UOL Notícias Internacional
 

15/08/2008

Presidente do Paquistão deve renunciar nos próximos dias

The New York Times
Jane Perlez*

Em Islamabad, Paquistão
Diante da deserção de sua base de apoio política e da neutralidade dos militares paquistaneses, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, um importante aliado dos Estados Unidos, deverá renunciar nos próximos dias em vez de enfrentar um processo de impeachment, disseram políticos paquistaneses e diplomatas ocidentais na quinta-feira (14).

Sua saída do cargo provavelmente provocaria nova instabilidade no país, com os dois principais partidos do governo civil disputando a divisão do poder.

Os detalhes de como poderia ser a saída de Musharraf, e se conseguiria permanecer no Paquistão -aparentemente a sua preferência- ou buscaria residência no exterior, estão sendo discutidos no momento, disseram os políticos.

Musharraf deverá renunciar antes da coalizão de governo dar entrada no processo de impeachment no Parlamento no início da próxima semana, disse Nisar Ali Khan, um importante membro do Liga Muçulmana-N paquistanesa, o partido minoritário na coalizão de governo.

De forma semelhante, Sheikh Mansoor Ahmed, um importante membro do Partido do Povo do Paquistão, o principal partido da coalizão, disse na quinta-feira que o presidente provavelmente renunciará nas "próximas 72 horas".

Uma pressão inexorável se formou sobre Musharraf, um membro das forças armadas por profissão e de natureza freqüentemente impetuosa, para que renunciasse como forma de sair da atual crise, o que o pouparia de revelações embaraçosas durante os procedimentos de impeachment e protegeria o país de uma agonia política prolongada.

Os Estados Unidos e o Reino Unido buscaram no ano passado dar uma face democrática ao impopular Musharraf -que também era o chefe do exército- ao orquestrarem o retorno da líder de oposição, Benazir Bhutto, como sua parceira em um arranjo de divisão de poder. Agora os dois países são virtualmente espectadores enquanto o governo de Musharraf parece estar chegando ao fim.

Bhutto foi assassinada em dezembro e seu marido, Asif Ali Zardari, agora o líder do Partido do Povo do Paquistão, despontou como uma grande força exigindo a renúncia de Musharraf na semana passada. Os dois grandes partidos políticos na coalizão disseram na semana passada que buscariam a remoção de Musharraf, e que a base para o impeachment incluía má gestão da economia, sua imposição do estado de emergência em novembro e a demissão de quase 60 juízes.

A embaixadora americana no Paquistão, Anne W. Patterson, se encontrou nos últimos dias com líderes dos partidos políticos que buscam a remoção de Musharraf, e um alto diplomata do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido, sir Mark Lyall Grant, se encontrou com Musharraf aqui, nesta semana, disseram autoridades paquistanesas e um diplomata ocidental.

Os emissários não argumentaram contra a saída de Musharraf, mas sim destacaram que deve ser concedida a ele a saída mais digna possível, disseram as autoridades paquistanesas. As autoridades e os diplomatas falaram sob a condição de anonimato, por não estarem autorizados a falar publicamente sobre o assunto.

"Os Estados Unidos agora aceitam a remoção de Musharraf como um fato consumado", disse Khan.

"Eles apenas querem que ele não seja humilhado. Nós também não queremos sua humilhação."

A manutenção do apoio a Musharraf pelo governo Bush, ancorado no relacionamento pessoal entre os dois presidentes, tem enfurecido a coalizão civil, que ocupou o lugar do partido do presidente nas eleições de fevereiro. "Agora a reação dos amigos americanos é positiva", disse Khan.

Apesar de Bush ter mantido seu relacionamento com Musharraf -incluindo conversas regulares por telefone- o governo também tem tentado desenvolver suas relações com o novo governo paquistanês, já que exige maior ação contra os militantes baseados no Paquistão.

Os partidos da coalizão disseram que o processo de impeachment seria apresentado ao Parlamento no início da próxima semana, e que as acusações seriam abrangentes, entre as quais a decisão de Musharraf de suspender a Constituição em novembro passado e decretar o estado de emergência.

O líder da Liga Muçulmana-N, Nawaz Sharif, exigiu que se Musharraf sofrer o impeachment, um julgamento deve ocorrer em seguida, um procedimento que seria muito complicado e que poderia dividir o país.

Em seu momento de dificuldade, enquanto os políticos se movem contra ele, Musharraf tem recebido o silêncio das forças armadas, sua antiga base de poder.

Como chefe do Exército, Musharraf tomou o poder em outubro de 1999, ao derrubar Sharif, que era o primeiro-ministro da época.

Sharif tem trabalhado pela derrubada de Musharraf desde que retornou ao poder, após as eleições de fevereiro.

Como presidente e chefe do Exército, Musharraf trabalhou lado a lado com os Estados Unidos contra o terrorismo até novembro passado, quando entregou o posto do exército para o general Ashfaq Parvaz Kayani, que prometeu manter o exército fora da política.

Desde que assumiu a liderança do exército, Kayani manteve sua promessa.

A neutralidade das forças armadas na verdade fez a balança pender contra Musharraf, disse Arif Nizami, editor do jornal "The Nation".

"Elas nem mesmo estão pressionando os civis" para impedir a queda do presidente, disse Nizami sobre as forças armadas. "Elas estão dizendo: 'Se vocês fizerem isso de acordo com as regras, não é da nossa conta'. Isso vai contra Musharraf."

Musharraf fez um discurso nacional rotineiro mas contido na quarta-feira, pedindo reconciliação. Mas àquela altura muitos de seus simpatizantes já o tinham abandonado. Ele buscava consolo junto a "apenas um punhado de amigos", a maioria tendo interesses pessoais na sobrevivência de Musharraf, segundo um relato no jornal "Dawn", de autoria de Zaffar Abbas, um respeitado jornalista político.

Muitos membros do partido político de Musharraf o desertaram, apesar de um grupo político poderoso, o Movimento Muttahida Qaumi, sediado em Karachi, ainda o apoiar, como escreveu Abbas.

Um simpatizante proeminente, Aftab Ahmed Sherpao, que serviu como ministro do Interior no governo de Musharraf, disse na quinta-feira que não poderia mais justificar sua fidelidade ao presidente.

Sherpao representa um eleitorado na Província da Fronteira Noroeste, à beira da área tribal, onde o Taleban está conquistando o controle de uma aldeia atrás da outra com pouca oposição das forças militares ou do governo.

Após consultar "todos os amigos" em sua área, "nenhuma pessoa era a favor de Musharraf", disse Sherpao.

"Com uma só voz eles disseram: 'Chegou a hora de você ficar ao lado das forças democráticas'."

Apesar de parecer certo que Musharraf partirá antes de enfrentar um impeachment, há grande incerteza sobre o que poderá acontecer em seguida.

"Todos sentem que a era Musharraf chegou ao fim", escreveu o "Daily Times" em um editorial na quinta-feira. "Mas ninguém está com vontade de ver como será a era pós-Musharraf."

Muitos paquistaneses temem que o país poderá sofrer ainda mais instabilidade após a saída de Musharraf.

A coalizão entre Zadari e Sharif foi abalada por profundas suspeitas entre os dois lados logo após as eleições de fevereiro, e o atual acordo para remoção de Musharraf provavelmente acabará tão logo ele tenha partido, dizem os políticos.

Há pouco acordo, por exemplo, entre os dois homens sobre a escolha do próximo presidente. Esta questão é motivo de quase tanta disputa dentro da coalizão quanto o plano para remoção de Musharraf.

Zardari, uma figura altamente controversa no Paquistão e que foi preso por acusações de corrupção há mais de oito anos, gostaria de assumir o cargo, segundo seus partidários e líderes da Liga Muçulmana-N. As acusações contra Zardari foram retiradas como parte de um acordo de anistia quando Bhutto voltou ao Paquistão.

Sharif é contrário à ascensão de Zardari à presidência, mas aceitaria se a presidência fosse destituída de muitos de seus poderes atuais, disseram líderes da Liga Muçulmana-N.

Segundo a Constituição, uma eleição para presidente pelo Parlamento nacional e por quatro assembléias provinciais deve ser realizada em até 30 dias após o cargo ficar vago. Sharif e Zardari concordaram na semana passada que a escolha do indicado à presidência seria feita por um consenso entre eles.

"Nós sentimos fortemente que precisa ser um homem de consenso nacional, um homem de estatura, um homem que todos respeitem como chefe de Estado", disse Khan.

* Salman Masood contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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