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16/08/2008

Krugman: conflito na Geórgia levanta a questão sobre o futuro da globalização

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Até agora, as conseqüências para a economia internacional da guerra no Cáucaso têm sido praticamente insignificantes, apesar de a Geórgia ser um importante corredor para o transporte de petróleo. Mas enquanto lia as últimas más notícias, peguei-me pensando se essa guerra não é um mau-presságio - um sinal de que a segunda grande era da globalização pode ter um destino igual ao da primeira.

Se você estiver se perguntando sobre o que estou falando, eis a
resposta: nossos avós viveram num mundo com economias nacionais auto-suficientes e auto-centradas - mas os nossos tataravós viveram, assim como nós, em um mundo de comércio e investimentos internacionais em grande escala, um mundo que foi destruído pelo nacionalismo.

Em 1919, o grande economista britânico John Maynard Keynes escreveu sobre a economia mundial às vésperas da 1ª Guerra Mundial. "Os habitantes de Londres podiam pedir por telefone, enquanto tomavam seu chá da manhã na cama, vários produtos de todos os cantos da terra
(...) eles podiam ao mesmo tempo, e pelos mesmos meios, arriscar suas riquezas nos recursos naturais e empreendimentos em qualquer quadrante do mundo."

E o londrino descrito por Keynes "percebia esse estado das coisas como normal, certo, e permanente, exceto no sentido de um melhoramento futuro (...). Os projetos e políticas do militarismo e do imperialismo, de rivalidades raciais e culturais, de monopólios, restrições, e exclusão (...) pareciam exercer pouquíssima influência no curso da vida social e econômica cotidiana, a internacionalização estava quase completa na prática."

Mas então vieram três décadas de guerra, revolução, instabilidade política, depressão e mais guerra. Ao final da Segunda Guerra Mundial, o mundo estava fragmentado tanto política quanto economicamente. E levou algumas gerações para que o mundo voltasse a ser como antes.

Então, tudo pode entrar em colapso novamente? Sim, pode.

Considere como as coisas se desgastaram durante a atual crise alimentar. Por muitos anos nos disseram que a auto-suficiência era um conceito ultrapassado, e que era seguro confiar nos mercados mundiais para suprir a demanda de alimentos. Mas quando os preços do trigo, arroz e milho aumentaram, os "projetos e políticas" de "restrição e exclusão" de Keynes voltaram: muitos governos correram para proteger os consumidores domésticos, banindo ou limitando as exportações e deixando os países importadores em maus lençóis.

E agora vem o "militarismo e o imperialismo". Por si só, como eu disse, a guerra na Geórgia não é tão importante economicamente. Mas marca o fim da Pax Americana - a era em que os Estados Unidos de certa forma mantiveram o monopólio do uso da força militar. E isso levanta algumas questões reais sobre o futuro da globalização.

De forma mais óbvia, a dependência energética que a Europa tem em relação à Rússia, principalmente por conta do gás natural, agora parece muito perigosa - mais perigosa, pode-se argumentar, do que sua dependência do petróleo do Oriente Médio. Afinal, a Rússia já usou o gás como arma: em 2006, ela cortou os suprimentos da Ucrânia em meio a uma disputa de preços.

E se a Rússia estiver disposta e apta a usar a força para estabelecer o controle sobre sua autodeclarada esfera de influência, será que os outros não farão o mesmo? Basta pensar sobre a confusão que aconteceria se a China - que está quase ultrapassando os Estados Unidos como a maior nação manufatureira do mundo - decidisse reclamar à força seu domínio sobre Taiwan.

Alguns analistas dizem para não nos preocuparmos: a integração da economia global por si só nos protege da guerra, argumentam, porque as economias que fazem comércio com sucesso não arriscariam sua prosperidade se engajando numa investida militar. Mas isso, também, traz à tona memórias históricas não muito agradáveis.

Logo depois da Primeira Guerra Mundial, outro escritor inglês, Norman Angell, publicou um livro famoso intitulado "The Great Illusion" ["A Grande Ilusão"], no qual argumentava que a guerra havia se tornado obsoleta, que, na era industrial moderna, até mesmo os vitoriosos militares tinham muito mais a perder do que a ganhar. Ele estava certo - mas as guerras continuaram acontecendo de qualquer forma.

Será que as fundações dessa segunda economia global são mais sólidas do que as da primeira? De certa forma, sim. Por exemplo, uma guerra entre as nações da Europa ocidental parece realmente inconcebível agora, nem tanto por causa dos laços econômicos, mas por causa dos valores democráticos que compartilham.

Mas boa parte do mundo, incluindo as nações que desempenham um papel-chave na economia global, não compartilha dos mesmos valores. A maioria de nós continua acreditando que, pelo menos no que diz respeito à economia, isso não é um problema - que podemos contar com que o comércio global continue a fluir livremente apenas pelo fato de ser tão lucrativo. Mas essa não é uma crença segura.

Angell estava certo ao dizer que a idéia de conquistar um território é uma grande ilusão. Mas a crença de que a racionalidade econômica sempre evita a guerra também é uma grande ilusão. E hoje o alto grau de interdependência econômica global, que só pode ser sustentado se os principais governos agirem sensivelmente, está mais frágil do que imaginamos. Eloise De Vylder

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