UOL Notícias Internacional
 

05/08/2008

Fugitivo da Bósnia permanece herói para alguns, um açougueiro para outros

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Bozinovici, Bósnia-Herzegovina
Ratko Mladic, acusado do pior massacre na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e atualmente o fugitivo mais procurado pelas atrocidades nas guerras dos Bálcãs, cresceu nesta pobre aldeia montanhesa remota que é coberta por corvos. Aqui, como em muitos lugares onde vivem os sérvios, sua proeza militar, seu inegável sofrimento e a escala imponderável dos crimes dos quais é acusado o transformaram em um mito nacional.

Ele é um sobrevivente calejado, seu caráter forjado pela pobreza, pelo assassinato de seu pai e pelo suicídio de sua filha - com a pistola favorita dele.

"Sua mãe não tinha emprego, não tinha pensão, não tinha marido, então desde cedo Ratko teve que lutar para sobreviver", disse seu primo Stretko Mladic. "Mas ele era forte. Ele podia nadar mais rápido do que qualquer um, mergulhar mais fundo, correr mais rápido, atirar pedras por sobre seu ombro mais longe."

"Ele é teimoso, determinado e nunca desiste", acrescentou o primo. "Se existir um mundo debaixo do mar, então ele está escondido lá."

Agora que a Sérvia extraditou o líder bósnio-sérvio Radovan Karadzic para o tribunal de crimes de guerra de Haia na Holanda cresce a pressão sobre a Sérvia para prisão de Mladic, o carrancudo general jogador de xadrez de Karadzic, que comandou o cerco a Sarajevo e é acusado de orquestrar o massacre em Srebrenica.

Mas analistas e investigadores bósnios e sérvios dizem que a captura de Mladic poderá ser mais difícil. A Sérvia pode estar relutante em caçar ativamente um homem que muitos sérvios consideram um herói genuíno. Como uma pessoa que tinha acesso direto ao topo da cadeia de comando, ele tem conhecimento detalhado do envolvimento da Sérvia nas atrocidades dos anos 90, e isto pode protegê-lo. Muitos especialistas acreditam que ele vem se escondendo ao longo dos anos em várias bases militares, protegido por soldados.

Mas para as famílias de milhares de vítimas muçulmanas bósnias das atrocidades, advogados da Justiça internacional e políticos europeus que julgam o pedido da Sérvia de ingressar na União Européia, o tempo para desculpas já se esgotou: a Sérvia, eles argumentam, não cumpriu seu dever ao prender apenas Karadzic.

"Se Karadzic era o cérebro político por trás da guerra na Bósnia, então Mladic era o açougueiro que executava suas ordens", disse Hatidza Mehmedovic, que estava presente no enclave protegido pela ONU em Srebrenica, em 11 de julho de 1995, quando, ela disse, testemunhou Mladic ordenar aos seus soldados que reunissem parte dos cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos - incluindo os dois filhos dela - que foram posteriormente mortos pelas forças paramilitares sob seu comando.

"Eu não vou dormir até que Mladic esteja sob custódia", ela acrescentou. "Ele é aquele com mais sangue nas mãos."

Atualmente com 66 anos e, segundo amigos, em mau estado de saúde, Mladic conseguiu não ser preso por mais de uma dúzia de anos após ser indiciado, como Karadzic, por acusações de genocídio ligado ao massacre de Srebrenica e pela morte de civis durante o bombardeio a Sarajevo, que deixou mais de 10 mil mortos.

Karadzic, um ex-psiquiatra, foi finalmente capturado em 21 de julho vivendo abertamente em Belgrado, Sérvia, disfarçado como um guru da Nova Era. Mas as pessoas que conhecem Mladic disseram que ele é menos ostentoso que Karadzic, é bem-treinado em inteligência militar e é adepto de se tornar invisível.

Seu primo disse que as técnicas de sobrevivência de Mladic foram aperfeiçoadas desde cedo, e ele contou que o assassinato do pai de Mladic durante a Segunda Guerra Mundial, por croatas nazistas, o forçou a se tornar auto-suficiente.

Ljiljana Bulatovic, que escreveu vários livros sobre Mladic, disse: "Radovan é um exibicionista, um poeta-intelectual que gosta de aparecer, mas Ratko é modesto e extremamente disciplinado. Ele tem muitos amigos entre os militares, que são profundamente leais a ele. Eu acho que ele se mataria antes de se entregar. Ele tem dignidade demais para ser capturado".

Autoridades de inteligência e analistas de segurança acreditam que Mladic esteja vivendo em um algum lugar na Sérvia ou em Srpska, a parte da Bósnia dominada pelos sérvios e uma pretensa república. No passado, ele foi protegido por uma rede de ex-companheiros militares.

É difícil exagerar a força dos laços forjados entre muitos membros do establishment militar na Iugoslávia de Tito. O Exército Popular Iugoslavo, juntamente com os serviços de segurança, era uma das instituições mais sigilosas no Leste Europeu comunista.

Quando Slobodan Milosevic explorou as queixas sérvias para conquistar o controle da Iugoslávia no final dos anos 80, ele também apelou aos oficiais do exército, doutrinados a manter a velha federação iugoslava, de que precisavam agir para tentar impedir sua dissolução.

O início da carreira militar de Mladic foi moldado pela ideologia comunista de Tito, que pedia uma irmandade iugoslava entre as seis repúblicas multiétnicas do país. Mas com a ascensão do nacionalismo sérvio nos anos 80 e o começo da desintegração da Iugoslávia em 1991, Mladic estava pronto para fazer sua parte nos esquemas concebidos por Milosevic para proteger e assegurar o domínio dos sérvios, o maior grupo étnico.

"Mladic voltou seu ódio e violência contra o que percebia como sendo ameaças ao seu país: o Ocidente, o nacionalismo albanês e os muçulmanos", disse Seki Radoncic, um importante jornalista investigativo bósnio.

Em 2 de maio de 1992, um mês após a declaração de independência da república bósnia, as forças de Mladic bloquearam Sarajevo. Elas bombardearam a cidade e destruíram suas mesquitas. Os moradores viviam em constante medo de atiradores.

Mais de 10 mil pessoas morreram em Sarajevo durante o cerco, incluindo cerca de 1.500 crianças. Milhares de sérvios também morreram no conflito bósnio.

Pessoas que se encontraram com Mladic durante a guerra disseram que ele freqüentemente criticava os políticos, preferindo a companhia de seus soldados, aos quais rotineiramente se juntava na linha de frente. Enquanto outros mergulhavam em trincheiras durante um ataque pelas forças bósnias, eles disseram, ele permanecia em pé, aparentemente sem temer a morte.

Muitos observadores tanto na Sérvia quanto na Bósnia acreditam que Mladic caiu em profunda depressão, e possivelmente loucura, após o suicídio de sua filha Ana, uma estudante de medicina de 22 anos que se matou em março de 1994, supostamente por causa de um artigo de uma revista sérvia que descrevia seu pai como um assassino.

O dr. Zoran Stankovic, um ex-legista militar chefe e ex-ministro da Defesa sérvio, que realizou a autópsia na filha de Mladic e era um de seus principais confidentes, disse que o suicídio de Ana chocou profundamente seu pai.

Stankovic lembrou que após completar a autópsia, Mladic lhe pediu que cortasse um pedaço do cabelo dela e que extraísse a bala da cabeça dela para que ele guardasse como recordação.

"Após o suicídio eu nunca mais vi o brilho nos olhos dele, só tristeza", ele disse.

Em 11 de julho de 1995, às vésperas do massacre de Srebrenica, um Mladic desafiante fez um discurso pela televisão bósnia-sérvia, durante o qual ele "chegou o tempo de vingar séculos de conquista pelos muçulmanos otomanos".

Mehmedovic, a testemunha, alega ter visto Mladic em Srebrenica, sorrindo e distribuindo doces para as crianças muçulmanas enquanto uma equipe de televisão sérvia filmava. Quando as câmeras eram desligadas, ela disse, o rosto dele repentinamente ficava sem expressão e ele bradava ordens para os oficiais começarem a carregar os ônibus com homens e meninos, para conduzi-los para a morte.

Após o final da guerra da Bósnia, ele se mudou para Belgrado e viveu em uma grande casa de pedra no endereço Blagoja Parovica, 117A, em um subúrbio, onde era protegido por Milosevic. Testemunhas disseram que o avistaram comendo em caros restaurantes italianos e assistindo uma partida de futebol no estádio, cercado por guarda-costas.

Depois que Milosevic foi preso em 2001, investigadores disseram acreditar que Mladic se refugiou em seu bunker militar subterrâneo do tempo da guerra em Han Pijesak, no leste da Bósnia. Alguns moradores disseram tê-lo avistado trabalhando como apicultor. A Otan realizou várias caçadas na região, sem sucesso.

No início de 2006, um relatório da inteligência militar sérvia, que vazou para a imprensa, declarava que Mladic esteve escondido em instalações do exército em Srpska e na Sérvia, protegido por uma rede de 50 oficiais do exército e de inteligência, até 1º de junho de 2002, quando a Sérvia aprovou uma lei concordando em cooperar com o tribunal de Haia. Depois disso, ele desapareceu.

Naquele mesmo ano, a polícia prendeu dois soldados suspeitos de ajudar a escondê-lo. Durante o julgamento que se seguiu, foi relatado que ele foi levado do quartel do exército para uma série de apartamentos particulares em Belgrado. Os promotores disseram que ele recebeu uma empregada, mantimentos e cartões telefônicos, além de terem lhe oferecido uma cirurgia plástica e um passaporte falso para ajudá-lo a fugir do país. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host