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05/08/2008

Friedman: o que o gelo do Círculo Ártico nos revela sobre a mudança climática?

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Jorgen Peder Steffensen me fez uma oferta que não pude recusar: "Se você vier a Copenhague, eu lhe mostrarei neve de Natal - neve de Natal de verdade, a neve que caiu entre 1 a.C. e 1 d.C.".

Bem, isso é uma oferta que não fazem a gente todos os dias! Por outro lado, eu não vou ao Círculo Ártico todos os dias. "Posso lhe mostrar também uma amostra da última neve que caiu bem no final da última era do gelo, ocorrida 11,7 mil anos atrás", disse Steffensen. "Ou quem sabe você não gostaria de ver amostras de ar que contêm traços de enxofre da erupção vulcânica do Monte Vesúvio que destruiu Pompéia no ano 79 da nossa era"?

Steffensen é especialista em gelo e curador da mais completa coleção de amostras de gelo do passado - uma espécie de DNA atmosférico retirado por meio de perfurações nas geleiras da Groenlândia - que são preservadas em depósitos refrigerados na capital dinamarquesa. Quanto mais profundamente os cientistas puderem perfurar o gelo, melhor será o quadro que eles serão capazes de apresentar referente ao clima em eras passadas - e, portanto, mais nós saberemos a respeito de alterações climáticas.

Cada camada de gelo contém água e bolhas de ar que ficaram aprisionadas na neve. Quando analisadas por cientistas, elas revelam em grande detalhe a temperatura, a quantidade e as origens da poeira vulcânica, e até mesmo a concentração de água marinha na atmosfera, e, portanto, a distância que havia entre a geleira e o oceano.

Imagine por um momento um freezer cheio de tais cubos de gelo reveladores. Cada cubo de gelo representa os dados atmosféricos referentes a um determinado ano, englobando um período de 150 mil anos, desde o início da formação das atuais geleiras da Groenlândia. Bem, Steffensen, a mulher dele, Dorthe Dahl-Jensen, ambos do Centro de Gelo e Clima do Instituto Niels Bohr da Universidade de Copenhague, e uma equipe de especialistas internacionais estão criando precisamente este tipo de freezer com amostras de gelo retiradas aqui, no extremo norte da Groenlândia, no Círculo Ártico.

Eu viajei para o mais novo campo montado por eles com um grupo de especialistas liderado pelo ministro do Clima e da Energia da Dinamarca, Connie Hedegaard, e que contava ainda com Rajendra Pachauri, diretor do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, da Organização das Nações Unidas (ONU), que dividiu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado com Al Gore. Nós viajamos em um avião Hercules C-130 da Força Aérea da Guarda Nacional dos Estados Unidos, cujo trem de pouso tinha esquis - e não rodas -, já que a pista de aterrissagem consistia apenas em uma faixa escavada no gelo e na neve.

Esta é sem dúvida uma das mais notáveis e isoladas estações de pesquisa do mundo. Para onde quer que se olhe, vê-se uma planície perfeita de gelo e neve que se estende até o horizonte. De fato, é possível enxergar tão longe em todas as direções que se tem a sensação de que dá para ver a curvatura da Terra. A estação consiste de uma cúpula geodésica aquecida na qual os cientistas comem, uma dúzia de tendas pouco aquecidas nas quais os pesquisadores (e os convidados) dormem em sacos de dormir com isolamento térmico e um laboratório subterrâneo de pesquisas, escavado no gelo, onde eles estão instalando a sonda perfuradora e o equipamento do laboratório de gelo. No decorrer dos três próximos "verões", os cientistas retirarão amostras de gelo até alcançarem a camada de rocha continental da Groenlândia, a uma profundidade de cerca de 2,4 quilômetros, cobrindo o equivalente a 150 mil anos em camadas de gelo acumulado.

O objetivo deles é fazer algo nunca feito anteriormente: traçar um quadro completo do clima da Groenlândia, incluindo a era do gelo de 200 mil a 130 mil anos atrás, o período de aquecimento conhecido como Eemiano, de 130 mil a 115 mil anos atrás, a última era glacial, ocorrida de 115 mil a 11.703 anos atrás, e o atual período de aquecimento, no qual nos encontramos (Lembre-se: a Terra é geralmente uma bola de gelo; os períodos interglaciais quentes são exceções).

O último projeto de perfuração realizado por eles aqui, que foi concluído em 2004, concentrou-se nas camadas referentes ao período de 14,5 mil a 11 mil anos atrás. Aquele projeto ainda está provocando um alvoroço na comunidade de estudos climáticos. Em um artigo recém-publicado no periódico "Science Express", a equipe Dahl-Jensen narrou como descobriu, a partir das amostras de gelo, que a circulação atmosférica no Hemisfério Norte sobre a Groenlândia "mudou abruptamente" no momento em que a última era glacial terminou, cerca de 11,7 mil anos atrás.

Ao que parece, o fenômeno foi provocado por uma mudança súbita nas monções nos trópicos. A mudança foi tão abrupta que provocou um aquecimento de 10ºC no Hemisfério Norte, na região da Groenlândia, em um período de apenas 50 anos - uma elevação drástica.

"Isso demonstra que o nosso sistema climático tem a capacidade de provocar por conta própria mudanças bastante abruptas", afirma Dahl-Jensen.

Certos indivíduos que negam a existência da mudança climática diriam que isso prova que a humanidade não é um fator importante para este tipo de alteração. Mas especialistas como Dahl-Jensen dizem que as coisas não são assim tão simples: o clima está sempre mudando, às vezes de forma bastante abrupta, de forma que a última coisa que os seres humanos deveriam fazer é acrescentar as suas próprias ações a esta equação - por exemplo, despejando na atmosfera uma quantidade sem precedentes de gases causadores do efeito estufa. Isso porque nunca se sabe o que desequilibrará a balança, jogando-nos em uma outra mudança súbita e em uma outra era climática. UOL

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