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16/08/2008

Novo presidente do Paraguai tem uma jornada difícil pela frente

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Assunção
Fernando Lugo, "o bispo dos pobres", conforme ele é conhecido aqui, assumiu na sexta-feira (15/07) o cargo de presidente do Paraguai, prometendo dar terras aos agricultores que não têm propriedades e acabar com a corrupção enraizada, após seis décadas de domínio de um único partido.

Apesar da sua notável vitória em abril, Lugo, 57, um ex-bispo católico de barba grisalha, terá uma jornada difícil pela frente quando tentar implementar a sua agenda, sabendo que o Partido Colorado, que governou o Paraguai durante 61 anos, ainda é bem forte na política local.

A eleição de Lugo, um indivíduo de perfil não tradicional, que passou 11 anos como sacerdote vivendo no interior e trabalhando com movimentos de camponeses que buscavam a reforma agrária, representou uma ruptura drástica com o passado do Paraguai, um país de seis milhões de habitantes, que não tem mar e no qual prevalecem a desigualdade e a pobreza.

Ricardo Stuckert/Reuters - 15.ago.2008 
Lula cumprimenta Fernando Lugo após cerimônia de posse em Assunção, Paraguai

Ele foi eleito prometendo mudanças com uma plataforma socialista mal definida, e agora terá que gerenciar as enormes expectativas dos paraguaios em um mandato de cinco anos.

Usando uma camisa branca de mangas compridas, sem gravata ou paletó, Lugo praticamente gritou a sua resposta ao fazer o juramento à constituição e às leis do Paraguai. "Sim, eu juro!", gritou ele com uma voz áspera.

No seu discurso de posse de 40 minutos de duração, ele falou sobre a necessidade de romper com o legado de décadas de ditadura que "infiltrou-se" na cultura paraguaia. "O dia de hoje marca o fim do Paraguai elitista e secretista, famoso pela sua corrupção", disse Lugo a uma grande multidão reunida em frente ao congresso paraguaio. "Esta mudança não é apenas uma questão eleitoral. A mudança no Paraguai é uma mudança política, talvez a mais importante na história do país".

NOVO PRESIDENTE
NO PARAGUAI
Jorge Adorno/Reuters
Fernando Lugo acena à população após cerimônia de posse
DIFICULDADES À FRENTE
ESQUERDA LATINO-AMERICANA
Com a maioria das suas habilidades políticas ainda não testada, Lugo enfrenta agora o desafio de marcar uma distinção entre as suas metas socialistas e aquelas de outros líderes populistas que assumiram o poder na América do Sul nos últimos anos.

Alguns analistas políticos consideram Lugo parte de uma onda da esquerda contrária ao mercado livre que inclui os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, que nacionalizaram indústrias e redistribuíram a riqueza dos seus países com as massas pobres.

"Este é um candidato que venceu as eleições com quase nenhum programa de governo", afirma José Maria Costa, colunista politico do jornal "Última Hora". "Não se sabe ao certo quais serão as suas posições".

No entanto, Lugo tem tomado cuidado em evitar ser colocado na mesma categoria daqueles outros líderes, afirmando que os admira, mas que se considera um independente mais moderado. No seu discurso na sexta-feira, ele reafirmou a sua admiração por Salvador Allende, o presidente assassinado do Chile, um esquerdista que, segundo Lugo, "desejava construir uma sociedade melhor".

O novo presidente paraguaio assume em meio a uma situação semelhante à que Vicente Fox encontrou no México em 2000, quando quebrou a hegemonia de 71 anos do Partido Revolucionário Institucional, ou PRI. Ao contrário de Chávez, que teve mais liberdade de ação devido ao desmoronamento dos partidos políticos ocorrido após a sua vitória na eleição venezuelana de 1998, Fox teve que enfrentar um teimoso PRI.

"Lugo terá que mostrar que é capaz de formar coalizões com a velha estrutura partidária", diz Michael Shifter, vice-presidente da Inter-American Dialogue, uma instituição de pesquisa política com sede em Washington. "Fox foi incapaz de fazer tal coisa no México. Lugo não tem escolha, a não ser fazer acordos e buscar aliados que o ajudem a implementar a sua agenda política".

Nas últimas semanas Lugo já vem enfrentando uma onda crescente de invasões de terras, algo que a sua equipe de governo acredita ser parte de uma campanha liderada pelos políticos da oposição para desestabilizar a democracia incipiente.

Segundo analistas políticos, cerca de 200 propriedades rurais correm risco de invasão. De acordo com notícias da mídia paraguaia, nesta semana um grupo de 150 camponeses destruiu cerca de dois hectares de uma fazenda de girassóis de 202 hectares, cujo proprietário é um brasileiro. Os repórteres dizem que eles ocupam a fazenda em San Pedro, a nordeste da capital.

Lugo falou em dar propriedades aos camponeses sem-terra para ajudá-los a sair do estado de pobreza. Ele mencionou também a necessidade de aumentar os impostos de exportação, especialmente sobre a soja. O Paraguai é o quarto maior exportador de soja do mundo.

Shifter afirma que Lugo precisa ganhar ímpeto para apresentar uma grande proposta política unificadora, ao invés de ser arrastado para a lama que caracteriza a política paraguaia.

Lugo, que é membro do pequeno Partido Democrata-Cristão, chegou ao poder como parte da Aliança Patriótica por Mudança, uma coalizão de diversos partidos do centro à esquerda, incluindo o maior partido oposicionista paraguaio, o Partido Liberal Radical Autêntico, de centro-direita.

Embora a coalizão possa proporcionar a ele uma forte base de apoio entre os grupos trabalhistas, alguns analistas advertiram que ela pode também puxar Lugo para direções diferentes e contraditórias.

Uma outra área na qual ele provavelmente irá se concentrar é a das relações com o vizinho Brasil. Durante a campanha Lugo prometeu tentar renegociar cláusulas desfavoráveis do contrato da usina hidroelétrica de Itaipu, que fica na fronteira entre os dois países. Esta é uma questão considerada importante por quase todos os paraguaios.

As autoridades brasileiras não demonstraram disposição de rever profundamente os contratos, mas a estabilidade de longo prazo do Paraguai é importante para o Brasil.

Uma proposta ousada de reforma agrária também poderia beneficiar Lugo. O Paraguai, que fica entre a Argentina e o Brasil, é sétimo de uma lista de 139 países em termos de desigualdade econômica e social, segundo um estudo recente promovido pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas.

Cerca de 1% da população paraguaia é dona de 77% das terras do país, disse nesta semana, em uma conferência em Washington, Frank O. Mora, professor de estratégia de segurança nacional do Colégio Nacional de Guerra.

O país tem lutado para livrar-se da sua reputação de ser um dos mais corruptos da América Latina. Ele é também um dos mais pobres. Cerca de 33% dos paraguaios estão abaixo da linha de pobreza, e aproximadamente um milhão vivem no exterior.

Lugo ganhou a eleição em abril, em meio à impaciência crescente com a corrupção e a percepção do eleitorado - especialmente no contexto do aumento do desemprego nas cidades paraguaias - de que os colorados beneficiaram-se da riqueza do país às custas do cidadão paraguaio comum.

Por ora, não se sabe se Lugo terá permissão para fazer a transição de padre para político. A constituição paraguaia proíbe sacerdotes de igrejas de qualquer denominação de elegerem-se para o cargo de presidente, de forma que Lugo renunciou ao seu título de bispo em dezembro de 2006. Inicialmente o Vaticano recusou-se a aceitar a renúncia, e considerou-o apenas suspenso.

Mas no mês passado o papa Bento 16 autorizou-o a renunciar ao bispado. UOL

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