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17/08/2008

História familiar é retocada na era do Photoshop

The New York Times
Alex Williams
em Nova York
Remover seu ex-marido de mais de uma década de memórias pode levar uma vida para Laura Horn, uma telefonista de central de emergência da polícia em Rochester, Nova York. Mas removê-lo de uma dúzia de anos de fotos de férias levou apenas horas, com um pouco de trabalho hábil com o mouse de uma amiga, com boa vontade e com domínio do Photoshop, o popular programa de edição de imagem digital.

Como um técnico do Kremlin na era Stalin, removendo todos os traços das autoridades que caíram em desgraça das fotos do Estado, a amiga apagou o marido de várias fotos queridas tiradas em cruzeiros e chalés no Caribe, onde ele esteve com Horn, atualmente com 50 anos, e outros companheiros de viagem.

"Na minha realidade, eu sei que estas coisas não aconteceram", disse Horn. Mas "sem ele nelas, eu posso exibi-las. Eu posso olhar para estas fotos e pensar na diversão que compartilhamos, nos lugares onde estivemos".

"Esta realidade é muito mais agradável", ela acrescentou.

À medida que programas de edição de imagens crescem em sofisticação e ubiqüidade, as alterações vão além da remoção do olho vermelho e do branqueamento dos dentes. Elas incluem a substituição de cabeças para obter a melhor combinação de sorrisos, a remoção de pessoas problemáticas ou a adição de membros da família que não puderam estar presentes em eventos importantes, a realização de uma lipoaspiração virtual ou transplante de cabelo, até mesmo reanimar os mortos. A revisão da história, ao que parece, pode ser praticada por qualquer um.

Quando as pessoas manipulam fotos em seus álbuns, a emoção e a vaidade podem vencer a verdade objetiva. E em alguns casos, pode até mesmo alterar as memórias - o primo Andy esteve no casamento, não é?

Em uma era de manipulação digital, muitas pessoas acreditam que instantâneos e fotos de família não precisam mais permanecer o registro definitivo do que foi, mas sim, do que gostariam que tivesse sido.

"As fotos costumavam fornecer evidência documental e havia algo sacrossanto nisso", disse Chris Johnson, um professor de fotografia da California College of the Arts, de Bayarea.

Se você quisesse remover um ex de um antigo retrato, era preciso uma caneta Bic ou tesouras. Mas na era digital, as pessoas tratam as fotos como mash-ups na música, combinando vários elementos para formar um todo mais agradável.

"O que estamos fazendo", disse Johnson, "é atendendo ao desejo que todos temos de tornar a realidade do nosso agrado".

E ele não é exceção. Quando ele fotografou um casamento para a família de sua namorada no interior de Nova York há poucos anos, ele deixou um espaço no final de uma grande foto em grupo para um membro que não pôde ir. Eles o encontraram meses depois, tiraram uma foto e Johnson usou o Photoshop para colá-lo na foto do casamento.

Agora, ele disse, todos sabem que é falsa, mas "esta foto falsa na verdade criou uma suposição - as pessoas meio que lembram dele ali".

O impulso de registrar a história da família de forma mais ilusória do que precisa é tão antiga quanto a própria fotografia. No século 19, as pessoas posavam rotineiramente com itens pessoais, como bolsas ou lenços, que pertenciam a parentes mortos ou ausentes para incluí-los, emocionalmente, na imagem, disse Mary Warner Marien, uma professora de história da arte da Universidade de Syracuse e autora de "Photography: A Cultural History".

Na Índia, ela disse, é uma tradição recortar e colar imagens de membros ausentes da família nas fotos de casamento, como um gesto de respeito e inclusão. "Todos entendem que não se trata de um truque", ela disse. "Esta é a natureza da fotografia. É o senso ocidental de realidade que afirma que o que está diante das lentes tem que ser verdadeiro."

Revolução digital

Até recentemente, no início desta década, a maioria das pessoas ainda registrava a história da família em filme, disseram especialistas em fotografia, o que significava que as modificações eram limitadas. Mesmo entre os dedicados à foto digital, apenas profissionais ou amadores ambiciosos costumavam comprar programas de computador como o Adobe Photoshop.

Mas agora, com o programa de consumo Photoshop Elements, o irmão do profissional Photoshop CS3, freqüentemente vendido por menos de US$ 100, sua popularidade está em ascensão. As vendas do programa cresceram cerca de 20% ao longo do último ano, disse Kevin Connor, um vice-presidente da Adobe.

Programas semelhantes, como o Gimp, são gratuitos na Internet. Quiosques de foto em supermercados, assim como programas de foto populares como o iPhoto e o Picasa, também podem manipular fotos. Além disso, serviços profissionais de retoque, que podem alterar drasticamente as fotos, estão aumentando e são anunciados com freqüência na web. E fotógrafos profissionais também alterarão a realidade para atender os gostos do cliente.

Depois que seu pai morreu há vários anos, Theresa Newman Rolley, uma contadora de Williamsport, Pensilvânia, contratou Wayne Palmer, um retocador de fotos, para criar um retrato composto dos dois, porque ela não tinha nenhuma foto deles juntos.

A foto -um momento que nunca aconteceu- agora está pendurada em sua sala de estar. Ela ainda lhe traz lágrimas aos olhos, ela disse.

"É a única foto de mim e meu pai juntos", disse Rolley, acrescentando: "Independente de tê-la apenas por meio de recorte e colagem, ela ainda significa o mesmo para mim".

Estas manipulações representam um "novo mecanismo de cópia para nós", disse Heather Downs, uma professora assistente de sociologia da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, que estudou o papel que as fotos têm nas famílias. Imagens idealizadas, ela disse, podem dar às pessoas "um novo roteiro para lidar com os problemas que as famílias sempre tiveram: membros da família que não se dão bem, divórcio".

"Se você não pode ter a família perfeita, pelo menos é possível criá-la no Photoshop", ela acrescentou.

Ellen Robinson, uma conselheira voluntária de faculdade em Denver, contratou Sara Frances, uma fotógrafa local, para realizar um retrato de família formal para ser pendurado proeminentemente na nova casa dela. Trabalhando por US$ 150 a hora, Frances mudou expressões dos membros da família e trocou a cabeça do cachorro pela de outra foto. Ela deixou os corpos mais esbeltos, ajustou os tons de pele e mudou a cor de várias roupas visando uma palheta mais uniforme. Ela até mesmo endireitou o colarinho da camisa de um filho.

"Você gasta muito dinheiro nesses retratos", disse Robinson. "Eles devem supostamente durar a vida toda -gerações. Então por que não contar com uma mãozinha para que saia direito?"

Distorção

A fotografia sempre representou, em certo grau, uma distorção da realidade, disse Per Gylfe, um diretor do laboratório de mídia digital do Centro Internacional de Fotografia, em Nova York. Um fotógrafo pode criar impressões diferentes da mesma cena ao incluir alguns elementos na imagem e omitir outros, ao mudar as lentes, ao ajustar a cor e o tom da imagem na sala escura.

"Nós sempre tiramos fotos como provas de eventos, e provavelmente nunca deveríamos", disse Gylfe.

A motivação para elaborar uma imagem idealizada de si mesmo ou da família é ainda maior em uma era em que o álbum de fotos da família está migrando do armário para a Internet. Além disso, as pessoas estão aceitando melhor a adulteração na fotografia, em parte porque as fotos retocadas -e comentários sobre elas- são comuns online.

Um incidente no mês passado, no qual o governo iraniano aparentemente manipulou uma imagem de um teste de mísseis para exibir o tamanho de seu arsenal, se tornou assunto de blogs por todo o mundo.

Expor manipulação de fotos se tornou uma fonte de entretenimento no blog Photoshop Disasters, que cataloga os exemplos mais óbvios extraídos de revistas, jornais, propagandas e outros meios.

"Todos os meios estão repletos de manipulação", disse Fred Ritchin, um professor de foto e imagem da Universidade de Nova York. Portanto, ele acrescentou, "na esfera de amigos e família, há muito menos resistência à alteração de imagens".

De fato, em um mundo onde tantas imagens de pessoas belas e famosas são retocadas, as pessoas às vezes acreditam que precisam melhorar as fotos de si mesmas para acompanhar o ritmo. Keze Stroebel-Haft, 23 anos, uma retocadora de uma agência de publicidade em San Francisco, disse que usa o Photoshop para remover manchas ou papadas das fotos de si mesma que posta no MySpace e Facebook.

"Está em toda parte", ela disse. "Nas capas de revistas, todas as mulheres bonitas são retocadas no Photoshop, a pele delas passa por limpeza. Todo mundo faz isso."

Mas enquanto a evolução da tecnologia dá às pessoas mais poder para reconstruir suas histórias pessoais, aquelas velhas fotos não retocadas em seus álbuns de família retêm um poderoso valor psicológico.

Alan D. Entin, um psicólogo clínico em Richmond, Virgínia, usa as fotos de família dos pacientes como matéria-prima para inspirar discussão e análise dos papéis e relacionamentos dentro da família deles.

"Elas são um registro", ele disse. "Eles existiram ao longo de um tempo e espaço. São documentos importantes."

Alterá-las é um convite a enganar a si mesmo, ele disse. "O valor de aceitar uma foto de você como é significa que você aceita a realidade de quem você é, de como se parece, e aceitar você dessa forma, com verrugas e tudo. Eu acho que as fotos que você odeia dizem muito a seu respeito tanto quanto as fotos que você ama." George El Khouri Andolfato

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