UOL Notícias Internacional
 

06/08/2008

Após ataque mortífero, cidade no extremo oeste da China retorna ao normal

The New York Times
Edward Wong
Em Kashgar, China
Homens idosos circulam em carroças de burro pelo labirinto formados pelas ruelas cor de areia desta antiga cidade, mochileiros estrangeiros discutem com vendedores o preço de carpetes de lã, e as lojas e mercados estão abertos. Alguns policiais caminham pelas ruas, e os fiéis dirigem-se às mesquitas.

Na terça-feira (5), esta cidade fronteiriça, situada 4.000 quilômetros a oeste de Pequim, não parecia estar sob nenhum tipo de alerta contra o terrorismo, e tampouco dava a impressão de ser um lugar onde, segundo as autoridades, apenas 24 horas antes ocorreu o pior ataque terrorista da história recente da China.

"Ontem eu ouvi as sirenes da polícia, mas hoje o clima é de segurança", disse um motorista de táxi que, como praticamente todas as pessoas entrevistadas em Kashgar, recusou-se a fornecer o seu nome, alegando ter medo de uma represália do governo.

Quando perguntamos a ele quem pode ter perpetrado o ataque da segunda-feira contra as forças de segurança, o motorista respondeu: "Naquela rua há todo tipo de gente circulando".

As autoridades afirmam que os dois homens, ambos da etnia uighur, o grupo muçulmano túrquico que habita a região ocidental de Xinjiang, lançaram o seu caminhão contra um grupo de policiais paramilitares que davam a sua corrida matinal, e a seguir jogaram explosivos contra eles e os esfaquearam, matando 16 e ferindo outros 16.

As autoridades dizem que os homens pertencem ao Movimento de Independência do Leste do Turquistão, que deseja a independência para os muçulmanos no oeste da China, e que são classificados pelo governo chinês e o Departamento de Estado dos Estados Unidos como uma organização terrorista. Os chineses afirmam que o grupo está tentando conturbar os Jogos Olímpicos, que têm início na próxima sexta-feira, por meio do terrorismo.

She Dagang, o secretário do Partido Comunista de Kashgar, disse na terça-feira em uma coletiva à imprensa que os homens, ainda não identificados, foram presos e confessaram, e que o julgamento de um deles já teve início. "Eles desejam transformar 2008 em um ano de luto para a China", disse Shi. "Um líder do Movimento de Independência do Leste do Turquistão disse certa vez que os Jogos Olímpicos de Pequim representam para o grupo a última chance de desfechar um grande ataque terrorista, e que eles têm que fazer isso ainda que o efeito de tal atentado seja tão inócuo quanto um ovo arremessado contra uma pedra".

Mas acadêmicos independentes de Xinjiang têm dúvidas de que o ataque tenha sido de fato um ato terrorista, e afirmam que os chineses estão agitando a bandeira da sua própria "guerra contra o terrorismo" a fim de aumentar o controle sobre a área, uma região de uma minoria étnica de pensamento independente e que é rica em petróleo e gás natural.

O que quer que tenha motivado o ataque fez com que surgissem questões relativas à viabilidade da política chinesa em Xinjiang, até mesmo neste momento em que a China tenta promover a imagem de uma "sociedade harmônica" para as Olimpíadas.

"A China está conquistando os corações e mentes do povo uighur?", questiona Dru C. Gladney, um famoso acadêmico ocidental especializado nos muçulmanos chineses, e que leciona no Pomona College, em Claremont, na Califórnia. "Este tipo de incidente sugere que não".

Gladney e outros especialistas afirmam que o escrutínio mais detalhado da narrativa da investida promovida pelas autoridades chinesas e da história de Xinjiang sugere que o ataque foi provavelmente perpetrado por indivíduos insatisfeitos, e não um ato de terrorismo (que, segundo várias definições, envolve violência dirigida contra civis, e não contra forças de segurança).

"Há muitos ataques vingativos contra a polícia, autoridades governamentais ou imames que são tidos como colaboradores", afirma Gladney. "Eu não ficaria surpreso se um desses indivíduos tivesse um vínculo pessoal com a polícia".

Os ataques por vingança contra a polícia têm aumentado em toda a China. Em 1º de julho último, um homem jogou coquetéis Molotov contra um posto policial em Xangai, e a seguir esfaqueou os policiais que estavam dentro, tendo matado seis. O suspeito, Yang Jia, tinha sido acusado pela polícia de comprar uma bicicleta roubada, mas mais tarde ficou provado que ele não era culpado.

Alguns dias antes, cerca de 30 mil pessoas atearam fogo a um posto policial na província de Guizhou e saquearam os prédios do governo devido a suspeitas de que os policiais estivessem encobrindo os detalhes relativos ao possível estupro e assassinato de uma garota.

O local em que ocorreu o ataque em Kashgar, em frente ao Hotel Yiquan, de três andares, situado na Rua Seman, era tratado na terça-feira como um lugar em que foi cometido um crime de menor importância, e não um grande ataque.

Uma delgada lona plástica foi pregada na fachada do hotel. Não havia presença ostensiva da polícia, com a exceção de dois policiais que chegaram depois que mais de dez repórteres aglomeraram-se de manhã no quarteirão.

Jane Hooker e Andrew Jacobs, em Pequim, e Jessie Jiang contribuíram para esta matéria. UOL

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