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11/08/2008

Krugman: A política do não saber nada

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Enfim o Partido Republicano encontrou seu tema para as eleições de 2008. Durante os próximos três meses o partido planeja continuar
cantando: "Perfure aqui! Perfure agora! Perfure aqui! Perfure agora!
Ter quatro pernas é bom, duas pernas é ruim". Tudo bem, eu acrescentei essa última parte.

O debate sobre a política energética me ajudou a encontrar as palavras para uma coisa que eu vinha pensando há algum tempo. Os republicanos, que já foram consagrados como o "partido das idéias", tornaram-se o partido da estupidez.

Agora, não quero dizer que os políticos republicanos são, em média, mais burros do que seus colegas democratas. E com certeza minha intenção não é questionar a esperteza quase sempre assustadora dos militantes políticos republicanos.

O que eu quero dizer, na verdade, é que essa atitude de "não saber nada" -a insistência no fato de que existem respostas simples, de força bruta e gratificação instantânea para todos os problemas, e de que há algo afeminado e fraco em qualquer um que sugira o contrário- tornou-se o cerne da política e da estratégia política republicana. O slogan "de facto" do partido se tornou: "Homens de verdade não pensam sobre as coisas."

No caso do petróleo, essa atitude se traduz em fingir que mais perfurações produziriam um alívio rápido nas bombas de gasolina. De fato, no começo dessa semana os republicanos no Congresso atribuíram a si próprios o crédito pela queda recente nos preços do petróleo: "O mercado está reagindo ao fato de estarmos aqui conversando", disse o republicano John Shadegg.

O que dizer em relação aos especialistas do Departamento de Energia, segundo os quais levaria anos para que a perfuração oceânica produzisse algum petróleo, e que mesmo assim o efeito sobre os preços nas bombas seria "insignificante"? Pode-se presumir que eles são apenas um bando de covardes, provavelmente democratas. E os democratas, conforme nos assegura a republicana Michele Bachmann, "querem que os americanos se mudem para as cidades, vivam em cooperativas habitacionais e viajem de bonde para seus empregos no governo."

Será que essa propaganda política não é estúpida demais para ter sucesso? Não conte com isso.

Lembre-se de como a guerra no Iraque foi vendida. Tudo aquilo sobre tubos de alumínio e nuvens em forma de cogumelo foi apenas fachada. O principal argumento político era: "Eles nos atacaram, e nós vamos contra-atacar" -e qualquer um que tentasse apontar para o fato de que Saddam e Osama não eram a mesma pessoa era considerado um esnobe afetado que odiava os Estados Unidos, e que provavelmente se parecia com um francês.

Não vamos nos esquecer que durante anos o presidente Bush foi o centro de um culto de personalidade que o idolatrava como um Forrest Gump do mundo real, um homem simples que venceu através dos seus instintos e superioridade moral. "Bush é o triunfo do homem americano médio", declarou Peggy Noonan, num artigo para o The Wall Street Journal em 2004.

"Ele não é um intelectual. São os intelectuais que criam todos os problemas no mundo."

Foi só depois do Furacão Katrina, quando o maravilhoso trabalho feito por Bush -o homem sobre quem Noonan disse: "se houver um incêndio no quarteirão, ele vai correr para ajudar"- revelou o verdadeiro preço da falta de consciência, que o culto começou a definhar.

O pior é que a política da estupidez não tem apelo somente entre os mal informados. Tenha em mente que os membros das elites política e midiática eram mais favoráveis à guerra do que o público em geral no outono de 2002, muito embora a fraqueza de argumentos para invadir o Iraque devesse ser ainda mais óbvia para aqueles que prestavam mais atenção ao assunto do que para o eleitor médio.

Por que a elite foi tão predatória? Bem, eu ouvi várias pessoas expressarem em particular o argumento que alguns comentaristas influentes tornaram público -que a guerra era uma boa idéia, não porque o Iraque representasse uma ameaça real, mas porque atacar alguém no Oriente Médio, não importasse quem, faria com que os muçulmanos nos levassem a sério. Em outras palavras, até mesmo homens considerados sábios compraram a idéia de usar a postura de macho como política.

Tudo isso é passado. Entretanto, o debate sobre política energética mostra que os republicanos, apesar do mergulho de Bush numa impopularidade recorde e da derrota do partido em 2006, ainda acreditam que a estratégia do não saber nada funciona. E pode ser que eles estejam certos.

É triste dizer, mas a campanha atual a favor de "perfurar-e-queimar"
está conseguindo alguma tração política. De acordo com uma pesquisa recente, 69% dos americanos agora são a favor de expandir a perfuração de petróleo para o oceano -e 51% acreditam que remover as restrições sobre a perfuração iria reduzir o preço da gasolina dentro de um ano.

O progresso que os republicanos estão fazendo com esse tema não evitará que os democratas expandam sua maioria no Congresso, mas pode limitar sua vitória -e poderia até balançar a disputa presidencial, onde as pesquisas mostram uma corrida muito mais apertada.

Em todo caso, lembre-se disso da próxima vez que alguém defender o fim do sectarismo, para que os dois partidos trabalhem juntos na resolução dos problemas do país. Isso não vai acontecer -pelo menos não enquanto um dos grandes partidos americanos acreditar que, no que diz respeito à política, a estupidez é a melhor estratégia. Eloise De Vylder

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