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19/08/2008

À medida que gigantes do petróleo perdem influência, oferta cai

The New York Times
Jad Mouawad
A produção de petróleo começou a cair em todas as grandes empresas ocidentais de petróleo, e elas estão tendo mais dificuldade que nunca para encontrar novos campos, apesar de estarem repletas de lucros e ávidas em expandir.

Parte do motivo é político. Do Mar Cáspio à América do Sul, as companhias ocidentais de petróleo estão sendo afastadas das áreas ricas em recursos. Elas estão sendo forçadas a renegociar contratos em termos menos favoráveis e estão travando batalhas perdidas contra companhias estatais de petróleo assertivas.

E grande parte de sua produção vem de regiões maduras em declínio, como o Mar do Norte e o Alasca.

A realidade, dizem os especialistas, é que as gigantes do petróleo que antes dominavam o mercado global perderam muito de sua influência -e com ela, sua capacidade de aumentar a oferta.

"Esta é uma indústria em crise", disse Amy Myers Jaffe, a diretora associada do programa de energia da Universidade Rice, em Houston. "É uma crise de liderança, uma crise de estratégia e uma crise de como será o futuro para as 'supermajors'", um termo freqüentemente aplicado às maiores companhias de petróleo. "Elas estão como cervos paralisados diante dos faróis do carro. Elas sabem que têm que se mover, mas não conseguem decidir para onde ir."

O recuo acentuado em todos os preços das commodities ao longo no último mês, de cerca de 20%, reflete a desaceleração do crescimento global e, com ela, a redução da demanda por mais petróleo a curto prazo. Mas ao longo da próxima década, o mundo precisará de mais petróleo para satisfazer as economias asiáticas em desenvolvimento, como a China. As dificuldades das companhias de petróleo sugerem que esta oferta futura muito necessária dificilmente será atendida.

A produção de petróleo não tem conseguido acompanhar o aumento do consumo nos últimos anos, uma disparidade que levou os preços do petróleo a recordes neste ano. Apesar do recente declínio, o petróleo permanece acima de US$ 100 o barril, um preço inimaginável há poucos anos, causando dor por toda a economia, dos consumidores nas bombas de gasolina à prejuízos consideráveis informados por companhias aéreas e fabricantes de carros.

A amplitude do problema da oferta ficou mais claro no mais recente trimestre, quando as cinco maiores companhias de petróleo de capital aberto, incluindo a Exxon Mobil, disseram que sua produção de petróleo recuou em um total de 614 mil barris por dia, apesar de terem apresentado US$ 44 bilhões em lucros. Foi a queda mais acentuada em cinco trimestres consecutivos de declínio.

Apesar dessa queda não parecer muito em um mundo que consome 86 milhões de barris de petróleo por dia, os mercados atuais estão tão apertados que a menor queda pode provocar alta dos preços.

Além dos campos maduros, as empresas têm contratos com países produtores cujos governos alocam menos barris de petróleo à medida que sobem os preços.

"Se tornou realmente difícil aumentar a produção", disse Paul Horsnell, um analista da Barclays Capital. "As empresas internacionais têm um portfólio de ativos em áreas de declínio significativo e nenhuma descoberta para compensá-las."

Em conseqüência dos apuros do setor, especialistas em energia não esperam que a oferta de petróleo crescerá neste ano em países fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A demanda global por petróleo deverá crescer em 800 mil barris por dia, em grande parte devido ao aumento da demanda na China e no Oriente Médio, apesar da queda no consumo em outros países.

Este desequilíbrio entre oferta e demanda será uma coisa que os ministros da Opep discutirão quando se encontrarem no próximo mês, para decidir se aumentam ou não sua produção. A Opep, como um todo, conta com cerca de 2 milhões de barris por dia de capacidade inexplorada de seus membros.

A nova ordem do petróleo vem surgindo há algumas décadas.

No final dos anos 70, as corporações ocidentais controlavam significativamente mais da metade da produção mundial de petróleo. Estas empresas -Exxon Mobil, BP, Royal Dutch Shell, Chevron, ConocoPhillips, Total da França e a Eni da Itália- atualmente produzem apenas 13%.

Hoje as 10 maiores detentoras de reservas de petróleo são empresas estatais, como a Gazprom da Rússia e a companhia nacional de petróleo do Irã.

A morosidade da oferta levou ao surgimento de uma indústria de previsões apocalípticas de que a produção de petróleo tinha atingido seu pico. Mas muitos especialistas em energia dizem que estas teorias de "pico do petróleo" são equivocadas. Eles dizem que o mundo não está ficando sem petróleo -em vez disso, as empresas que melhor sabem como produzir petróleo estão ficando sem lugar onde explorar.

"Ainda há muito petróleo para ser extraído, o motivo de não chamarmos isto de pico geológico do petróleo, especialmente em lugares como Venezuela, Rússia, Irã e Iraque", disse Arjun Murti, um analista de energia da Goldman Sachs. "O que temos agora é um pico geopolítico do petróleo."

As empresas ocidentais são muito melhores do que a maioria das companhias nacionais de petróleo, dizem os especialistas. Elas dispõem de tecnologias avançadas de exploração e podem reunir financiamento significativo para desenvolver novos campos. Mas muitos dos países exportadores desprezam a perícia delas.

Os executivos das companhias de petróleo vêem uma explicação clara: uma tendência conhecida como nacionalismo de recursos. Eles argumentam que foram afastados de regiões promissoras por uma crescente assertividade no Oriente Médio, Rússia, América do Sul e outros lugares por parte de governos determinados a manter pleno controle de seu petróleo.

Mesmo em lugares onde são autorizadas a atuar, as companhias ocidentais de petróleo enfrentam crescentes problemas. Países como Rússia, Argélia, Nigéria e Angola recentemente buscaram renegociar seus contratos com investidores estrangeiros para ficar com uma parcela maior dos lucros.

"O problema com o lado da oferta da equação é um problema de acesso aos recursos no solo, para que possam ser explorados e desenvolvidos", disse Rex W. Tillerson, presidente da Exxon, em uma recente entrevista. "Esta é uma questão política onde os governos fizeram escolhas."

Esta sensação de estarem confinadas ajuda a explicar por que as empresas ocidentais querem mais exploração em alto mar nos Estados Unidos. Elas a vêem como uma de suas poucas opções.

Estas empresas também tentaram diversificar. Elas se voltaram para o gás natural como uma fonte lucrativa de crescimento. Elas estão lidando com outras fontes de hidrocarbonetos, como reservas de águas profundas, petróleo pesado ou areia betuminosa. E algumas empresas, como a Shell e BP, estão investindo em combustíveis renováveis.

Sem dúvida, as companhias de petróleo podiam ter feito mais. Elas fracassaram em investir pesadamente na exploração e produção após o colapso do preço do petróleo em meados dos anos 80, que durou até os anos 90.

Em 1994, as cinco maiores companhias de petróleo gastaram 3% de seu fluxo de caixa operacional em recompra de ações e 15% em exploração. Em 2007, eles gastaram 34% do fluxo de caixa operacional em recompra de ações -na prática provocando alta de suas ações- e meros 6% da exploração, segundo números compilados por uma equipe liderada por Jaffe e Ronald Soligo, da Universidade Rice. Como resultado, alguns especialistas alertam que a oferta ficará aquém da demanda projetada ao longo da próxima década, talvez levando a preços bem acima dos níveis atuais.

Em uma recente conferência em Madri, Christophe de Margerie, o executivo-chefe da companhia francesa Total, disse que o mundo seria altamente pressionado a aumentar a oferta para além de 95 milhões de barris por dia em 2020. Há apenas poucos anos, os previsores esperavam 120 milhões de barris por dia em 2030, um nível que muitos analistas agora consideram não realista.

As grandes companhias aumentaram seus gastos de capital por volta de 2005, apesar de que grande parte do aumento visava compensar a alta do custo de desenvolvimento. A Exxon, por exemplo, espera gastar cerca de US$ 25 bilhões por ano nos próximos três anos para expandir seus negócios, em comparação a US$ 15 bilhões por ano de 2002 a 2006.

"É impressionante a diferença em comparação aos anos 70, onde muito dinheiro ia para a exploração, desenvolvimento e produção de novos recursos", disse Paul Stevens, um pesquisador da Chatham House, uma organização de pesquisa de políticas em Londres. "Está acontecendo um pouco agora, mas não será suficiente."

À medida que rui o poder das companhias ocidentais, o mundo poderá se tornar cada vez mais dependente de companhias controladas por governos.

Apesar de algumas estarem à altura da tarefa, como a saudita Aramco e a Petrobras do Brasil, outras, como a Sonatrach da Argélia ou a Petroleos de Venezuela, sofrem com ineficiências burocráticas e interferência política.

"Nós dependeremos das companhias de petróleo venezuelana, nigeriana ou iraniana para o futuro de nossa oferta de petróleo", disse Bruce Bullock, diretor do instituto de energia da Universidade Metodista do Sul. "Esta é uma tendência perturbadora." George El Khouri Andolfato

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