UOL Notícias Internacional
 

14/08/2008

Estilo administrativo não convencional de McCain é obstáculo para alcançar a Casa Branca

The New York Times
Adam Nagourney e Jim Rutenberg



Do The New York Times

Em Washington
O senador John McCain é tão rápido em pegar seu celular dourado para solicitar conselhos -de senadores, consultores de campanha, até mesmo de um ex-secretário de imprensa- que assessores, preocupados com sua tendência em adotar a mais recente opinião que ouviu, tentaram reduzir o tempo que ele dispõe para fazer ligações.

McCain é conhecido por aprovar grandes decisões de campanha e depois expressar suas próprias reservas. Há duas semanas, ele discordou publicamente de sua porta-voz, Jill Hazelbaker, após ela ter usado uma linha de ataque contra o senador Barack Obama que ele tinha aprovado, após uma reunião de estratégia de sua campanha. Hazelbaker deixou o quartel-general da campanha na Virgínia e se recusou a atender aos telefonemas de McCain para pedir desculpas, disseram assessores, e um plano para que membros republicanos do Congresso usassem a mesma linha de ataque à viagem de Obama ao exterior desmoronou.

Longe de seus ouvidos, McCain é chamado de Tornando Branco por algumas pessoas que trabalharam com ele ao longo dos anos. Por toda a campanha presidencial, ele tem sido o inspetor de um reino de campos que discordam, de comandos não claros e clima tenso, que mantém os assessores constantemente no limite.

Stephen Crowley/The New York Times 
John McCain discute com sua equipe de campanha durante viagem a San Diego

Mesmo agora, após uma reorganização no mês passado, que os assessores disseram ter promovido um grau incomum de ordem no mundo desordenado de McCain, dois de seus analistas de pesquisa estão em desacordo em relação a partes da mensagem da campanha, enquanto antigos e atuais assessores têm trocado farpas no debate da validade dos ataques direcionados contra Obama.

Em uma entrevista, McCain disse acreditar que uma organização que consiste de centros de poder às vezes em choque asseguram que um candidato, ou presidente, chegue a decisões plenamente informadas. "É preciso ter opiniões concorrentes", ele disse.

"Eu acho que um certo grau de tensão é muito saudável, assim como uma certa quantidade de opiniões diferentes", ele disse. "Por causa da bolha em que o presidente está, e a bolha em que o candidato está, às vezes você se vê pensando depois, 'quem me dera tivesse ouvido aquilo' e assim por diante. Então eu aprecio e quero certa tensão; não quero demais, é claro, porque é preciso ter certa eficiência. Mas acho que há um equilíbrio."

McCain é ávido por informação. Ele é visto regularmente lendo jornais da primeira até a última página, e assessores dizem que ele adora os briefings que lhe são entregues toda noite. Seus assessores dizem que ele é particularmente estudioso de questões econômicas, uma área em que ele admitiu fraqueza. Um ex-piloto de caça, McCain prega a necessidade de improvisar sob pressão, defendendo a máxima militar de que nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo. As perdas de calma que seus colegas de Senado já enfrentaram raramente são direcionadas a seus subalternos. McCain é conhecido por ser cercado de pessoas que são intensamente leais a ele -e que continuam assim mesmo após deixarem seu barco.

Mas se o estilo de administração de McCain o mantém bem informado e flexível, seus reveses ficaram particularmente evidentes nos muitos meses freqüentemente turbulentos desde que iniciou sua campanha pela indicação presidencial republicana. Ele contrasta do estilo de administração mais rigidamente controlado e quase corporativo que marca a campanha de Obama, seu adversário democrata. Ele lembra o modo independente do último senador republicano a conquistar a indicação presidencial de seu partido, Bob Dole, em 1996.

O estilo de McCain contém contradições, variando entre uma tendência de falar de forma improvisada e com uma autenticidade "danem-se as conseqüências", de um lado, a uma aceitação a contragosto da necessidade de se render à disciplina da política programada. Apesar de buscar avidamente conselho e opiniões contrárias, ele rotineiramente resiste à orientação política básica, como quando seus assessores imploraram para que ele não fizesse campanha sentado em um sofá em forma de ferradura no fundo de seu ônibus, porque temiam que aquilo fazia o senador parecer um velho perambulando pelo país em um trailer. Ele se recusou.

A direção de sua campanha oferece um vislumbre de como ele poderia conduzir a Casa Branca. Ao que parece, ele seria um presidente intensamente interessado nos assuntos (particularmente nos assuntos externos) e aberto a opiniões conflitantes, mas também impetuoso em certos momentos e tolerante a um tipo de agitação interna que pode impedir uma tomada de decisão disciplinada.

Apesar do presidente Bush ser criticado por ser isolado demais e lento demais em se adaptar à mudança das circunstâncias, a forma como McCain lidera sua campanha sugere um estilo não convencional, menos hierárquico, mais próximo do estilo do presidente Bill Clinton.

Por ora, o estilo administrativo de McCain paira como um obstáculo às suas esperanças de chegar à Casa Branca. Sua campanha tem sido sacudida por mudanças de pessoal e pelas freqüentes divergências amplamente divulgadas. E apesar de todos os esforços para manter a disciplina, ele continua a ser atormentado por declarações erradas e aparentes gafes, às vezes minando o que sua própria campanha está tentando fazer.

Após sua campanha ter passado dias zombando de Obama por sugerir que pneus com pressão certa eram uma forma de economizar combustível, McCain minou a mensagem declarando: "O senador Obama disse há poucos dias que devemos calibrar nossos pneus, e não discordo disso. A Associação Americana do Automóvel recomenda fortemente isso".

Enquanto a campanha de Obama atacava o comentário, a campanha de McCain enviou rapidamente um e-mail aos jornalistas notando que McCain disse que não acreditava que aquilo levaria à independência em energia.

Segundo todos os relatos, a recente reforma de seu comitê de campanha ajudou. Ela colocou Steve Schmidt -um ex-marine conhecido por seu estilo duro de direção, que deixou claro que iria embora se não tivesse autoridade para impor disciplina- em um papel importante na campanha, trabalhando ao lado de Rick Davis, um antigo sobrevivente das guerras de pessoal de McCain.

Schmidt tem procurado reduzir o uso do celular por McCain e limitar o número de pessoas com acesso regular ao senador em um esforço para mantê-lo mais focado, disseram assessores. Ele é o responsável pelo esforço de McCain em limitar seu contato com os repórteres, o tipo de encontro livre que McCain aprecia -e que o ajudou a encantar a imprensa por anos- mas que freqüentemente o leva a se desviar da mensagem do dia estabelecida por sua campanha.

Todo dia há telefonemas às 8 horas da manhã nos quais a campanha estabelece a mensagem ou ataque do dia. Alguém na comitiva de McCain -geralmente Nicolle Wallace, uma aliada de Schmidt e veterana da campanha de Bush de 2004 e da Casa Branca, que recentemente ingressou na campanha como assessora sênior- tem a responsabilidade de assegurar que McCain concorde com a mensagem e tente se ater a ela.

"Agora há uma estrutura de direção", disse Wallace. "Ela é formalmente chefiada por Steve e Rick. Esta é uma das coisas que foi melhorada."

McCain parece ter extraído muito de sua filosofia de administração de sua experiência militar. Ele citou como evidência de sua capacidade como executivo seu papel na restauração do maior esquadrão aéreo da Marinha, o cheio de problemas VA-174, no Campo Cecil, em Jacksonville, Flórida, em 1975. Ele tinha cerca de 50 aviões, metade "em estado tão ruim que não podiam levantar vôo", como ele colocou quando teve suas credenciais de administrador contestadas em um debate republicano, em outubro passado.

"Os soldados são ensinados a esperar o inesperado e aceitar, revisar, improvisar e abrir caminho em meio a qualquer adversidade", ele disse ao recontar como recuperou o esquadrão.

Em sua campanha, McCain opina em todas as decisões importantes, mas não se envolve em muitos detalhes. Ele aprova pessoalmente todas as novas linhas de ataque e novas propagandas, as assistindo em um laptop no avião ou nos carros da campanha, disseram assessores.

Mas diferente de Bush ou Clinton, McCain não exibe nenhum interesse em particular ou conhecimento sobre as minúcias da política. Ele raramente se envolve nas discussões sobre que Estados deve visitar, fora insistir que passe um dia ou dois em casa no Arizona na maioria dos fins de semana. Um de seus analistas de pesquisa, Bill McInturff, disse que McCain não é o tipo de candidato que pede para olhar a tabulação detalhada de cada pesquisa.

"O homem é incrivelmente envolvido neste processo", disse McInturf, "mas não é um cliente que tem muita tolerância para acompanhar uma apresentação de uma hora, ou uma apresentação de 30 a 40 minutos de slides e gráficos".

Os assessores de McCain disseram que ele presta mais atenção aos gastos e arrecadação de fundos de sua campanha do que antes de quase ter quebrado, em julho de 2007. McCain disse a amigos que ficou surpreso -e mortificado- quando aquilo aconteceu. Mark McKinnon, um ex-assessor, apontou para a reação de McCain àquela crise- reduzindo pela metade a equipe e afastando alguns importantes assessores- como evidência de força administrativa. "Ele fez tudo o que era preciso fazer para endireitar o barco", disse McKinnon.

Mas até hoje a campanha continua tendo sua cota de drama. Vários republicanos em contato regular com a campanha disseram que dois analistas de pesquisa, McInturf e Ed Goeas, nutriam divergências profundas sobre a mensagem da campanha. Eles disseram que os dois discordavam sobre o grau com que McCain deveria estabelecer suas diferenças de Bush e até que ponto deveria concorrer com a mensagem de "Washington está falida", que conta com o apoio de Goeas.

McInturf se recusou a comentar quando perguntado sobre as divisões. Mas, ele disse mais amplamente, "pode haver diferenças de pensamento, mas as campanhas não entram em colapso porque você tem diferenças de opinião". Goeas não retornou as chamadas.

McCain também tolera, ou encoraja segundo alguns assessores, a tensão em suas fileiras superiores. Ele não fez nada para diminuir a especulação nos últimos meses de que ex-estrategista chefe de campanha, Mike Murphy, seria trazido de volta, relatos que provocaram tensão entre outros assessores com histórico de choque com Murphy. No final, Murphy anunciou que estava assumindo um cargo na "MSNBC".

Nas últimas semanas, Murphy e outro ex-assessor, John Weaver, criticaram as propagandas de McCain que atacam Obama. Os dois pediram privativamente a Schmidt e Charlie Black, um alto conselheiro, para mudarem de curso e dedicar tanto tempo promovendo McCain quanto atacando Obama, conselho também oferecido por um membro do painel de consultores externos de propaganda de McCain, Alex Castellanos. Eles enfrentaram uma resistência forte e irada, segundo várias pessoas familiarizadas com o episódio.

* Michael Cooper contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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