UOL Notícias Internacional
 

18/08/2008

Cursinho sul-coreano obriga alunos a abandonarem todos os prazeres da vida

The New York Times
Choe Sang-hun

Em Yongin, Coréia do Sul
Enquanto o sol se punha atrás das colinas com pinheiros que cercam este campus rural, em uma recente segunda-feira, Chung Il-wook e sua esposa levavam de carro Min-ju, a filha deles de 18 anos. Eles lhe deram um rápido abraço e ela se apressou para entrar no prédio da escola, arrastando uma mala atrás dela.



Dentro, uma multidão barulhenta de 300 adolescentes tinha voltado da licença de duas noites e faziam fila para que seus professores revistassem suas malas.

Os estudantes daqui estavam abandonando todos os prazeres da vida adolescente. Não são permitidos celulares, revistas de moda, televisores, Internet. São proibidos encontros, concertos, brincos, mão manicurada -eles são proibidos de agir conforme sua idade.

Seokyong Lee/The International Herald Tribune 
Estudantes fazem prova em uma sala de aula do Jongro, em Yongin, Coréia do Sul

Todas estas coisas são distrações de uma meta maior. Neste rígido campus, a quilômetros do transporte público mais próximo, Min-ju e seus colegas estudam das 6h30 até depois da meia-noite, sete dias por semana, para superar o temido obstáculo que pode decidir seu futuro -o vestibular nacional.

"Min-ju, dê seu melhor! Lute!", bradou Chung enquanto sua filha desaparecia dentro do prédio. Min-ju se virou e ergueu um punho cerrado. "Lutarei!", ela respondeu.

Os sul-coreanos dizem que sua obsessão em colocar seus filhos nas melhores universidades é como uma "guerra". Em nenhum outro lugar este zelo é melhor ilustrado do que em cursinhos como o Jongro Yongin Campus, localizado no subúrbio esparsamente povoado de Yongin, a 40 quilômetros ao sul de Seul.

A maioria dos estudantes do Jongro é "jaesoo sang", ou "estudante que têm que estudar de novo". Após fracassarem em entrar na universidade de sua escolha, eles se preparam incessantemente para o vestibular do ano seguinte. Alguns tentam repetidas vezes, por três anos consecutivos após se formarem no colégio.

A escola Jongro busca uma estratégia de isolamento, afastando de tentações concorrentes de qualquer espécie. Seu currículo é tão rígido e as distrações tão poucas que os estudantes dizem não ter opção a não ser estudar.

"Enviar Min-ju para cá não foi uma escolha ideal, mas sim inevitável", disse Chung, um contador de 50 anos. "Em nosso país, o vestibular determina 70% a 80% do futuro de uma pessoa. É uma realidade triste. Mas é preciso reconhecer isso; caso contrário você prejudicará o futuro de seus filhos."

A entrada na universidade certa pode ser crucial para um jovem sul-coreano ambicioso. A universidade que os estudantes freqüentam na faixa dos 20 anos pode determinar os empregos que terão e o dinheiro que ganharão na faixa dos 50 anos. As universidades mais importantes -a Nacional de Seul, da Coréia e Yonsei, coletivamente conhecidas como SKY- podem não figurar na lista global do melhor do ensino superior. Mas aqui, seus diplomas são um bilhete de entrada, um símbolo de status invejado e um emblema de orgulho para os formados e seus pais.

A vida de uma criança sul-coreana, do jardim de infância ao colégio, é dominada pela necessidade de passar no vestibular padronizado para a faculdade. O sistema é tão exigente que é creditado por alimentar o sucesso econômico fora de série do país. É também altamente criticado pelo preço psicológico que cobra dos jovens. Entre os jovens de 10 a 19 anos, o suicídio é a segunda causa de morte mais comum, atrás de acidentes de trânsito.

Quando fortes protestos antigoverno abalaram a Coréia do Sul há pouco tempo, mais notadamente pelo presidente Lee Myung-bak ter concordado em importar carne bovina dos Estados Unidos, muitos manifestantes eram adolescentes protestando contra a pressão que sofrem na escola.

Entre as críticas a Lee estavam acusações de que preencheu muitos altos cargos governamentais com pessoas ligadas à Universidade da Coréia, onde se formou. Mas quando o presidente substituiu todo seu ministério em junho, apenas um dos 10 novos ministros tinha se formado em uma das três universidades mais conhecidas do país. Cerca de 600 mil estudantes coreanos ingressam em faculdades a cada ano -10 mil deles nas escolas SKY- e mais de 1 em 5 são "jaesoo saeng", que se redimiram por meio dos cursinhos.

"Inicialmente eu me senti envergonhada", disse Chung Yong-seok, 19 anos, que está tentando novamente entrar na Universidade da Coréia, após não ter conseguido no ano passado. "Eu me perguntava o que estava fazendo em um lugar como este, enquanto todos meus amigos estão se divertindo na faculdade. Mas eu considero um ano neste lugar como um investimento em um futuro melhor."

Muitos destes candidatos estudam sozinhos ou tomam diariamente condução até um instituto privado. Muitos outros se matriculam em um dos 50 cursinhos que surgiram nos arredores de Seul.

O Jongro abriu no ano passado. Seu prédio principal de quatro andares abriga salas de aula e dormitórios, com oito camas por quarto. O dia começa às 6h30 da manhã, quando apitos quebram o silêncio e os professores caminham pelos corredores gritando "Acordem!"

Após exercícios e café da manhã, eles estão em suas salas de aula às 7h30, 30 alunos por classe. Cada sala inclui alguns poucos suportes para partitura, para estudantes que preferem ficar em pé para não dormir.

Uma chamada final ocorre à meia-noite e meia, após a qual os estudantes podem ir para a cama, a não ser que optem por estudar um pouco mais, até às 2h da madrugada.

A rotina relaxa no sábado e domingo, quando os estudantes têm uma hora extra de sono e duas horas de tempo livre. A cada três semanas os estudantes podem deixar o campus por duas noites.

O currículo não tem espaço para romance. Avisos nos corredores e salas de aula enumeram o comportamento proibido: qualquer conversa entre meninos e meninas que não esteja relacionada ao estudo; troca de bilhetes românticos; abraços, andar de braços dados ou qualquer outro contato físico. A punição inclui vários dias de limpeza da sala de aula ou do banheiro, e até mesmo expulsão.

"Nós garotas ouvimos quais garotas os meninos consideram bonitas", disse Park Eom-ji, 19 anos. "Mas não usamos muitos cosméticos, não tingimos nosso cabelo, não usamos roupas que chamam a atenção." Ela acrescentou: "Nós sabemos para que estamos aqui."

Kim Sung-woo, 32 anos, que leciona no Jongro, lembrou do regime ainda mais espartano do cursinho que freqüentou. Na sua época, ele disse, os estudantes desesperados por um descanso escapavam do campus à noite, escalando muros com arame farpado. Punições físicas eram comuns.

As coisas não são mais tão duras -havia queixa demais dos pais. Ainda assim, "este lugar -metaforicamente falando- é uma prisão", disse Kim Kap-jung, um vice-diretor do Jongro. "Os estudantes sofrem tremenda pressão quando a data do exame se aproxima e a nota deles não melhora. As garotas choram durante o aconselhamento e os meninos fogem e não voltam." Em algumas escolas, até 40% dos alunos abandonam o curso.

Os pais coreanos se mostram notadamente dispostos a se sacrificarem pelo futuro de seus filhos. Mais de 80% dos formados no colégio entram na faculdade. O percentual de gastos privados em educação, 2,8% do produto interno bruto da Coréia do Sul em 2004, é o maior entre os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

"É um grande fardo financeiro para mim", disse Park Hong-ki, 50 anos, se referindo à despesa mensal de US$ 1.936 que paga para manter seu filho no Jongro.

Os estudantes escrevem bilhetes para si mesmos em papéis adesivos coloridos e os mantêm em suas mesas. "Hoje posso estar chorando lágrimas de tristeza, mas amanhã derramarei lágrimas de felicidade", dizia um. Outro advertia: "Pense nos sacrifícios que seus pais estão fazendo para que você esteja aqui". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host