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18/08/2008

Boxeador cego vira celebridade e inspira Uganda

The New York Times
Por Jeffery Gettleman
No centro de uma academia decadente de Kampala, Uganda, onde o cheiro de mofo é forte e os fracos não são bem-vindos, Bashir Ramathan move-se para os lados, para frente e para trás, com suas luvas socando furiosamente, tentando encontrar o alvo. Os golpes atingem seus braços, seu peito, sua face coberta de suor. Mas seus punhos continuam voando - completamente no escuro.

"Tome cuidado com o meu gancho!", ele alerta. "É rápido! É certeiro! Cuidado!"

Ramathan é completamente cego, e ele é um boxeador de peso médio. Isso soa improvável, e perigoso, mas é a forma que ele tem de lidar com sua deficiência.

Esse forte e barbado pedreiro das favelas de Uganda não tem medo, e chama todos os outros boxeadores da academia para lutar pau-a-pau com ele - desde que eles usem vendas. Recentemente, um outro lutador, e bem treinado nisso, amarrou uma camiseta suada em volta do rosto, e ele e Ramathan lutaram vários rounds, trocando alguns socos no rosto.

Houve também alguns violentos golpes no ar e em um determinado momento, os dois boxeadores ficaram de costas um para o outro, socando como loucos na direção errada.
Ramathan disse que ele tenta perceber cheiros e sons, como o barulho dos tênis e o calor da respiração do seu oponente.

"Bashir luta com o cérebro", explica o técnico, Hassan Khalil.

"Ele tem talento", disse Monica Abey, uma jovem lutadora que treinou com ele.

Mas a história desse Rocky ugandense não tem nada a ver com o boxe, na verdade. É a história sobre como um homem que perdeu a visão inesperadamente há 12 anos deixou de ser uma figura sombria sentada num barraco de um quarto à espera de que alguns órfãos cozinhassem sua próxima tigela de mingau para transformar-se numa inspiração em todo o país.

Onde quer que ele faça sua corrida matinal, usando os shorts sobre a calça de moletom no velho estilo dos boxeadores, com um menino de 12 anos correndo ao seu lado, servindo como guia, as pessoas saem de suas barracas de verdura e das cabines de telefone para assoviar e gritar com alegria para ele.

Não há rampas nem cães de guia aqui. O terreno é irregular com rochas aqui e acolá, enlameado em alguns lugares, pedregoso em outros. Mesmo para aqueles com visão a perfeita, é difícil andar sem tropeçar. Mas de alguma forma Ramathan consegue, orientando-se entre as sarjetas e as bocas-de-lobo escorregadias, os caminhões da Pepsi parados como montes no meio das alamedas e os táxis de bicicleta maníacos que surgem nas ruas sem aviso. Há alguns anos ele levou uma fechada de um carro. Seu joelho direito ainda dói. Mas ele continua treinando.

Oficiais da comunidade de cegos de Uganda dizem que Ramathan tornou-se um herói para cerca de 500 mil ugandenses cegos.

"Eis um homem que está mostrando que a cegueira não é o fim do mundo", diz Francis Kinubi, presidente da Associação de Esportes para Cegos de Uganda.

Ele diz que Ramathan está ajudando a chamar atenção e levantar fundos extremamente necessários. Esse ano, a associação não poderá participar dos Jogos Paraolímpicos em Pequim porque ela não tinha US$ 200 para dar início ao processo de inscrição, muito menos do que o necessário para cobrir as passagens de avião, um sinal evidente da escassez de recursos para os deficientes na maior parte da África.

Ramathan, que diz ter 36 ou 37 anos, ele não sabe ao certo, vem de Naguru, um bairro pobre fora do centro de Kampala, capital de Uganda.
Naguru é conhecido por seus morros de terra vermelha, favelas de teto de zinco e suas mãos rápidas.

Uganda tem uma tradição forte de luta, que vem desde a época do cruel ditador Idi Amim, que era um boxeador peso-pesado. E dentro de Uganda, Naguru produziu alguns dos melhores pugilistas do país, como John (A
Fera) Mugabi, que lutou nos Estados Unidos e quase derrotou Marvin Hagler, e Michael Obin, um campeão nacional peso médio-ligeiro.
Inúmeros lutadores aspirantes de Naguru pulam corda, puxam pesos enferrujados e treinam seus golpes em academias construídas com blocos de cimento e mal iluminadas, espremidas entre barracos, que guardam todo as glórias ingloriosas do submundo do boxe: os sacos de pancada murchos, os narizes achatados e os sonhos grandiosos das crianças de rua.

Ramathan cresceu lutando. Seus pais morreram quando ele era criança.
Ele saiu da escola para construir muros de tijolo. Ficou conhecido em Naguro como um grande atleta - um excelente jogador de futebol e um lutador temido.

Mas em 1996, algo estranho aconteceu. Ele teve fortes dores de cabeça.
Foi a um médico, e recebeu a notícia de que estava ficando cego.

"Primeiro meu olho direito, depois o esquerdo", disse. "Então a escuridão, tudo escuro. Só preto, preto, preto."

O médico disse que não havia nada que ninguém em Uganda pudesse fazer para ajudá-lo.
Sua mulher deixou-o logo em seguida, e seus irmãos e irmãs também o abandoaram. "Eles tinham seus próprios problemas", explicou Ramathan.
Sem nenhum seguro por parte do governo, ele sobreviveu com o equivalente a alguns dólares por semana doados pela mesquita local.
Órfãos da vizinhança vinham a seu barraco para ajudá-lo a cozinhar.
Ele passou muito tempo dentro de casa.

"Fiquei triste a princípio, mas então descobri que havia muitas outras pessoas cegas", disse. Há dois anos, ele decidiu voltar para o ringue.

Por quê?

"Eu queria ficar em forma", disse.

Seu jab pode ser duro. Seu jogo de pés pode ser claro. Mas a introspecção não parece ser o forte de Ramathan.

Sua vida é simples. Ele come, dorme, reza, luta. Quando soca o saco pesado, deixa marcas impressionantes, do tamanho de melões, no couro.

Em Uganda, a linha entre o boxe amador e profissional não é muito definida, e alguns lutadores ganham algumas centenas de dólares lutando em clubes noturnos locais. No ano passado, Ramathan foi a atração principal de uma luta beneficente que ajudou a levantar US$ 2.600 para sua academia, a East Coast Boxing Club. Ele lutou contra um profissional - vendado, é claro. E venceu por pontos.

Desde então, jornalistas de toda a África vieram atrás dele.

Com um sorriso longo e branco, ele se lembra em particular de uma repórter sul-africana que dançou com ele do lado de fora de seu barraco. Recentemente, uma equipe de cinema holandesa começou a fazer um filme sobre ele. Graças à publicidade, uma de suas ex-namoradas - ele parece ter muitas, além de cinco filhos - agora quer reatar o relacionamento. Ainda assim, Ramathan diz que trocaria tudo isso por dois olhos que funcionassem.

"As pessoas acham que estou fingindo", disse. "Ela pensam que estou fazendo isso para chamar atenção ou ganhar dinheiro. Mas eu não estou fingindo. Eu quero enxergar, como elas."

Seu plano agora é começar sua própria liga internacional de boxe para cegos.
"Se os cegos podem fazer luta livre ou lançar dardos", diz ele, referindo-se a dois esportes bem estabelecidos entre os cegos, "por que não podem lutar boxe?"

Alguém recentemente contou a ele sobre um boxeador cego na vizinha Tanzânia. Ramathan está tentando encontrá-lo. Ele também está pensando além da África.

"Há muitos cegos nos Estados Unidos, certo?" perguntou. "Você acha que algum deles vai querer lutar comigo?" Eloise De Vylder

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