UOL Notícias Internacional
 

15/08/2008

Surgem sinais de ataques étnicos no conflito na Geórgia

The New York Times
Sabrina Tavernise e Matt Siegel*

Em Tbilisi, Geórgia
Enquanto o conflito entre a Rússia e a Geórgia entra em sua segunda semana, há crescente evidência de pilhagem e "limpeza étnica" em várias aldeias por toda a área do conflito.

Os ataques -alguns testemunhados por repórteres ou documentados por um grupo de direitos humanos- incluem roubo, aldeias incendiadas e possivelmente até assassinatos. Alguns têm motivação étnica, enquanto pelo menos parte da pilhagem parece trabalho de aproveitadores em áreas nas quais as autoridades fugiram.

As identidades dos agressores variam, mas um padrão de violência por ossetianos étnicos contra georgianos étnicos está surgindo e foi confirmado por algumas autoridades russas. "Agora os ossetianos estão circulando e matando georgianos pobres em seus enclaves", disse o general Vyacheslav Nikolaevich Borisov, o comandante encarregado da cidade de Gori, ocupada pelos russos.

Um tenente de uma divisão de transporte que já esteve na Tchetchênia disse: "Temos que ser honestos. Os ossetianos estão saqueando."

As hostilidades começaram na semana passada, quando os militares georgianos marcharam no território disputado da Ossétia do Sul, e os russos responderam enviando tropas ao enclave, e posteriormente à própria Geórgia.

Dezenas de casas pegavam fogo na terça-feira (12), nos subúrbios do norte de Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul. Repórteres viram homens armados se movendo nas ruas, levando em carrinhos aparelhos eletrônicos e outros itens domésticos. Não estava claro quem eram os homens. Eles não pareciam fazer parte das forças russas, mas os russos não os impediam.

"Não somos policiais; nós somos militares", disse um tenente-coronel russo, em resposta à pergunta de um repórter. "Não cabe a nós fazer trabalho policial."

Ainda assim, em alguns lugares havia evidência de algum esforço por parte dos militares russos para deter a atividade ilegal. Uma coluna de 12 homens com as mãos na cabeça, vários vestindo uniformes, foi conduzida em marcha até a base militar russa em Gori, na tarde de quinta-feira. Não se sabe qual era a identidade dos homens.

O Human Rights Watch emitiu um relatório na quinta-feira que documentava os ataques na quarta-feira cometidos por ossetianos étnicos em Tskhinvali e arredores. Os pesquisadores viram várias casas incendiadas na cidade de Java. Eles citaram um agente da inteligência da Ossétia do Sul dizendo que seus combatentes incendiaram as casas para "assegurar" que os georgianos não pudessem voltar.

As conclusões do relatório também pareciam indicar que os números iniciais de baixas divulgados pelos russos, que nos primeiros dias de combate chegavam a 2 mil, foram muito mais altos. Em Tskhinvali, onde ocorreram os combates mais pesados, o hospital recebeu 44 cadáveres e 273 pessoas feridas de 6 a 12 de agosto, disse o relatório, citando um médico.

O relatório citou o médico como tendo dito que a maioria dos feridos era militar, apesar de não estar claro se falava dos exércitos russo ou georgiano ou dos combatentes ossetianos. Em 13 de agosto, nenhum dos feridos ainda permanecia no hospital, disse o relatório. Muitos foram transferidos para hospitais de campanha do Ministério de Emergências russo.

Uma idosa da aldeia de Kurta, que mencionou apenas seu primeiro nome, Elene, disse que foi forçada a caminhar por três dias até chegar a um lugar seguro, depois que homens falando russo invadiram sua casa. Um homem ossetiano estava com eles, ela disse. "Eles entravam nas casas, pegavam aquilo que gostavam e incendiavam o restante." Eles ameaçaram atirar nela depois de tomarem seus valores, mas sua vizinha, uma mulher russa, interveio em seu favor.

"Ela disse: 'Por favor, não façam isso'", disse a mulher, segurando um ícone em um saco plástico. Os homens dispararam no chão várias vezes e então partiram. Ela fugiu.

Cinco aldeias na área dela foram saqueadas e as pessoas expulsas, ela disse. Em uma delas, Oreti, ela disse que viu os corpos de duas mulheres em decomposição. A caminhada foi aterrorizante. Ela passou uma noite em uma casa vazia.

Ela lembrou da violência que tomou a vida de seu marido há 14 anos, quando ossetianos e georgianos travaram uma guerra total. "Eu gostaria de ter morrido logo depois do meu marido", ela disse. "Há mortes demais."

Uma autoridade georgiana disse que o pior da "limpeza étnica" ocorreu nas cidades de Eredvi, Ditsi, Tirdznisi e Kuraleti. Um homem da aldeia de Karetezhvyari disse que voltou para conferir sua casa na quinta-feira, apenas para encontrar várias casas em chamas, incluindo a de seu vizinho. Ele passou a tarde ajudando a apagar o fogo.

O homem, que disse apenas seu primeiro nome, Nukri, estava furioso com as pilhagens e com o avanço da Rússia. "Ela era um grande império e caiu", ele disse, "mas não consegue parar de agir como se fosse um".

Os saqueadores carregaram os bens através de um bairro georgiano étnico ao longo da estrada para Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul.

* Reportagem de Sabrina Tavernise, em Gori e Tbilisi, Geórgia, e Matt Siegel, em Tskhinvali, Geórgia. Bryon Denton, em Gori, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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