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18/08/2008

Separatismo movimenta fronteira esquecida da China

The New York Times
Por Geoff Dyer e Jamil Anderlini
Primeiro o Tibet, agora Xinjiang. O ano olímpico chinês mostrou para o mundo as conquistas econômicas e a resiliência do Estado governado por um só partido, mas também expôs os ressentimentos inflamados no oeste longínquo do país.

Durante as duas últimas semanas, mais de 30 pessoas morreram em três ataques diferentes em prédios da polícia e do governo em Xinjiang, na maior explosão de violência política na região em mais de uma década. As autoridades do governo foram cuidadosas em não tirar conclusões precipitadas e há pouca informação disponível. Todavia, a sucessão de ataques sugere que haja uma possível coordenação entre os diferente grupos.

No incidente em Kuqa há oito dias, mais de uma dúzia de bombas explodiram antes do amanhecer. Além disso, os analistas se surpreenderam com as notícias de que três jovens mulheres estavam envolvidas. "Isso pode indicar que há uma nova geração de militantes em Xinjiang", diz Nicholas Bequelin, um pesquisador da organização de monitoramento dos direitos humanos Human Rights Watch, que vive em Hong Kong.

"Pelo fato de isso acontecer durante as Olimpíadas, parece que alguns dos moradores locais estão enviando uma mensagem de que não apóiam as políticas do governo central na região", diz Dru Gladney, professor do Pomona College na Califórnia e especialista em Xinjiang.

Xinjiang - que significa "Nova Fronteira" - é uma vasta província que cobre um sexto da China e faz fronteira com oito países, incluindo o Afeganistão e o Paquistão. Os uigurs, a maior minoria étnica da região, são predominantemente muçulmanos, falam uma língua turca e têm laços culturais fortes com outros grupos na Ásia central.

Como o Tibet, Xinjiang tem um história de disputas. A China alega ter exercido um controle efetivo sobre a região desde a dinastia Han no século 2 A.C.. Muitos outros relatos descrevem séculos de aumento e diminuição da influência chinesa e duas tentativas breves de criar um Estado independente com o nome de Turquistão do Leste nos anos 30 e 40.

A profundidade do ressentimento de Xinjiang contra Pequim parece uma surpresa para muitos chineses, especialmente por causa dos recordes econômicos da região. Durante a maior parte das três últimas décadas, a economia de Xinjiang cresceu ainda mais rápido do que o país como um todo, expandindo-se em 12% em 2007. Seu produto interno bruto per capita está bem abaixo da próspera costa leste, mas bem mais alto do que inúmeras outras províncias do interior.

Há muitos uigurs que se sentem bastante beneficiados pelo crescimento. "Se os uigurs não conseguem bons empregos, é porque não têm inteligência ou educação", diz um homem uigur que trabalha numa empreiteira em Korla. "Se fôssemos independentes, seríamos um pequeno país pobre pressionado por todos." As políticas populacionais da China permitem aos uigurs terem mais filhos do que a maioria dos chineses Han, o que reforça uma visão de que eles são uma minoria privilegiada entre muitos chineses.

Mas assim como no Tibet, a rápida modernização econômica não ganhou os corações e as mentes de boa parte da população local. A migração em massa é uma das razões. Em um censo de 1950, logo depois que a República Popular da China declarou novamente o controle sobre Xinjiang, a proporção da população pertencente ao grupo dominante Han estava em 6%. Nas últimas estimativas, os chineses Han respondiam por mais de 40%, um número similar ao de uigurs. Centenas de milhares de migrantes se mudaram para a região para trabalhar na indústria de petróleo ou nas grandes fazendas estatais que transformaram Xinjiang no maior produtor de algodão e tomate da China.

Alguns desses projetos incitaram conflitos de terra e pelos direitos sobre a água. Em torno de Kuqa, uma cidade poeirenta de 400 mil habitantes na beira de um deserto, as fazendas de algodão exploram os recursos hídricos em demasia. Uma autoridade ambiental local diz que novas políticas foram introduzidas para limitar o tamanho das fazendas e seu consumo de água.

Mas a algumas horas ao sul de Kuqa, na cidade rural de Tarim County, longas filas de casas de alvenaria estão sendo construídas para os uigurs que segundo os oficiais foram retirados de suas terras para proteger a frágil ecologia da região. Grupos de direitos humanos atribuem os reassentamentos à divisão da água pelas fazendas de algodão. "Minha casa nova é mais bonita do que a que eu vivia antes [moradia tradicional feita com barro], mas eu não tenho como garantir minha sobrevivência agora", diz um morador recentemente reassentado.

Apesar de haver quotas de emprego, especialmente nas companhias estatais, muitos uigurs sentem que foram excluídos das melhores oportunidades de trabalho; de acordo com a Comissão do Congresso e Executivo dos EUA na China, em uma campanha de recrutamento em 2006, 800 dos 849 postos de trabalho haviam sido reservados para os Hans.
"Para os uigurs conseguirem prosperar, têm de agir como chineses e esquecer suas diferenças étnicas", diz Bequelin da Human Rights Watch.
"As pessoas gostariam de ter ambos."

Além disso, assim como no Tibet, a modernização econômica foi acompanhada por uma estratégia política de linha-dura com o objetivo de controlar a vida religiosa e cultural da província, e isso alienou muitos Uigurs. De fato, Zhang Qingli, secretário do partido Comunista desde 2006 no Tibet - que foi notoriamente chamado de "um lobo nas vestes de um monge" pelo Dalai Lama - era o deputado chefe do partido em Xinjiang.

Grupos de defesa dos direitos humanos e acadêmicos dizem que, particularmente depois dos ataques de 11 de setembro nos EUA, as autoridades chinesas aumentaram sua interferência na vida religiosa.
Campanhas de "reeducação política" dirigidas aos líderes religiosos muçulmanos incluem aulas regulares dadas por oficiais do partido e uma forte pressão para informar sobre atividades suspeitas. O imã de uma pequena mesquita nos arredores de Korla disse que concederia a entrevista apenas se os oficiais do partido Comunista estivessem presentes. Todos os menores de 18 anos são proibidos de entrar nas mesquitas.

Mesmo nos pequenos vilarejos de Tarim County, os espiões uigurs trabalhando para o aparato de segurança chinês observam qualquer sinal de descontentamento ou críticas das políticas estatais e rapidamente informam a delegacia de polícia local. Repórteres estrangeiros que visitam a região são questionados por esses espiões e escoltados por oficiais de segurança. "Há uma espécie de efeito agregador depois de todos esses anos de repressão da população uigur", diz Yitzhak Shichor, professor de estudos asiáticos na Universidade de Haifa em Israel. "Cedo ou tarde isso deve irromper."

Apesar de a questão tibetana ser muito mais divulgada, por conta da fama internacional do Dalai Lama, de certa forma Xinjiang é um tema muito mais sensível para as autoridades chinesas. Xinjiang é hoje o maior produtor de petróleo e gás do país, e um canal para os oleodutos dos países da Ásia central. Além disso, um período prolongado de tensão poderia rapidamente se transformar num incidente regional por conta dos fortes laços entre os Uigurs e as populações vizinhas de países da Ásia central. O risco de que os países vizinhos interfiram em Xinjiang é uma das razões pela qual os chineses pressionaram pela criação da Organização de Cooperação de Xangai, um grupo que reúne a China, Rússia e outros países da Ásia central e cujo principal acordo é para uma ação conjunta contra os grupos separatistas.

Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos e outros países listaram o Movimento Islâmico do Turquistão do Leste (Etim) - o grupo que muitos oficiais chineses consideram a maior ameaça da região - como um grupo terrorista. Todavia, a ajuda diplomática em outras frentes têm sido menos cooperativa. "É difícil para a União Européia apoiar a China quando a maior parte de suas atividades diplomáticas se resume a criar um lobby para prevenir as atividades de grupos que não têm conexões terroristas mas que a China vê como uma ameaça ao partido Comunista", diz John Fox, membro do Conselho Europeu de Relações Internacionais.

Então que tipo de ameaça a China enfrenta? Com a recente onda de violência, não há muito acordo entre os especialistas dentro e fora da China se o país de fato enfrenta uma nova insurgência militante e se há algum envolvimento estrangeiro.

Apesar de os oficiais chineses terem feito uma série de alertas em relação ao terrorismo antes das Olimpíadas - afirmando terem prendido
82 pessoas por suspeita de planejar sabotar os jogos - os ataques recentes receberam pouca publicidade na mídia local e nenhum grupo assumiu a responsabilidade. Em um dos poucos comentários específicos, Qin Ganga, um porta-voz do ministro das relações exteriores, disse na semana passada que "há algumas evidências que mostram que as forças do Turquistão do Leste podem estar por trás dos ataques". Outras declarações oficiais não forneceram mais detalhes. Wang Lequan, secretário do partido Comunista em Xinjiang, disse na semana passada que a China enfrenta uma "luta de vida ou morte" contra as "três forças do mal" do terrorismo, separatismo e radicalismo religioso.

Uma das questões mais interessantes é se os ataques tiveram auxílio de fora. Desde o 11 de setembro, Pequim tem retratado qualquer conflito em Xinjiang como parte da guerra global contra a jihad. Mais recentemente, alguns oficiais chineses disseram que a China está sendo infiltrada pelo Hizb ut-Tahrir, um grupo que quer criar um Estado muçulmano pan-nacional.

Um grupo que se auto-intitula Partido Islâmico Turquistão divulgou dois vídeos assumindo a responsabilidade por outras explosões na China e - mesmo apesar de todo ceticismo em relação à existência desse grupo, sem falar em suas reivindicações - a presença desses vídeos com tom jihadista preocupa alguns analistas.

Rohan Gunaratha, um especialista em terrorismo que vive em Cingapura, acredita que o Etim ainda tem alguma presença no norte do Paquistão e ligações com a al-Qaeda, que poderiam deixar a China vulnerável para os militantes que entram ilegalmente pela fronteira - apesar de que, acrescenta, as políticas chinesas para com os Uigurs estão os empurrando na direção do radicalismo islâmico.

Li Wei, diretor de pesquisa de contra-terrorismo no Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, diz que não há evidências até agora de que os ataques recentes tinham ligações estrangeiras. "É mais provável que os ataques tenham sido feitos por grupos separatistas", diz. "A religião pode ser uma capa, mas o separatismo é o seu propósito principal."

O professor Gladneya do Pomona College da Califórnia, diz que há poucas evidências de simpatia pelos grupos terroristas do Paquistão ou de outros lugares. "Definitivamente houve um aumento no conservadorismo islâmico em Xinjiang", diz ele. "Mas eu não vi sinais de um apoio real à jihad internacional ou para o radicalismo islâmico."

Mesmo o nível de coordenação entre os ataques não está claro. Alguns analistas dizem que a natureza amadora das armas que foram usadas - facas e explosivos caseiros - sugerem grupos locais sem sofisticação e com pouco treinamento. Enquanto alguns Uigurs apóiam a independência, dizem, muitos querem apenas mais autonomia.

"Esses não parecem ser atos de alguma organização terrorista planejados desde o outro lado da fronteira", diz o professor Schichor da Universidade de Haifa. "Nós não temos muitas informações, mas isso parece mais com ressentimento de pessoas que estão usando os Jogos Olímpicos para fazer alguma coisa." As Olimpíadas trouxeram a atenção mas pouca clareza sobre as rachaduras que percorrem Xinjiang." Eloise De Vylder

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