UOL Notícias Internacional
 

13/08/2008

Biodefesa: os assassinos no laboratório

The New York Times
Elisa D. Harris*
Em College Park, EUA
O governo apontou Dr. Bruce Ivins, importante pesquisador de biodefesa do exército, como o responsável pelos envios de antraz em 2001. A acusação gerou maior foco para a importante questão se estamos adequadamente preparados para nos proteger contra um futuro ataque de armas biológicas. Mais de US$ 20 bilhões (em torno de R$ 30 bilhões) foram gastos em pesquisa em biodefesa desde 2001. Entretanto, a análise genética que demonstrou que o pó de antraz usado nas cartas de 2001 vinha de uma fórmula originalmente produzida pelo Centro de Pesquisa de Biodefesa do Exército em Fort Detrick, Maryland, sugere que nosso programa de biodefesa pode se tornar a própria ameaça que deveria combater.

Os gastos com pesquisas em biodefesa começaram a avançar depois das tentativas fracassadas da seita japonesa Aum Shinrikyo de desenvolver e usar armas biológicas em Tóquio, nos anos 90. Após incidentes com cartas de antraz que mataram cinco e feriram 17, alguns argumentaram que não era uma questão de se, mas de quando os terroristas usariam novamente armas biológicas contra americanos, e o gasto com biodefesa foi às alturas. Nos Institutos Nacionais de Saúde, o investimento em pesquisa com agentes de armas biológicas aumentou 3.000%, de US$ 53 milhões (cerca de R$ 84,8 milhões) em 2000 para mais de US$ 1,6 de bilhão (aproximadamente R$ 2,56 bilhões) em 2008. Durante o mesmo tempo, o departamento de defesa mais do que dobrou seu investimento em biodefesa para mais de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 1,6 bilhão).

Houve também um crescimento sem precedentes na construção de instituições de pesquisa. Quando esses laboratórios estiverem prontos, teremos dez vezes mais espaço de laboratório do que tínhamos em 2001 para trabalhar com os agentes mais perigosos -vírus de ebola e marburg, por exemplo- e 13 novos laboratórios regionais para trabalharem com agentes de risco moderado e alto, como tularemia e praga. Milhares de pesquisadores atualmente trabalham com agentes biológicos, muitos pela primeira vez. Mais de 14.000 cientistas receberam aprovação para trabalhar com os chamados agentes selecionados, como o antraz, que impõem pouca ameaça à saúde pública a não ser que sejam usados como armas biológicas.

Pesquisadores experientes em antraz dizem que a comunidade cresceu tanto e tão rapidamente -mais de 7.200 pesquisadores atualmente têm aprovação para trabalhar com este agente mortífero- que não mais conhecem todos do campo.

Desde que começou essa expansão, houve uma série de incidentes em que os agentes de armas biológicas foram mal manuseados. Em 2004, antraz vivo foi acidentalmente enviado para um laboratório de pesquisa de um hospital infantil em Oakland, Califórnia; três pesquisadores de um laboratório na Universidade de Boston desenvolveram tularemia depois de serem expostos à bactéria que a causa. Em 2006, pesquisadores da Texas A&M foram expostos à brucelose e febre Q. Quando o investigador do Escritório de Responsabilidade do governo informou o Congresso no último outono, um número maior de pesquisadores lidando com agentes de armas biológicas aumentou o risco de tais acidentes.

Ainda mais preocupantes são os riscos de segurança. O próprio programa de biodefesa dos EUA agora foi diretamente associado ao ataque biológico mais mortífero do país. Isso por si só demonstra que precisamos de uma avaliação rigorosa e baseada nos fatos das ameaças de armas biológicas de outros países e de terroristas, internos e externos. O primeiro passo é assegurar um exame público completo de todas as evidências do governo das remessas de antraz de 2001, para que possamos descobrir o que deu errado e como impedir que aconteça novamente.

Depois, precisamos reexaminar toda nossa estratégia de pesquisa em biodefesa, estabelecer prioridades claras e reforçar a segurança e a vigilância de laboratórios que trabalham com agentes perigosos. Em vez de acrescentar mais laboratórios e criar mais projetos de pesquisa, precisamos nos concentrar em esforços importantes em um número menor de instalações. Isso incluiria a pesquisa em técnicas de diagnóstico, vacinas e tratamentos que possam ser aplicados a mais de um agente biológico. A maior parte desta pesquisa não exige o trabalho com os agentes mortíferos a não ser nos últimos estágios.

Nossa capacidade de pesquisa excessiva em biodefesa então poderia ser usada para a pesquisa de ameaças de saúde pública diárias como tuberculose e bactérias resistentes a antibióticos, muitas das quais não receberam atenção suficiente desde 11 de setembro.

Para nos defender contra armas biológicas, não precisamos de esforços de pesquisa mais numerosos, e sim melhores. A probabilidade que armas biológicas sejam usadas contra americanos é baixa, mas as conseqüências de tal ataque poderiam ser devastadoras. Não podemos enfrentar essa ameaça de forma segura ou eficiente com uma estratégia que coloca os agentes mortíferos em cada vez mais mãos.

*Elisa D. Harris é pesquisadora acadêmica do Centro de Estudos de Segurança Internacional na Universidade de Maryland. Deborah Weinberg

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