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13/08/2008

Krugman: os obstáculos para a reforma do sistema de saúde pelos democratas

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
A versão preliminar da plataforma de governo do Partido Democrata divulgada na semana passada coloca a reforma do sistema de saúde como prioridade. "Se algo ficou evidente nas conversas sobre a plataforma", diz o documento, "foi que os democratas estão unidos em torno de um compromisso para fornecer a todos os americanos o acesso a um sistema de saúde amplo e acessível".

Será que os democratas podem cumprir esse compromisso? Em tese, deveria ser fácil. Na prática, as pessoas que apóiam a reforma no sistema de saúde, incluindo eu, viverão momentos de tensão até que a legislação seja aprovada.

Por que deveria ser fácil implantar um sistema de saúde único? Por uma razão, sabemos que ele é economicamente viável: todos os países ricos exceto os Estados Unidos já têm algum tipo de sistema de saúde garantido. Todos os perigos que os americanos tratam como fatos da vida - o risco de perder sua cobertura de saúde, o risco de não conseguir pagar pelo tratamento necessário, a possibilidade de arruinar-se financeiramente por causa dos custos médicos - seriam considerados impensáveis em qualquer outra nação avançada.

O apoio político para estabelecer um sistema de saúde garantido também será fácil, pelo menos sob um aspecto: se os democratas conseguirem estabelecer um sistema único de cobertura, a nação irá amar.

Sei que não é o que todos dizem; alguns críticos alegam que os Estados Unidos têm uma cultura individualista única, e que os americanos não aceitarão qualquer sistema que torne a saúde uma responsabilidade coletiva. Os que dizem isso, todavia, parecem esquecer que nós já temos um programa - talvez você tenha ouvido falar dele - chamado Medicare. É um programa que arrecada dinheiro do contracheque de todos os trabalhadores para pagar as contas médicas das pessoas acima dos 65 anos. É um programa extremamente popular.

Há todo tipo de razões para acreditar que um programa que ampliasse a cobertura para toda a população, não só para os idosos, logo se tornaria tão popular quanto. Considere o caso de Massachusetts, que aprovou um plano de saúde estadual com cobertura completa há dois anos.

O plano de Massachusetts recebeu uma série de críticas. Ele inclui a obrigação individual - isto é, as pessoas devem comprar a cobertura médica, mesmo que preferissem ficar por sua própria conta e risco. E os custos são muito mais altos do que o esperado, principalmente porque havia muito mais gente sem plano de saúde do que se imaginava.

Ainda assim as pesquisas recentes mostram um apoio surpreendente ao plano - apoio que cresceu desde que ele entrou em vigor, apesar dos problemas do novo sistema. Ao que parece, uma vez que existe um sistema de saúde de cobertura universal, as pessoas querem mantê-lo.

Então por que ficar nervoso com a perspectiva de reforma? Em primeiro lugar porque é difícil estabelecer um sistema único de saúde. Existem, a meu ver, três grandes obstáculos.

Primeiro, os democratas têm que vencer a eleição - e ganhá-la com margem suficiente para olhar de cima para os republicanos que, 42 anos depois que o Medicare entrou em vigor, ainda estão denunciando a "medicina socializada".

Segundo, eles têm de superar o medo de mudança do publico.

Alguns reformistas da saúde queriam que os democratas adotassem um sistema de pagamento único, como o Medicare, para todos. Em termos puramente econômicos, eles estão certos: o pagamento único seria mais eficiente do que um sistema que preserva um papel para as companhias privadas de seguros.

Mas é melhor ter um plano de saúde universal imperfeito do que nenhum - e a única forma de conseguir que um plano de saúde universal seja aprovado logo é inoculá-lo contra os argumentos no estilo Harry-e-Louise*, de que as pessoas serão forçadas a ter um plano "elaborado por burocratas do governo". Então a plataforma democrata enfatiza a escolha, declarando que os americanos "devem ter a opção de manter a cobertura de saúde que já têm ou escolher a partir de uma ampla variedade de planos de saúde, incluindo muitas opções de planos de saúde privados e um plano de saúde público". Veremos se isso é suficiente.

O obstáculo final que a reforma no sistema de saúde enfrenta é o risco de que o próximo presidente e o Congresso percam o foco. Haverá muitos problemas gritando por soluções, desde uma economia fraca até crises de política internacional. Será fácil e tentador colocar a saúde em segundo plano por um tempo - e então esquecer o assunto.

É por isso que estou nervoso. A história da busca por um sistema de saúde universal nos Estados Unidos é repleta de chances perdidas, de oportunidades políticas desperdiçadas. Vamos esperar que dessa vez seja diferente.

Mais uma coisa: se conseguirmos fazer uma reforma da saúde, muitas pessoas terão um débito de gratidão com ninguém mais do que John Edwards. Quando Edwards desistiu da corrida presidencial, dei a ele o crédito de transformar o sistema de saúde universal num "sonho possível para o próximo governo". A carreira política de Edwards acabou - mas talvez ele e sua família possam se consolar com o fato de que seu partido ainda está tentando transformar o sonho em realidade.

* Nota da tradutora: protagonistas de um comercial de TV de 1993 contra a proposta de sistema de saúde único do governo Clinton Eloise De Vylder

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