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12/08/2008

Putin cura velhas feridas com ataque à Geórgia

The New York Times
Ellen Barry

Em Moscou
Vladimir V. Putin, que chegou ao poder remoendo as feridas de uma Rússia humilhada, ofereceu nesta semana prova de seu ressurgimento. Até o momento, o Ocidente foi incapaz de conter seu avanço na Geórgia. Ele está tomando decisões que poderão redesenhar o mapa do Cáucaso em prol da Rússia -ou destruir o relacionamento com as potências ocidentais que a Rússia antes buscava como parceiras estratégicas.

Se havia alguma dúvida, a última semana confirmou que Putin, que se tornou primeiro-ministro há poucos meses após oito anos como presidente, está comandando a Rússia, e não seu sucessor, o presidente Dmitri Medvedev. E Putin pode finalmente encontrar alívio para os insultos que a Rússia sofreu após o colapso da União Soviética.

"A Geórgia, de certa forma, está sofrendo por tudo o que aconteceu à Rússia nos últimos 20 anos", disse Alexander Rahr, um importante estudioso alemão de política externa e um biógrafo de Putin.

Com as tropas russas posicionadas em duas frentes na Geórgia, cresce a especulação sobre o que Putin realmente deseja fazer. Ele enfrenta várias opções.

A Rússia poderia anexar os enclaves da Abkházia e da Ossétia do Sul -algo que suas forças em grande parte já conseguiram. As autoridades do Kremlin também falaram em trazer Mikhail Saakashvili, o presidente da Geórgia, para um tribunal de crimes de guerra pelo que disseram ser ataques contra civis em Tskhinvali, na semana passada.

Um maior avanço poderia incapacitar permanentemente as forças armadas da Geórgia. A opção mais extrema seria a ocupação da Geórgia, um país com uma população de 4,4 milhões e com séculos de desconfiança da Rússia, onde os países ocidentais há muito planejavam operar um importante oleoduto.

Mas enquanto o Ocidente vê uma Rússia agressiva, Putin se sente ameaçado e cercado, disse Sergei Markov, o diretor do Instituto de Estudos Políticos de Moscou, que tem relacionamento estreito com as autoridades no Kremlin.

"A Rússia está em uma situação extremamente perigosa", presa entre a obrigação de proteger os cidadãos russos e correndo o risco de uma escalada de uma "nova Guerra Fria" com os Estados Unidos, disse Markov.

"Washington e o governo estão jogando um jogo extremamente sujo", ele disse. "Eles mostrarão Putin como um ocupante mesmo se ele não fizer nada."

Putin e seus representantes têm se esforçado para argumentar que a Rússia está agindo apenas em defesa de seus cidadãos.

Nos últimos dias, Putin apareceu na televisão com suas mangas arregaçadas, se misturando aos refugiados na fronteira com a Ossétia do Sul -a própria imagem de um homem de ação.

Em comparação, Medvedev é mostrado sentado à sua mesa em Moscou, dando ordens cerimoniais ao ministro da Defesa.

"Todos os discursos liberais que ele fez em Berlim e em outros lugares foram esquecidos", disse Rahr, que serve no Conselho Alemão de Relações Exteriores, sobre o novo presidente. "Ele está cumprindo o papel que foi determinado por Putin."

Yulia L. Latynina, uma crítica freqüente do governo de Putin, achou graça que às vésperas do conflito na Geórgia, enquanto o presidente Bush e Putin estavam em profundas conversações em Pequim durante o início dos Jogos Olímpicos, Medvedev estava fazendo um cruzeiro pelo Rio Volga.

"Agora ele pode fazer cruzeiro pelo Volga por todos seus anos restantes ou ir direto para as Bahamas", ela escreveu no "Daily Magazine", um jornal russo. "Eu devo admitir que, pela primeira vez na minha vida, eu sinto admiração pela habilidade com que Vladimir Putin mantém seu poder."

Em 2000, Putin foi eleito presidente de um país incerto, abalado. A venda de empresas estatais para investidores privados levou a uma imensa fuga de capital. A economia estava em frangalhos. Mas a pílula mais amarga de todas foi a expansão da Otan pela antiga esfera de influência da Rússia.

Nada acentuou mais sua desmoralização do que Kosovo, onde a Otan ajudou a população de etnia albanesa a conquistar a independência da Sérvia. A Rússia tem poucos aliados tão próximos quanto a Sérvia, e os 78 dias de campanha de bombardeio liderada pelos americanos, em 1999, parecia transmitir a mensagem de que a antes grande potência estava impotente.

Putin estava determinado a mudar isso. Primeiro, ele fez com que o Estado retomasse o controle sobre as empresas de recursos naturais da Rússia, instalando pessoas leais ao governo em empresas como a Yukos e punindo os oligarcas que desafiaram seu poder. Com a Rússia reformada como um petro-Estado, cheio de dinheiro do petróleo e gás natural, Putin passou a enviar mensagens rudes aos seus vizinhos: o envio de energia barata pode ser interrompido. Há dois anos, após o que foi chamado de Revolução Laranja ter levado líderes pró-Ocidente ao poder na Ucrânia, a Rússia interrompeu brevemente o fornecimento de gás natural ao país, provocando ondas de ansiedade por toda a Europa.

Agora, com o rápido progresso da Rússia na Geórgia, Putin reafirmou o poderio militar russo. As tropas russas entraram em Senaki, no oeste da Geórgia, na segunda-feira, e Moscou reconheceu pela primeira vez que suas forças entraram em território georgiano.

"Eu diria que temos uma situação na qual os russos chegaram à linha vermelha", disse Dmitri Trenin, vice-diretor do Centro Carnegie Moscou. "Eu acho que contenção é um fator chave."

Ao descrever Putin, as pessoas freqüentemente usam a palavra "gélido". Após a presidência trôpega de Boris Yeltsin, Putin se ofereceu como um homem em controle consumado de seus impulsos. Ele não bebe álcool, ele costuma não almoçar; sua grande indulgência é o judô.

No início de sua presidência, ele encantou seus pares ocidentais, passando a imagem de um líder articulado e cosmopolita. Mas desde o começo, havia assuntos que traziam à tona um lado diferente dele.

Como primeiro-ministro durão de Yeltsin, ele causou agitação ao ameaçar os guerrilheiros tchetchenos com linguagem de sarjeta: "Se os pegarmos no toalete, nós os eliminaremos na privada".

Em 2002, quando um repórter francês acusou a Rússia da morte de civis inocentes na Tchetchênia, ele sugeriu que poderia arranjar uma circuncisão para o repórter, já que ele era tão solidário com os muçulmanos. "Eu recomendarei a condução da operação para que nada em você volte a crescer novamente", ele disse.

Os eventos que antecederam a atual crise na Geórgia revelam Putin tanto como um ator cuidadoso quanto um visceral. No segundo trimestre, quando os países ocidentais se alinhavam para reconhecer um Kosovo recém independente, Putin respondeu reconhecendo formalmente as duas repúblicas separatistas na Geórgia.

Ao longo da última década, o governo russo emitiu passaportes para virtualmente todos os moradores da Ossétia do Sul, um passo que se tornaria uma justificativa para o avanço de tropas pela fronteira georgiana. E no ano passado, a Rússia se retirou do Tratado de Forças Armadas Convencionais na Europa, que, entre outras coisas, exigia a retirada de tropas da Geórgia e Moldova.

Mas as emoções afloraram, às vezes de forma imprevisível. Putin nutre uma antipatia particular por Saakashvili.

Em abril, quando Putin decidiu estabelecer elos legais com os governos das regiões separatistas, o presidente georgiano telefonou para ele e o lembrou de que os líderes ocidentais fizeram declarações apoiando a posição da Geórgia. Putin respondeu lhe dizendo -em termos muito rudes- onde ele podia enfiar as declarações deles.

"Ele tem uma postura tão visceral em relação a Saakashvili que parece abafar qualquer outra coisa que alguém diga a ele", disse um alto funcionário americano, que falou sob a condição de anonimato.

Poderá levar tempo para entender as mensagens que Putin enviou na última semana, mas esta é clara: a Rússia insiste em ser vista como uma grande potência. "O problema é, que tipo de grande potência está surgindo?", disse Trenin, do Centro Carnegie. "Esta é uma grande potência que vive segundo as convenções do mundo, como existem no século 21?" George El Khouri Andolfato

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