UOL Notícias Internacional
 

16/08/2008

China aumenta vigilância da minoria uigur em Pequim

The New York Times
Jake Hooker

Em Pequim
Toda manhã às 9 horas, eles estão à sua porta.

A polícia vem ao pequeno quarto que o jovem cozinheiro uigur divide com vários outros uigures para checar seus documentos -e ver se há recém-chegados de sua terra natal, Xinjiang.

Ele vive aqui há seis anos, em paz e feliz. Mas nos dias que antecederam os Jogos Olímpicos, as coisas mudaram. A polícia já o vigiava antes mesmo dos recentes ataques violentos em Xinjiang, mas quando as autoridades chinesas começaram a alertar que um grupo separatista uigur estava tentando perturbar os Jogos, a vigilância aumentou.

A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos contou com uma canção e dança tradicionais uigur. Mas a maioria dos vários milhares de uigures que trabalham aqui partiu.

Shiho Fukada/The New York Times 
Chineses muçulmanos rezam na mesquita Niujie, em Pequim

Os uigures são um grupo étnico de muçulmanos de língua túrcica que vivem no extremo oeste da China. A maioria dos que estão em Pequim vem para ganhar dinheiro por algum tempo e depois faz a viagem de trem de dois dias de volta a Xinjiang. Muitos antigos moradores uigures daqui dão donos de restaurantes de kebab. Os trabalhadores sazonais vendem melões cultivados nas cidades-oásis ao longo dos desertos do oeste, ou mascateiam bolos de frutas em riquixás.

Nas últimas semanas, uigures estiveram envolvidos em três ataques separados, com alvos incluindo a polícia de fronteira, prédios do governo e um posto de controle em Xinjiang. Devido à crescente tensão, alguns uigures entrevistados nas últimas semanas pediram anonimato e outros citaram apenas o primeiro nome.

Em um bairro de depósitos e comerciantes estrangeiros de têxteis, os muçulmanos vão a uma pequena mesquita para rezar.

"Os uigures foram todos para casa", disse Ma Yiqing, 55 anos, um muçulmano chinês da província noroeste de Gansu, em pé no pátio da mesquita após as orações do anoitecer. "Durante os Jogos Olímpicos, eles estão sendo mais pressionados."

Um jovem uigur da região central de Xinjiang também trabalha no bairro. Ele passou grande parte de sua vida em Pequim e, diferente de alguns uigures, ele se acostumou à vida entre os chineses han. Ele tem amigos chineses han. Seu mandarim é coloquial. Ele também quer aprender russo, para que possa fazer negócios com os comerciantes no bairro. Pequim é sua cidade.

Agora ele se tornou alvo de vigilância, ao que parece, por causa de sua etnia. "Deve haver algum mal-entendido", ele disse.

Os policiais sempre checam seu documento de identidade. Recentemente, ele foi detido por várias horas porque não estava com ele, ele disse. Por ter um emprego estável ele foi autorizado a ficar, enquanto os comerciantes uigures desapareceram.

"Não é justo", ele disse. "Eles estavam aqui fazendo negócios -não para atacar os Jogos Olímpicos."

Muitos chineses han apóiam as medidas de segurança que incluíam o encorajamento para que os migrantes deixassem a cidade. Eles dizem que é dever da China proteger os dignitários estrangeiros durante a estadia deles. A China rotulou os grupos separatistas uigures como uma grande ameaça aos Jogos.

Combater o terrorismo é apenas um motivo para os uigures estarem sob vigilância, disseram muitos estudiosos. Alguns uigures circulam em estações de trem nas grandes cidades batendo carteiras. Eles são conhecidos por vender heroína. O envolvimento dos uigures em crimes menores dá uma má reputação ao grupo étnico como um todo, dizem alguns uigures.

A China há muito afirma que grupos separatistas violentos chefiados por uigures estão empregando terrorismo na luta pela independência em Xinjiang. Em 2002, o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a ONU listaram um grupo, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, como patrocinador do terrorismo internacional.

Na semana passada, a mídia estatal noticiou que dois homens uigures mataram 16 policiais de fronteira em Kashgar, uma cidade-mercado próspera na ponta da Ásia Central. No domingo, um grupo de uigures detonou pequenas bombas de cano no condado de Kuqa, matando um guarda e um civil. A polícia matou oito dos agressores, informou a mídia estatal, e dois explodiram a si mesmos com bombas caseiras.

Um dos agressores com bombas era uma garota uigur de 15 anos, que agora está hospitalizada, segundo a mídia estatal.

Alguns estudiosos ocidentais dizem que a China busca retratar os separatistas uigures como uma ameaça terrorista potencial aos Jogos Olímpicos para reforçar seu controle da região oeste volátil. Nos últimos meses, o governo chinês tem alegado repetidamente que membros do Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, ligados à Al Qaeda, planejavam atacar vários alvos olímpicos -sem evidência para apoiar suas alegações.

"A opinião mundial está cada vez mais cética em relação ao terrorismo organizado, de forma que o governo está tentando provar que é uma ameaça real", disse Dru C. Gladney, um estudioso de muçulmanos chineses.

"Minha sensação é de que a grande maioria dos uigures são ardorosamente contrários a perturbar os Jogos Olímpicos", disse Gladney, um professor do Pomona College em Claremont, Califórnia. "Alguns disseram que querem que os Jogos Olímpicos transcorram bem, para que a China abrande seu controle sobre os uigures em Xinjiang."

É difícil quantificar quantos uigures voltaram para casa por causa dos Jogos Olímpicos.

Vários entrevistados nas últimas semanas disseram entender o esforço do governo para reduzir a criminalidade durante os Jogos Olímpicos. Mas em seu esforço para tornar a cidade segura, eles disseram, o governo foi longe demais.

Pensões estão lotadas de autoridades e policiais uigures que foram transferidos de Xinjiang para vigiar os uigures em Pequim.

Uma autoridade uigur, Akhmeti, está em uma pensão. Enquanto almoçava com outras autoridades uigures, ele reconheceu a discriminação étnica dos uigures, mas se disse impotente para mudá-la. "Há algumas coisas que sentimos em nossos corações, mas não podemos dizer", ele disse.

A China tem buscado acentuar a ameaça dos separatistas uigures ao mesmo tempo que afirma que a maioria dos 8,3 milhões de uigures de Xinjiang é pacífica.

"O terrorismo não deve ser associado a grupos religiosos ou étnicos em particular", disse Qin Gang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, neste ano. "Estes terroristas não podem representar a grande maioria do povo uigur."

Ainda assim, os uigures em Pequim se sentem pressionados.

Ahmet, um jovem tranqüilo, veio a Pequim para abrir seus olhos para o mundo, ganhar um pouco de dinheiro, aprender chinês. Seus pais cultivam algodão em Xinjiang. Ele ganha a vida como garçom.

Ele está feliz pela chance de viver na capital, apesar de ficar a 3.200 quilômetros de casa.

Ele foi recentemente a um café de Internet para enviar uma mensagem de e-mail para seus pais. A polícia apareceu e pediu seu documento de identidade. As pessoas no café ficaram olhando. Quando os policiais acabaram de checar a identidade dele em seus registros, disse Ahmet, ele não tinha mais vontade de escrever para casa.

"No mês passado -neste mês- é o mesmo", ele disse em seu mandarim picado. "Eu ligo o computador, a polícia chega, e não me sinto mais bem." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host