UOL Notícias Internacional
 

12/08/2008

Prejuízos de Wall Street se transformam em lucros da Índia

The New York Times
Heather Timmons
Em Gurgaon, Índia
No último andar de um edifício de sete andares nesta poeirenta aspirante a metrópole, a Copal Partner faz pesquisas de ações, títulos de renda fixa e comércio para grandes analistas e bancos. O lugar fica muito longe dos corredores bem refrigerados de Wall Street, e as instalações são apertadas. Os negócios aumentaram 40% só neste ano.

"Este é um dos maiores bancos de investimentos do mundo", afirma Joel Perlman, presidente da Copal, apontando para uma equipe situada atrás de uma parede de vidro fosco. "E este é um outro", acrescenta ele, apontando para um corredor estreito.

Os bancos editam e acrescentam material ao trabalho que recebem da Copal, uma empresa fornecedora de pesquisas, e a seguir divulgam a informação com as suas próprias logomarcas, na forma de relatórios de pesquisa, pitch books e recomendações comerciais.

Zackary Canepari/The New York Times 
Empregados de firma localizada em Gurgaon, no subúrbio de Nova Déli, Índia

Os prejuízos de Wall Street estão se transformando rapidamente nos lucros da Índia. Após terceirizarem grande parte dos seus trabalhos, transferindo-os para empresas indianas, os bancos estão agora exportando empregos de elite no setor de análise de dados para cidades que custam menos do que Nova York, Londres e Hong Kong, seja para os seus próprios escritórios ou para outras firmas.

Os executivos dos bancos chamam esta mudança de "terceirização do processo de conhecimento", "offshoring" ou "terceirização de alto valor". Isso está afetando quase todo mundo, incluindo o Goldman Sachs, o Morgan Stanley, o JPMorgan, o Credit Suisse e o Citibank, para citar alguns.

Os empregos mais afetados até o momento são aqueles que envolvem trabalhos em horários ruins, que são tradicionalmente feitos por recém-graduados das faculdades de administração, que recebem salários anuais na faixa inicial e intermediária dos seis dígitos.

As reduções de custos em Nova York e Londres já foram brutais, e outras serão promovidas nos próximos meses. As firmas financeiras de Nova York esperam neste ano conceder US$ 18 bilhões a menos de benefícios do que em 2007, o que se constitui na maior redução anual já registrada. Ao todo, os bancos dos Estados Unidos demitirão 200 mil funcionários até o final de 2009, segundo anunciou em abril a empresa de consultoria bancária Celent.

No entanto, o trabalho que esses funcionários faziam pode não desaparecer. Em vez disso, esses empregos estão ressurgindo em lugares como a Índia e a Europa Oriental, muitas vezes onde existem mercados locais mais saudáveis.

Além de transferirem algumas funções bancárias e de pesquisas de nível inferior para analistas e bancários de apoio em Nova York e Londres, as firmas estão exportando parte dos seus funcionários de elite para aquelas cidades de mercados em desenvolvimento que crescem rapidamente, para que eles lidem com os clientes desses locais.

"Devido em parte à debilidade do crédito e aos prejuízos de bilhões de dólares com a crise das hipotecas subprime, as pessoas que enviavam para o estrangeiro empregos de alto valor estão fazendo isso com maior intensidade, e outras estão se preparando para seguir este exemplo", afirma Andrew Power, profissional de serviços financeiros da Deloitte Consulting.

Os bancos de Wall Street começaram a enviar cautelosamente empregos do setor de pesquisa para a Índia alguns anos atrás, contratando um grande número de funcionários e lançando programas piloto com firmas como a Copal, a Office Tiger, a Pipal Research e a Tata Consultancy Services.

Em 2003, o JPMorgan e o Morgan Stanley anunciaram que pretendiam transferir algumas dezenas de empregos de pesquisa para Mumbai, o Lehman Brothers trabalhava em um programa piloto para apresentação de pequisas na Índia, e tanto o Merrill Lynch quanto o Goldman Sachs informaram que não tinham transferido nenhuma pesquisa para aquele país.

Cinco anos mais tarde esta tendência aumentou de forma exponencial. Somente neste ano firmas terceirizadas estão acusando um aumento de 20% a 40% nos seus negócios.

O Morgan Stanley tem cerca de 500 pessoas empregadas na Índia fazendo pesquisas e análises estatísticas. Cerca de cem dos 3.000 funcionários do Goldman Sachs em Bangalore estão trabalhando com pesquisas de investimentos.

O JPMorgan conta com 200 analistas em Mumbai trabalhando para as suas operações de investimentos em todo o mundo, fazendo análises de indústrias e compilando dados e gráficos para materiais de marketing.
Ele conta com 125 analistas adicionais em Mumbai que dão apoio à divisão de pesquisa global do banco.

O Citigroup emprega cerca de 22 mil pessoas na Índia, das quais várias centenas trabalham com pesquisas de investimentos. O Deutsche Bank tem 6.000 funcionários na Índia, segundo o website do banco. O Deutsche Bank deu início a um programa piloto de terceirização em 2003, e não forneceu nenhum dado referente a atualizações.

Segundo Power, da Deloitte, teoricamente até 40% dos empregos relacionados a pesquisas em Wall Street - o que representa dezenas de milhares de empregos - poderão ser enviados para o exterior.

"É mais provável que os empregos no exterior sejam oriundos das divisões de investimentos e comércio das firmas de Wall Street, e não do setor de vendas, que produz relatórios de análise das companhias e indústrias", afirma Andy Kessler, um ex-analista que escreveu diversos livros sobre Wall Street. "Há uma grande quantidade de trabalho pesado que era feito por MBAs que ganhavam US$ 250 mil por ano. É natural que se terceirize parte desse trabalho. Esses são empregos da faixa intermediária, mas essas não são as pessoas que ficam na linha de frente".

Após o setor de pesquisas, a próxima onda de transferências poderá incluir trabalhos mais sofisticados, com a criação de produtos derivados, modelos de comércio quantitativo e até mesmo funções de venda no pregão.

Os defensores da mudança afirmam que a adoção cautelosa desta prática por Wall Street pode assinalar o início de uma profunda mudança na forma como os bancos de investimentos estão estruturados, segundo a qual todos, com a exceção dos principais concretizadores de negócios, representantes de clientes e gerentes de bancos, serão permanentemente removidos para locais mais baratos como a Índia, as Filipinas e a Europa Oriental.

Os executivos indianos gostam de fazer piada afirmando que no futuro a única função para os banqueiros mais bem pagos de Nova York e Londres será saudar os clientes e apertar a mão deles quando os negócios forem fechados.

"Wall Street tem que olhar para o mundo de maneira diferente", afirma Manoj Jain, diretor da Pipal Research, uma firma de 400 pessoas que tem escritórios em Chicago, Nova Déli e Gurgaon. "Transferir empregos de alto valor das cidades caras para outras mais baratas não é mais apenas uma hipótese".

Segundo ele, neste momento a Pipal tem "mais oferta de trabalho do que pode dar conta", e está lidando com clientes que não se restringem ao universo bancário dos Estados Unidos, como companhias de gerenciamento de investimentos e firmas financeiras européias. Assim como os analistas da maioria das firmas de pesquisa no exterior, os funcionários da Pipal não fazem recomendações, nem costumam assinar as pesquisas que realizam.

Em vez disso, eles trabalham com um banco ou analista de fundos proeminente para criar a pesquisa desejada por estes.

A remoção permanente de empregos do setor para fora de Nova York ou Londres é uma questão sensível em Wall Street. Muitos bancos de investimentos, incluindo o Morgan Stanley, o Goldman Sachs, o Merrill Lynch e o Citigroup, não permitem que os seus executivos discutam este assunto publicamente.

Os assessores de imprensa da maioria dos bancos pedem que os seus nomes não sejam citados ou fazem exercícios de semântica. Por exemplo, um porta-voz afirmou que a sucursal de apoio - que cresce rapidamente - do seu banco na Índia, não se constitui em uma instalação terceirizada , mas sim em um "centro de excelência". Um outro argumentou que grandes cortes de despesas nas sedes do seu banco em Nova York e Londres estão de fato promovendo uma "reengenharia", e que, portanto, o banco não deveria ser incluído em uma matéria deste tipo.

"Parte disso é uma auto-ilusão", afirma Octavio Marenzi, diretor-executivo do Celent, referindo-se ao impulso para manter silêncio sobre o assunto. "Caso eu admita que um analista de pesquisa possa perder o seu trabalho para a terceirização na Índia, isso significa que o meu trabalho também poderá ser terceirizado".

Segundo ele, as "firmas mais avançadas" serão capazes de utilizar as diferenças de custo e redutos de talentos na Índia, e no futuro a China, para obter vantagens. Alguns bancos abraçaram abertamente a terceirização. O Credite Suisse conta com 6.500 funcionários trabalhando em locais de baixo custo como Índia, Polônia e Cingapura. Desses, cerca de 500 estão fazendo serviços de alto valor.

"Temos pessoas ajudando na execução de negócios, coleta de dados e construção de modelos financeiros, escrevendo relatórios de pesquisa e fazendo análises de cenário", afirma Vineet Nagrani, diretor de terceirização do processo de conhecimento no banco.

O banco conta com pequenas equipes trabalhando com pesquisas de renda fixa, crédito e câmbio internacional. "Todas estas áreas vão crescer", garante Nagrani. Nos próximos 12 meses o Credit Suisse também dobrará o número de banqueiros de investimento e banqueiros privados na Índia que lidam com clientes locais.

Até o momento os clientes do banco parecem contentes. "Enquanto os clientes obtiverem um produto de qualidade e puderem falar com o seu analista de pesquisas favorito, para eles será indiferente se o serviço é realizado em Nova York ou na Índia", afirma Power.

Segundo N. Chandrasekaran, diretor de operações do Tata Consultancy Services, a terceirização esbarra em dois obstáculos. Primeiro, os bancos precisam ter certeza de que as firmas que farão o trabalho terceirizado são capazes de realizá-lo. Segundo, eles precisam decidir se de fato desejam transferir o trabalho para fora do banco.

Para lidar com a primeira questão, o Tata cria programas piloto com os clientes. Um novo escritório do Tata em Cincinnati, que empregou mil pessoas em três anos, tem como objetivo conferir uma presença norte-americana à companhia.

Além de promoverem o crescimento fora da Índia, esses especialistas em terceirização estão trazendo profissionais de língua chinesa, árabe e até mesmo as pessoas que eles substituíram: pós-graduados das universidades de administração dos Estados Unidos.

Daniel Peng, que terminará o seu curso de pós-graduação pela Universidade Darthmouth no ano que vem, está trabalhando no departamento de equities da Copal Patterns como estagiário de verão. "Eu achei que seria uma boa experiência com mercados emergentes", afirma ele.

Mas Peng ainda espera conseguir um emprego tradicional em Wall Street quando se formar. "Nova York seria ideal", diz ele. UOL

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