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08/08/2008

Friedman: aprendendo a falar a língua do clima na Groenlândia

The New York Times
Thomas Friedman
Em Ilulissat, Groenlândia
Às vezes você desejaria ser um fotógrafo. Eu simplesmente não tenho palavras para descrever a imponência impressionante da Geleira Kangia, na Groenlândia, soltando icebergs maciços do tamanho de arranha-céus e empurrando-os lentamente através do Fiorde de Ilulissat até que eles caiam no oceano, na costa ocidental groenlandesa. Lá, essas esculturas naturais de gelo flutuam e vagam pelas águas cintilantes próximas daqui.
Dá para navegar entre eles em um barco de pesca, escutando esses monstros de gelo branco estalarem e partirem-se, bufando e suspirando, como se estivessem protestando ruidosamente contra o seu destino.

Nós nos encontramos inteiramente sós aqui, em meio aos icebergs gigantes, e essa solidão só é quebrada por um pescador de linguados solitário que passa em sua embarcação. O piloto groenlandês do nosso barco emparelha com o pequeno barco de pesca, no qual os meus anfitriões compram alguns linguados que estão ainda na rede. Eles abrem os peixes e cortam para mim os mais frescos sushis de linguado que já provei.
"Fast-food groenlandesa", brinca Kim Kielsen, o ministro do Meio-Ambiente da Groenlândia.

O sushi é acompanhado por uísque escocês resfriado com cubos de gelo de 5.000 anos de idade, retirados de um dos fragmentos flutuantes da geleira. Alguns países possuem uma reserva especial de uísque e outros de vinho. A Groenlândia tem uma reserva especial de gelo.

Ah, eu não trabalho para a "National Geographic". Esta é a página de editorial. E a minha viagem com o ministro do Clima e da Energia da Dinamarca, Connie Hedegaard, para observar os efeitos da mudança climática sobre a camada de gelo da Groenlândia fez com que eu acabasse chegando a uma conclusão bastante forte: um dia os nossos filhos ficarão furiosos conosco.

Nós compramos o futuro deles com os nossos cartões Visa. Jogamos tantos gases causadores do efeito estufa na atmosfera, para proporcionar o crescimento da nossa geração, que os nossos filhos provavelmente passarão uma boa parte das suas vidas adultas, e talvez até mesmo a vida toda, lidando apenas com os resultados climáticos da nossa prodigalidade. E agora os nossos líderes estão nos dizendo que a saída para isso é a "perfuração de poços de petróleo em alto-mar" para a obtenção de mais combustíveis fósseis que provocam alterações climáticas.

Loucura. Loucura total.

A maioria das pessoas acredita que os efeitos da mudança climática serão sentidos por meio de um outro grande desastre, como o furacão Katrina. Não necessariamente, afirma Minik Thorleif Rosing, geólogo do Museu de História Nacional da Dinamarca e um dos meus companheiros de viagem. "A maior parte das pessoas na verdade verá a mudança climática chegar na caixa do correio. Ela virá na forma de contas de água mais caras, devido à intensificação das secas em certas áreas; de contas de energia mais salgadas, já que o uso dos combustíveis fósseis se tornará proibitivo; e das taxas de seguro e hipoteca mais elevadas, já que o clima adquirirá uma imprevisibilidade violenta".

Lembrem-se: mudança climática significa "esquisitice global" e não apenas aquecimento global.

A Groenlândia é um dos melhores locais para se observar os efeitos da mudança climática. Como a maior ilha do mundo tem apenas 55 mil habitantes e nenhuma indústria, as condições da sua enorme cobertura de gelo - bem como a sua temperatura, precipitação e ventos - são influenciadas pelas correntes atmosféricas e oceânicas globais que aqui convergem. O que quer que ocorra na China ou no Brasil é sentido aqui. E como os groenlandeses vivem próximos à natureza, eles são barômetros vivos da mudança climática.

Foi assim que eu aprendi um novo idioma aqui: a "língua do clima".

É fácil aprendê-la. Ela só tem três frases. A primeira é: "Há apenas alguns anos". Há apenas alguns anos era possível viajar no inverno, em um trenó puxado por cães, da Groenlândia à Ilha de Disko, passando sobre uma banquisa de gelo de 64 quilômetros de extensão. Mas, nos últimos anos, as temperaturas mais elevadas do inverno na Groenlândia derreteram essa ponte de gelo. Agora a Ilha de Disko está isolada. Guardem o trenó.

Entre 1979 e 2007 houve um aumento de 30% do derretimento da camada de gelo da Groenlândia, e, em 2007, este derretimento foi 10% mais intenso do que em qualquer ano anterior, segundo Konrad Steffen, diretor do Instituto Cooperativo de Pesquisas em Ciências Ambientais da Universidade do Colorado, que monitora o gelo. Atualmente a Groenlândia está perdendo 200 quilômetros cúbicos de gelo por ano - com o derretimento e queda no mar do gelo situado nas bordas das geleiras -, o que excede em muito o volume de todo o gelo existente nos Alpes, acrescenta ele. "Tudo está acontecendo mais rapidamente do que antecipamos...".

A segunda frase é: "Nunca vi isto antes...". Em dezembro e janeiro choveu em Ilulissat. Este lugar fica bem acima do Círculo Polar Ártico! Não devia chover aqui no inverno. "Vinte anos atrás, se eu dissesse às pessoas que choveria no Natal de 2007, elas teriam dado risada de mim. Mas hoje em dia a realidade é esta", afirma Steffen.

A terceira frase é: "Bem, geralmente... mas agora não sei mais". Os padrões climáticos tradicionais que os velhos da Groenlândia conheceram durante toda a vida mudaram tão rapidamente em certos locais que "a experiência acumulada das pessoas mais velhas não é mais tão valiosa como antes", afirma Rosing. O rio que sempre correu naquele local agora está seco. A geleira que sempre cobriu aquela montanha desapareceu. A rena que sempre esteve lá quando a temporada de caça começava, em 1º de agosto, não apareceu.

Não é de se surpreender que agora todos aqui falem a língua do clima. Os seus filhos também falarão este idioma, e mais cedo do que vocês pensam. UOL

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