilação de estatísticas sobre gastos de turistas nos meses de verão, tais tendências geralmente se mantêm fortes durante os meses mais quentes, disse Tiffany Townsend, uma porta-voz da agência.

No início dessa década, eram os americanos que arrematavam pechinchas em Champs Elisées. Marie Monte, de 23 anos, estudante de direito de Paris que estava em férias em Nova York na semana passada, disse que lamenta os problemas monetários que os americanos enfrentam hoje em dia. "Mas eu lembro", diz, "há algum tempo, era muito mais difícil quando a moeda aqui era mais forte. Se você quisesse ir a Nova York de férias, não se sabia o que dava para fazer". Embora alguns nova-iorquinos se retorçam de inveja, outros admitem que a tendência tem seus benefícios também.

Sarah Geary, inglesa diretora de marketing da Mulberry, a empresa britânica de moda, em geral se vê trabalhando de graça para seus amigos britânicos como guia de turismo, compradora e cartógrafa (ela desenha para eles um mapa de quem conhece bem a Nova York da badalação, a começar pela Barneys, passando pelo Meatpacking District com paradas em lojas como a Scoop ou a Jeffrey, depois terminando em downtown para jantar em locais como Freemans ou Socialista).

Em troca, os visitantes mostram-se extraordinariamente dispostos a pagar a conta no fim do dia. "Eles dizem literalmente: 'Venha encontrar comigo para jantar - e traga alguns amigos'", disse Geary. "Isso", diz ela, "é algo que os britânicos jamais fazem." Claudia Dall'Antonia

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