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19/08/2008

Krugman - o estupor da economia na eleição americana

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
John McCain deveria estar sendo criticado com justiça no que diz respeito à questão econômica.

Afinal, McCain defende a continuidade das políticas de um presidente que tem um histórico econômico verdadeiramente desastroso - o crescimento do emprego sob o atual governo foi o mais lento dos últimos 60 anos, sendo mais vagaroso até do que aquele registrado no governo do primeiro presidente Bush. O povo culpa a Casa Branca, e confere a Bush índices de aprovação espetacularmente baixos no que se refere ao gerenciamento da economia.

Enquanto isso, o "New York Times" anuncia que McCain ainda telefona para Phil Gramm, o ex-senador que renunciou ao cargo de vice-diretor da campanha após ter chamado os Estados Unidos de "uma nação de chorões" e afirmado que os problemas econômicos do país são nada mais do que uma "recessão mental". E Gramm ainda é tido como um forte candidato a secretário de Tesouro em um governo McCain.

Assim, McCain parece oferecer algo que está longe daquilo que o eleitor deseja. Ele é um irredutível defensor de políticas econômicas fracassadas, que pede conselhos a pessoas que estão totalmente fora de sintonia com as vidas dos trabalhadores norte-americanos.

Mas embora as pesquisas continuem demonstrando que a população, por ampla margem, confia mais nos democratas do que nos republicanos para gerenciar a economia, pesquisas de opinião mais recentes mostram que Barack Obama conta, na melhor das hipóteses, com uma pequena vantagem sobre McCain nesta área - em uma recente pesquisa realizada pela revista "Time" a sua vantagem é de quatro pontos, e, de acordo com a pesquisa automatizada da Rasmussen Reports, ele estaria um ponto atrás de McCain. E o fato de Obama ter se mostrado incapaz de obter uma vantagem decisiva em relação à política econômica é um fator fundamental para a sua incapacidade de abrir uma grande dianteira nas pesquisas de intenção de voto.

Por que a campanha de Obama não está conseguindo mais sucesso nas questões econômicas?

Não é por causa da ofensiva republicana quanto à exploração de petróleo no mar. É verdade que muitos norte-americanos foram aparentemente ludibriados por alegações falsas de que haveria uma queda de preço. Mas, conforme eu já mencionei, de forma geral os democratas contam com uma grande vantagem nas questões econômicas.

Não há também nenhuma base válida para as reclamações, exposta na edição do último domingo do "New York Times", de que Obama não está oferecendo detalhes específicos sobre a sua política econômica. Vasculhem o website da campanha de Obama e vocês encontrarão bastante detalhes a respeito das suas políticas. E as propagandas eleitorais dele trazem muitas propostas bem específicas - uma quantidade exagerada, na minha opinião.

Não. O problema não é falta de especificidades - e sim falta de paixão. Quando se trata da economia, a campanha de Obama parece estranhamente letárgica.

Eu fiquei surpreso com a monotonia do grande discurso do candidato sobre a economia, proferido em São Petersburgo no início deste mês - um discurso que foi apresentado como sendo o início de um novo foco da campanha nas questões econômicas. Obama é um grande orador, mas ele começou o discurso com uma litania de estatísticas que, provavelmente, não faziam o menor sentido para a maioria dos eleitores.

E, pior ainda, ele pareceu ter se empenhado em evitar a conquista de pontos políticos. "Nos anos noventa", declarou ele, "a renda de vocês aumentou US$ 6.000, e, no decorrer dos últimos anos, ela sofreu uma redução de quase US$ 1.000". Hum, não foi bem assim: a renda domiciliar média real não aumentou US$ 6.000 durante "os anos noventa". Ela subiu durante os anos Clinton, após ter caído durante o primeiro governo Bush. E a renda não caiu US$ 1.000 "nos últimos anos". Ela diminuiu durante o governo de George W. Bush, sendo que todo o declínio ocorreu antes de 2005.

Os aliados de Obama têm demonstrado uma inclinação semelhante para buscar os vasos capilares e não a jugular do adversário. Um recente artigo de editorial publicado no "Wall Street Journal", redigido por dois assessores de Obama, forneceu uma outra enxurrada de estatísticas, que quase apagou a questão principal: a maior parte dos norte-americanos pagaria impostos mais baixos com o plano tributário de Obama do que com o plano de McCain.

Tudo isso contrasta fortemente com a campanha do último democrata que conquistou a Casa Branca, e que não teve nenhum problema na hora de transmitir paixão ao falar da questão econômica.

No discurso em que aceitou a nomeação democrata em 1992, um ano no qual as condições econômicas lembravam as atuais, Bill Clinton denunciou o seu oponente como sendo um indivíduo "preso nas tenazes de uma teoria econômica fracassada".

Onde Obama falou misteriosamente em São Petersburgo a respeito de "alguns descuidados" que "fazem apostas com o sistema, conforme presenciamos nesta crisa imobiliária" - eu sei o que ele que dizer, mas quantos eleitores entenderam? -, Clinton declarou que "aqueles que jogam de acordo com as regras e mantêm a fé foram punidos, e os que utilizam atalhos e fazem acordos para se dar bem foram recompensados". É este o tipo de populismo contundente que até o momento está ausente na campanha de Obama.

É claro que Obama ainda não fez o seu discurso de nomeação pelo Partido Democrata. Al Gore descobriu um novo fervor populista em agosto de 2000, e disparou nas pesquisas. Uma disparada comparável por parte de Obama proporcionaria a ele uma vitória esmagadora neste ano.

Mas isso vai depender dele. Se Obama for incapaz de encontrar aquela paixão referente às questões econômicas que até o momento não surgiu na sua campanha, poderá até perder esta eleição. UOL

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