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14/08/2008

China empresta torcedores para ocupar lugares vazios em Pequim

The New York Times
John Branch*
Em Pequim
Havia setores inteiros de cadeiras vazias atrás de ambos os gols no estádio de handebol nesta segunda-feira. Ao lado delas, havia outros setores lotados de torcedores vestidos com camisetas idênticas, balançando tacos infláveis e entoando gritos de torcida ensaiados.

O vazio e o entusiasmo em um só quadro revelavam dois mistérios recentes dessas Olimpíadas que supostamente tiveram todos os ingressos vendidos.

Para uma Olimpíada sem imprevistos, com uma eficiência bem educada e alguns obstáculos logísticos, o problema mais delicado que o comitê organizador enfrenta apareceu logo: por que todos os assentos estão vazios?

Doug Kanter/The New York Times 
Torcedores acompanham partida de softbol entre Venezuela e EUA nos Jogos Olímpicos

E, a propósito, quem são esses torcedores uniformizados que com tanto entusiasmo garantem explosões de cor e bagunça coreografada nas competições de arco-e-flecha e luta livre, e na maior parte dos eventos entre eles?

Lugares vazios não são um problema inédito nas Olimpíadas, em parte porque os melhores ingressos são reservados para os patrocinadores corporativos. Os oficiais do comitê organizador de Pequim disseram que nem todos os ingressos estão sendo usados. "É um desafio para nós", disse Wang Wei, vice-presidente do comitê organizador de Pequim, no domingo. "Estamos agora num processo para tentar administrar isso."

Os organizadores acharam que poderiam proporcionar a todos os atletas a excitação de estádios completamente cheios, e fornecer às câmeras de televisão cenas intermináveis de rostos torcendo. Muitos atletas ficaram entusiasmados ao competir na frente de um público muito maior do que estão acostumados, mas quase todos os eventos tiveram pelo menos um pequeno número de lugares vazios. A maior parte dos estádios tem funcionado com três quartos de sua capacidade, com alguns chegando a preencher apenas a metade dos lugares.

Na segunda-feira, os estádios de tênis, boxe, basquete, hóquei de campo e handebol tiveram grandes espaços vazios nas arquibancadas. A quadra de 10 mil lugares no Centro Olímpico Green Tennis estava com menos de três quartos de sua capacidade preenchida para o jogo de abertura de Roger Federer contra Dmitry Tursuov. Até mesmo os lugares para alguns eventos de natação no Cubo D'Água estavam vazios.

Os torcedores chineses estão entusiasmados para comparecer aos eventos, mas muitos não conseguem ingressos.

"Tenho ouvido as pessoas reclamarem sobre isso", diz Chen, uma voluntária de 23 anos que trabalhava do lado de fora do Cubo d'Água.
"Como é muito difícil conseguir ingressos, o fato de que alguns dos melhores lugares continuam vazios durante todos os jogos deixa irritado quem de fato queria ver os jogos mas não tem ingresso."

Os oficiais ofereceram algumas explicações para os vazios inesperados.
A chuva pesada do domingo e a previsão de tempo ruim na segunda-feira podem ter afastado os portadores de ingressos. Além disso, muitos ingressos são para sessões com vários jogos, então alguns torcedores vão para um jogo mas não ficam para o próximo. E é comum que o comparecimento dos torcedores nas Olimpíadas cresça conforme as competições preliminares dão lugar às disputas de medalha.

Acima de tudo, entretanto, o comitê organizador de Pequim atribuiu os lugares vazios aos patrocinadores corporativos que receberam grandes lotes de ingressos em troca do apoio.

"Os patrocinadores podem dar os ingressos para seus amigos e clientes importantes, e estes talvez não gostem muito de vir para as competições preliminares", disse Wang. "Estamos tentando persuadir as pessoas a respeitar o direito deles de assistir os jogos."

Mas as pessoas envolvidas na distribuição de ingressos para os principais patrocinadores descartam essa abordagem. Keith Bruce é presidente da SportsMark, uma de São Francisco que trabalha com hospitalidade e pacotes de ingressos para vários patrocinadores das Olimpíadas, incluindo Visa, Bank of America, Hilton e Adidas. Ele disse que seus ônibus reservados para os eventos têm estado lotados, e que ele não ouviu nada sobre ingressos não usados entre seus clientes.

Em todo o caso, pouco pode ser feito para evitar os lugares vazios nos eventos que tiveram os ingressos todos vendidos. Não há um mecanismo oficial para trocar ingressos indesejados. A revenda é permitida, desde que por um valor menor ou igual ao preço oficial do ingresso.
Apesar disso, há notícias que dão conta da venda de ingressos a preços altos próximo ao Cubo d'Água.

Mas o comitê organizador ainda tem algumas opções. Num jogo de handebol feminino entre a Coréia do Sul e a Alemanha na segunda-feira, os lugares atrás dos gols foram preenchidos com 40 pessoas que usavam camisetas amarelas e sacudiam tacos de beisebol infláveis - os "la la bang", ou tacos de torcida. As costas das camisetas tinham o mascote olímpico e a palavra "Vai!" em mandarim, e a frente os identificava como voluntários. A camiseta era a mesma usada pelas pessoas que faziam a supervisão em torno do estádio e usavam credenciais do comitê organizador de Pequim.

Os voluntários se recusaram a explicar se representavam algum grupo ou por que estavam sentados juntos naqueles lugares. Ao sair, a maioria deles descartou seus tacos de torcida num latão de lixo, sem interesse pelo souvenir.

Desde o princípio, parte do plano do comitê organizador era distribuir ingressos baratos ou gratuitos para milhares de chineses, crianças em idade escolar e funcionários do governo, principalmente para os eventos menos concorridos. E como parte de um grande esforço pré-olímpico para aumentar o entusiasmo e ensinar a etiqueta apropriada para os torcedores, eles foram instruídos sobre como torcer.

Nos primeiros dias das Olimpíadas, multidões de torcedores chineses com camisetas iguais e tacos de torcida totalmente sincronizados eram visões regulares em muitos estádios pouco concorridos, notadamente nos eventos sem competidores chineses. Eles garantiram rápidas explosões de barulho e um ar de neutralidade, mostrando pouca lealdade, a não ser para com o líder da torcida. Eles são notados principalmente por estarem em grupos coesos em várias sessões dos estádios, que do contrário estão pontuados por torcedores diferentes e cadeiras vazias.

"Poucas pessoas conhecem o handebol", disse uma mulher que se identificou como senhorita Zheng.

"É por isso que vimos aqui - para torcer para ambos os lados. Somos chineses amigáveis."

Ela estava no Centro Olímpico de Esportes na segunda-feira, entre centenas de pessoas com camisetas amarelas com os dizeres "Torcedores Trabalhadores de Pequim" tanto em mandarim quanto em inglês. Alguns estavam a caminho de um jogo de pólo aquático. Outros esperavam para entrar numa partida de handebol no estádio adjacente.

A maioria usava pacotes de torcida iguais, cheios de material como tacos infláveis e bandeirinhas dobradas. No trabalho, eles aprenderam diversos movimentos de torcida, e alguns receberam DVDs para estudar em casa.

Eles também aprenderam músicas destinadas a promover o espírito esportivo, incluindo uma intitulada "Você e Eu Temos o Mesmo Coração."

Eles receberam poucas informações sobre os eventos que assistiriam.
Esperavam comparecer a mais competições, mas ainda não sabiam quais, numa indicação de que seriam convocados quando necessário.

Logo depois que os grupos foram distribuídos pelas sessões atrás dos gols do estádio de handebol para um jogo feminino entre a Romênia e a China, ficou óbvio que eles não preencheriam todos os lugares. Foram rearranjados até que algumas sessões ficassem totalmente lotadas, enquanto os lugares vizinhos permaneciam vazios.

Eles cantaram algumas músicas e receberam as jogadoras romenas acenando os tacos durante as apresentações. Eles torceram educadamente quando a Romênia marcou gols.

Mas deram uma resposta mais calorosa para a equipe chinesa. Mais do que tudo, apesar de ser coreografado, eles pareciam estar se divertindo tanto quanto qualquer outra pessoa no estádio, e com pelo menos um souvenir para levar para casa.

"Finalmente, tivemos uma Olimpíada em Pequim", disse Zheng antes do jogo. "Eu ficaria chateada se não tivesse a oportunidade de ver nenhum jogo."

Os organizadores do comitê olímpico, deparando-se com um número surpreendente de lugares vazios, esperam apenas que as pessoas que tenham ingressos para os jogos sintam-se da mesma forma que eles.

* Zhan Yingying, Jing Zhang e Jessie Jiang contribuíram com a reportagem. Eloise De Vylder

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