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07/08/2008

Marcha olímpica da China oferece lições sobre a flexibilidade do partido

The New York Times
Jim Yardley
Em Pequim
Quando Pequim dava início à construção dos seus principais estádios olímpicos quatro anos atrás, o vice-presidente e principal articulador político da China, Zeng Qinghong, advertiu os 70 milhões de membros do Partido Comunista que o próprio partido poderia passar por uma certa reconstrução.

Zeng argumentou que as "lições dolorosas" aprendidas com o colapso de outros partidos comunistas na União Soviética e na Europa Oriental não poderiam ser ignoradas. Ele afirmou que os líderes chineses precisavam "acordar" e descobrir que "o status de um partido como grupo do poder não dura necessariamente tanto quanto o próprio partido".

Zeng, atualmente aposentado, referia-se às pressões da liberalização econômica, da estagnação política e da globalização, que, segundo muitos analistas, acabariam derrubando o governo de partido único na China. As Olimpíadas também representavam um ponto de pressão, e certos analistas acreditavam que as expectativas e o escrutínio internacional vinculados aos Jogos poderiam ajudar a abrir um outro sistema político autoritário - conforme aconteceu em Seul em 1988.

Mas, se as Olimpíadas apresentaram desafios e crises indubitáveis, o Partido Comunista mostrou que é flexível. O apetite público por reformas não diminuiu, mas o efeito colateral de curto prazo das Olimpíadas foi uma intensificação do patriotismo chinês que fortaleceu o partido, possibilitando que este enfrentasse as críticas internacionais após a onda de repressão contra os manifestantes tibetanos em março e a controvérsia a respeito do percurso internacional da tocha olímpica.

A mudança econômica e social é tão rápida na China que o Partido Comunista é às vezes descrito como um administrador que não dá mais conta do trabalho. Mas nos sete anos passados desde que Pequim foi escolhida para sediar os jogos, o partido adaptou-se e seguiu em frente, reduzindo a repressão contra elementos da sociedade, ainda que esmagasse ou cooptasse as ameaças ao seu controle do poder político.

O partido absorveu empresários, profissionais urbanos e estudantes universitários em uma classe de elite vinculada ao status quo político, ainda que não faça necessariamente parte dele. Capitalistas privados podem ser o símbolo de uma China em processo de mudança, mas o partido também agarrou-se firmemente aos pilares mais lucrativos da indústria e do sistema financeiro, e nem sempre é fácil fazer uma distinção entre as maiores companhias privadas e as suas congêneres estatais na economia híbrida da China.

Enfrentando a fúria popular devido à corrupção, as autoridades chinesas precisam agora participar de sessões anuais de treinamento como parte de um programa de âmbito nacional - nem sempre bem-sucedido - para a elevação da competência. E, se as autoridades abandonaram há muito tempo os esforços para o controle de pensamento no estilo maoísta, a máquina de propaganda ainda inflama paixões nacionalistas, ou as suprime, dependendo das prioridades do partido.

"Esse é um partido que reflete bastante", afirma David Shambaugh, cientista político da Universidade George Washington e autor do livro "China's Communist Party: Atrophy and Adaptation" ("O Partido Comunista da China: Atrofia e Adaptação"). "Os seus membros têm grande capacidade de adaptação, pensam muito e são abertos, dentro de certos limites. Mas a questão fundamental é a sobrevivência. E eles vêem a sobrevivência como resultado da adaptação".

A questão suprema é saber se a adaptação sozinha é suficiente. Muitos analistas afirmam que a ausência de uma reforma democrática está prejudicando a eficiência econômica da China e que as reformas são necessárias para o enfrentamento de questões como a enorme desigualdade e a degradação ambiental. Milhares de protestos irrompem todos os anos devido aos confiscos ilegais de terras e à corrupção oficial. A crise do Tibete revelou que o nacionalismo chinês é uma grande força política, ainda que ele tenha exposto questões domésticas não resolvidas relativas à liberdade de religião e aos direitos das minorias. Para alguns analistas, a truculenta resposta oficial à questão do Tibete revelou uma liderança insegura e na defensiva.

"O partido não tem auto-confiança em relação à sua legitimidade", afirma Zhang Xianyang, um analista político liberal de Pequim. "Desta forma, o governo exibe uma reação exagerada face à turbulência social. Creio que o regime não é tão forte quanto pensam os estrangeiros e os cidadãos comuns. Mas ele também não é tão fraco quanto acha".

Negócios do partido
Para o Partido Comunista, a escolha da China, em julho de 2001, para sediar as Olimpíadas de 2008 foi um golpe político e histórico: um presente que eles poderiam fornecer aos cidadãos entusiasmados e um novo ponto focal, sete anos no futuro, que poderia ser utilizado para estimular o orgulho nacional.

Dentro do partido, os líderes concentraram-se atentamente na viabilidade do sistema. O partido não enfrentava nenhuma oposição organizada; até porque nenhuma oposição é permitida. Mas a liderança, nervosa com as tendências históricas, ordenou que fossem realizadas autópsias completas do colapso dos governos da União Soviética e da Europa Oriental. Em junho de 2001, um mês antes do anúncio das Olimpíadas, o departamento de organização do Comitê Central do Partido Comunista, que supervisiona as promoções e treinamentos no partido, publicou um relatório contundente que revelou a profunda raiva popular e recomendou "reformas do sistema" a fim de enfrentar os problemas da corrupção e da incompetência.

A economia da China disparava, e o país preparava-se para ingressar na Organização Mundial de Comércio. Mas se era verdade que o livre comércio poderia alavancar as exportações da China, o relatório do partido advertiu também que uma integração mais profunda na economia mundial poderia "implicar em perigos e pressões crescente, e é possível prever que no período seguinte o número de protestos públicos aumentará, prejudicando seriamente a estabilidade social".

O desmantelamento da economia planificada já representara um desafio ideológico: o que fazer quanto a uma classe emergente de capitalistas que estava acumulando riqueza rapidamente? Para os marxistas da velha guarda, aceitar os capitalistas seria uma apostasia, mas para um partido que temia qualquer grupo emergente como um rival na disputa pelo poder, isso pareceu ser uma política inteligente. Menos de duas semanas antes do anúncio das Olimpíadas, Jiang Zemin, que na época era o presidente, escolheu o 80º aniversário do partido para declarar que os capitalistas deveriam ser convidados a ingressar nas suas fileiras.

Os reformistas esperavam que os empresários privados pudessem um dia revelar-se uma força para a democratização. Mas, atualmente, juntamente com o fluxo de autoridades do partido para o setor empresarial, a mistura de dinheiro e poder fez com que as distinções nítidas entre os setores estatal e privado tornassem-se menos significantes do que no Ocidente. O empresariado estabeleceu vínculos mais estreitos com o governo e o partido no intuito de obter acesso aos empréstimos dos bancos estatais e tirar proveito da rede de burocratas que controlam os contratos imobiliários e governamentais. Estudantes universitários de olho em uma carreira no governo ou na academia muitas vezes fazem o mesmo cálculo.

"O partido parece estar contente com isso", afirma Bruce Dickson, acadêmico especializado na China, professor da Universidade George Washington e autor do novo livro "Wealth Into Power: The Communist Party's Embrace of China's Private Sector" ("Transformação de Riqueza em Poder: A Adoção do Setor Privado da China pelo Partido Comunista"). "Eles não estão em busca de ideólogos inflexíveis. O que querem é cooptar as pessoas para que elas façam parte do seu sistema. E eles têm tido muito mais sucesso do que as pessoas acreditam".

Além de gerenciar a ascensão da iniciativa privada, o partido também enfrentou o colapso de grande parte da economia estatal.

A fatia estatal da economia caiu de 80% em 1997 para cerca de 35% em 2006, de acordo com uma recente análise publicada no periódico "China Economic Quarterly". Mas a redução dessa fatia não reflete um declínio de influência. As análises do colapso do bloco soviético, feitas pelo partido, culpam os países pós-comunistas por terem se apressado de forma descuidada a adotar a privatização. A fim de preservar a proeminência do partido, as autoridades graduadas adotaram uma política de venda de pequenas empresas com baixas margens de lucro, mantendo, porém, o controle sobre as maiores indústrias.

Atualmente o Estado ainda exerce controle efetivo sobre recursos naturais como petróleo, gás e carvão, refinação de petróleo, produção de aço e metais ferrosos, telecomunicações, transporte, geração de energia elétrica e o sistema financeiro.

Arthur Kroeber, editor do "China Economic Quarterly", afirma que as autoridades chinesas injetaram competição no setor estatal ao lançar uma entidade estatal contra outra, sem abrir mão do controle sobre as indústrias estratégicas.

"Eles retiveram todas as indústrias maiores e que apresentam um grande fluxo de capital", diz Kroeber.

Agente da mudança
Se existe algo que tem sido um agente da mudança na sociedade chinesa, este fator chama-se Internet. Em 2001, a China tinha 26,5 milhões de usuários da Internet. Atualmente este número é de 253 milhões, o maior do mundo. Um desses usuários é um engenheiro de software chamado Lu Yunfei, que juntou-se à multidão aglomerada na Praça da Paz Celestial na noite em que Pequim ganhou o direito de sediar as Olimpíadas.

No ano seguinte, Lu começou a surfar na Web e logo deparou-se com as notícias sobre a visita feita pelo primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, a um templo que homenageia os soldados japoneses, incluindo alguns acusados de cometer atrocidades na China. Furioso, ele tornou-se um dos membros da legião de ciber-nacionalistas do país.

"Fiz uma virada de 180 graus na minha vida devido à Internet, como resultado da liberdade de informação", diz Lu, que atualmente tem 33 anos. "O movimento patriota é um resultado do desenvolvimento da Internet".

A liberdade de informação sempre foi considerada essencial para a liberalização da China, e a Internet disseminou quantidades de informação que anteriormente eram impensáveis. Apesar de um firewall da Internet e de dezenas de milhares de censores, os dissidentes ainda publicam petições que antigamente não seriam lidas. Os agricultores publicam vídeos de manifestações no YouTube. Mas o nacionalismo também floresceu nesse universo online, transformando-se em uma força complicada que o partido muitas vezes foi capaz de cultivar em benefício próprio. Em 2005, em meio a um impasse diplomático entre China e Japão, milhares de manifestantes chineses organizaram furiosas passeatas anti-nipônicas em Pequim, Xangai e outras cidades. Inicialmente, o governo aprovou a manifestação, ainda que os protestos fossem ilegais. Mas, quando as manifestações cresceram, a polícia suprimiu-as.

Neste ano, as controvérsias em torno das Olimpíadas colocaram o nacionalismo chinês no cenário mundial. Nos dias que se seguiram às violentas rebeliões tibetanas, a mídia estatal dedicou horas à cobertura dos ataques dos tibetanos contra os chineses de etnia han, bem como a documentários televisivos que elogiavam as políticas econômicas aplicadas no Tibete. Quando líderes ocidentais passaram a pedir à China que agisse com comedimento na supressão do levante, chineses nacionalistas correram a defender o partido na Internet.

A fúria patriótica intensificou-se em abril, após os protestos contra a China que perturbaram a cerimônia de passagem da tocha olímpica em Londres e Paris. As vozes que pediam moderação, ou que questionavam a responsabilidade do governo na crise do Tibete, foram sufocadas. Conforme ocorreu três anos antes durante os protestos anti-nipônicos, as autoridades inicialmente aprovaram tacitamente o fervor e até mesmo um boicote à rede francesa de supermercados Carrefour, mas depois reprimiram essas manifestações a fim de criar uma imagem mais harmônica antes dos Jogos Olímpicos.

Controlando o orgulho
Para o Partido Comunista, o nacionalismo foi sempre uma justificativa central para o seu reinado. Crianças nas escolas aprendem a história heróica do partido como o salvador da China em 1949, e como o agente que libertou o Tibete do feudalismo e do atraso econômico. Se os ocidentais muitas vezes vêem a China através do prisma da Revolução Cultural e da repressão ocorrida em 1989 na Praça da Paz Celestial, os chineses aprendem a respeito da Guerra do Ópio e dos avanços colonialistas feitos pelo Japão e o Ocidente sobre a China.

"Nacionalismo e patriotismo significam amar o seu país", afirma Zhang, o analista político. "O Partido Comunista foi tão inteligente porque vinculou nacionalismo ao amor ao partido. Eles afirmaram que o partido e o país são a mesma coisa".

Li Datong, ex-editor de uma revista estatal, que perdeu o emprego após desentender-se com as autoridades de propaganda, afirma que as autoridades que controlam a mídia de massa e a Internet procuram deixar pouco espaço para o acaso. Segundo ele, o exército de sensores do país infiltrou-se anonimamente no debate da Internet pagando a escritores de meio expediente a quantia de 5 maos, ou cerca de sete centavos de dólar, para dirigir a opinião pública e monitorar o tom do debate travado online.

"O trabalho deles é publicar artigos no Bulletin Board System para equilibrar a opinião pública", afirma Li, referindo ao sistema da Internet no qual muitos usuários interagem. "Os cibernautas os chamam de partido dos 5 maos. Se eles publicarem uma mensagem em um Bulletin Board System, recebem 5 maos".

Lu, o ciber-nacionalista, diz que os patriotas chineses fazem distinções entre país e partido. Durante a crise do Tibete ele usou o seu website para sublinhar as mensagens provocadoras que criticavam a mídia ocidental ou o separatismo tibetano como parte da onda de apoio nacionalista ao partido. Mas, nas últimas semanas, a Internet ficou cheia de mensagens iradas - muitas delas foram mais tarde censuradas - criticando o governo por um recente acordo de energia com o Japão.

Porém, quando se trata de Olimpíadas, o partido e a nação parecem inseparáveis.

"O cidadão chinês comum, ainda que não seja capaz de articular isso, sente que as Olimpíadas são uma oportunidade muito importante para a China exibir poder de Estado", diz Lu.

Zhang Jing e Huang Yuanxi contribuíram para esta matéria. UOL

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