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12/08/2008

Friedman: diante da Dinamarca, os EUA são uma descarga de energia

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Copenhagen
O Arctic Hotel em Ilulissat, Groenlândia, é um local pequeno e charmoso na costa Oeste, mas ninguém o confundiria com um Four Seasons -talvez com um One Seasons. Mas quando minha mulher e eu nos dirigíamos para o quarto após o jantar certa noite, a luz do corredor se acendeu assim que chegamos. Ela havia sido ligada por um detector de moção que economiza energia. Nosso banheiro tinha até duas intensidades de descarga, dependendo -como dizer isso delicadamente- do que exatamente você estava eliminando. Uma descarga de duas marchas! Nunca vi nada parecido em um hotel americano. Ah, se pudéssemos ser tão eficientes energeticamente quanto a Groenlândia!

No dia seguinte, voltei para a Dinamarca. Depois de compromissos em Copenhagen, fui de carro para meu hotel na hora do rush, às 18h. Realmente, dava para saber que era a hora do rush porque 50% do tráfego em todas as interseções era de bicicletas. Essa é aproximadamente a percentagem de dinamarqueses que usam duas rodas para ir ao trabalho ou à escola todos os dias. Se eu morasse em uma cidade que tivesse pistas dedicadas à bicicleta em toda parte, inclusive uma para o aeroporto, também iria ao trabalho assim. Significa menos tráfego, menos poluição e menos obesidade.

O que mais me impressionou naquele dia, entretanto, era que estava chovendo. Não importava. Os dinamarqueses simplesmente usavam capas de chuva e calças para bicicletas. Se apenas pudéssemos ser tão espertos no uso de energia quanto a Dinamarca!

A Dinamarca foi tão duramente golpeada pelo embargo de petróleo árabe de 1973 que teve que proibir o uso de carros no domingo por um tempo. Diferentemente dos EUA, o país respondeu à crise de forma tão sustentada, concentrada e sistemática que hoje é independente em energia. (E isso não aconteceu com políticos dinamarqueses fazendo o povo de tolo dizendo que a solução era simplesmente perfurar mais em águas profundas).

Qual foi o truque? É certo que a Dinamarca é muito menor que os EUA e teve sorte de descobrir algum petróleo no mar do Norte. Mas, apesar disso, os dinamarqueses impuseram a si mesmos uma série de taxas sobre a gasolina, impostos sobre o CO2 e padrões de eficiência para construções e para aparelhos eletrônicos que permitiu que a economia crescesse quase sem aumentar o consumo de energia- e deu a luz a uma indústria de energia limpa que é uma das mais competitivas no mundo. A Dinamarca hoje tira quase 20% de sua eletricidade do vento. Os EUA? Cerca de 1%.

E os dinamarqueses sofreram com o esforço do governo para regular o mercado com impostos sobre a energia e estímulos a inovações em energia limpa? Em uma palavra, segundo Connie Hedegaard, ministro de clima e energia da Dinamarca: "Não". Simplesmente, isso os forçou a inovar mais -por exemplo, reciclam o calor desperdiçado por suas usinas de carvão e o usam para aquecer as casas e água e incineram o lixo em estações centrais para prover aquecimento residencial (quase não há lixões aqui).

Há pouca reclamação quanto ao preço da gasolina, de US$ 10 por galão (em torno de R$ 4,2 por litro), provocado pelos altos impostos sobre a energia. A regulação do mercado com altos padrões energéticos e impostos sobre combustíveis fósseis pelo governo dinamarquês de fato teve "um impacto positivo sobre a criação de empregos", acrescentou Hedegaard. "Por exemplo, a indústria eólica não era nada nos anos 70. Hoje, um terço de todas as turbinas eólicas do mundo vem da Dinamarca". Nos últimos 10 anos, as exportações dinamarquesas de produtos de eficiência energética triplicaram. As exportações de tecnologia em energia subiram 8% em 2007, para mais de US$ 10,5 bilhões (em torno de R$ 16 bilhões), enquanto o aumento das exportações dinamarquesas como um todo foi de 2%.

"É uma das áreas de exportação dinamarquesas que mais crescem", disse Hedegaard. É uma razão pelo desemprego na Dinamarca hoje ser de 1,6%. Em 1973, "99% de nossa energia vinha do Oriente Médio", diz Hedegaard, "hoje é zero".

Francamente, quando você compara a resposta dos EUA ao choque de petróleo de 1973 com a da Dinamarca, parece patética.

"Observei que em todos os outros países, inclusive nos EUA, as pessoas estão reclamando do aumento dos preços (de gasolina)", disse o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen. "A cura não é reduzir o preço, mas, pelo contrário, aumentar ainda mais, para quebrar nosso vício no petróleo. Vamos apresentar uma nova reforma fiscal na direção de taxação ainda maior sobre a energia, e a renda gerada será usada para cortar impostos sobre a renda pessoal -então vamos melhorar os incentivos para trabalhar e para economizar energia e desenvolver energia renovável."

Como os impostos e incentivos inteligentes levaram as empresas de energia dinamarquesas a inovar, Ditlev Engel, presidente da Vestas -maior empresa de turbinas eólicas do mundo- disse-me que simplesmente não consegue entender por que o Congresso americano não estende os créditos de impostos de produção para o desenvolvimento da energia eólica nos EUA.

Por que se incomodar?

"Tivemos 35 novos competidores da China nos últimos 18 meses", disse Engel, "e nenhum dos EUA". Deborah Weinberg

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