UOL Notícias Internacional
 

19/08/2008

Os nove anos de Musharraf na corda bamba

The New York Times
Jane Perlez
Em Islamabad, Paquistão
Pervez Musharraf, um homem de decisões freqüentemente impetuosas, com alma de militar, pôs fim ao apoio do Paquistão à liderança do Taleban no Afeganistão após 11 de setembro e prometeu ajudar os EUA, tornando-se um dos principais aliados de Washington na campanha contra o terrorismo.

Foi um golpe audacioso que deu força ao governo Bush em sua guerra imediata contra Al Qaeda e permitiu que os EUA trabalhassem com a inteligência paquistanesa para prender altos membros da Al Qaeda dentro do Paquistão. Musharraf também deu a Washington permissão para atacar alvos da Al Qaeda nas áreas tribais sem lei de sua nação.

Entretanto, as garantias de fato foram menores que as promessas e, apesar de Musharraf forjar um elo pessoal com o presidente Bush, o general paquistanês provou-se um sócio duro e frustrante para os EUA.

MUSHARRAF RENUNCIA À PRESIDÊNCIA DO PAQUISTÃO
Khalid Tanveer/AP
Paquistaneses pisam cartaz com foto de Musharraf durante manifestação em Multan, nesta segunda-feira (18)
RENÚNCIA ANTES DE IMPEACHMENT
NOVE ANOS NA CORDA BAMBA
ÍNDIA TEME VIOLÊNCIA NA CAXEMIRA
A agência de inteligência poderosa do Paquistão, Inter-Services, nunca cortou os laços com Taleban.

Nove anos depois, o Taleban está travando uma luta feroz contra os EUA no Afeganistão e fornecendo abrigo à Al Qaeda nas áreas tribais. O Taleban, agora rejuvenescido, virtualmente controla a região tribal do Paquistão que faz fronteira com o Afeganistão, e está avançando no resto do país, ameaçando a estabilidade da nação nuclear de 165 milhões de habitantes.

"Musharraf continuou fornecendo cobertura para o Taleban, mas ainda conseguiu convencer os americanos por muitos anos de que não fazia um jogo duplo. Foi um feito notável de equilíbrio na corda bamba", disse Ahmed Rashid, especialista paquistanês em Taleban e autor de "Descent into Chaos" (descida para o caos), um livro que detalha o relacionamento entre Musharraf e Washington.

O feito foi tão habilidoso que Musharraf conseguiu mais de US$ 10 bilhões (em torno de R$ 16 bilhões) em assistência militar para seu exército, assim como uma ajuda secreta. Metade da ajuda militar deveria ser dedicada à capacidade de combate à insurgência.

Grande parte desse dinheiro nunca alcançou os militares. Em vez disso, foi parar no orçamento geral do Paquistão. O governo Bush, contudo, estava tão ansioso em manter Musharraf como aliado que escolheu não reclamar, de acordo com uma investigação do Congresso americano neste ano.

Washington finalmente perdeu a paciência no mês passado. Em um duelo diplomático, o Pentágono e a Agência Central de Inteligência confrontaram o novo primeiro-ministro, Yousaf Raza Gilain, com evidências que o serviço de inteligência paquistanês tinha ajudado a planejar o ataque terrorista de 7 de julho contra a embaixada Indiana na capital afegã, Cabul.

Nesta altura, o poder de Musharraf já estava ofuscado, e o governo Bush admitiu que a utilidade de Musharraf tinha terminado.

Musharraf renunciou como chefe das forças armadas em novembro, entregando o cargo ao general Ashfaq Parvez Kayani, que se manteve distante do esforço de levar o presidente a um impeachment.

Depois de roubar o poder do primeiro-ministro Nawaz Sharif em outubro de 1999, Musharraf iniciou seu mandato como presidente com uma onda de apoio do público, cansado de uma década de governo civil fraco e corrupto.

No início, ele atraiu pessoas competentes para seu gabinete e prometeu atacar problemas antigos, inclusive a disseminação de "madrassas", escolas religiosas que se tornaram um meio de cultura para extremistas islâmicos.

Entretanto, as madrassas permanecerem intocadas, principalmente porque Musharraf entregou a tarefa ao Ministério de Assuntos Religiosos, que se opunha ao plano, de acordo com Jehangir Tareen, ex-ministro da indústria e projetos especiais de Musharraf.

Musharraf defendeu algumas reformas importantes em relação à imprensa e aos direitos da mulher, de acordo com seus defensores e críticos. Atualmente, existem dezenas de canais de televisão privados, muitos deles com turbulentos programas de auditório políticos. Ele também procurou melhorar a situação das mulheres promovendo uma emenda às leis islâmicas rígidas.

"Musharraf tentou construir um Estado iluminado moderno", disse Tareen. "Contudo, ele provou que não se pode fazer isso com uma máquina política corrupta e orientada pela polícia".

Uma de suas maiores falhas, disse Tareen, foi seu desdém pelos métodos democráticos e pelos políticos civis.

Em 2002, Musharraf ordenou que se fizesse um referendo, uma votação sobre sua legitimidade como presidente. Nenhum candidato da oposição teve permissão de concorrer, e foram proibidos comícios de partidos políticos da oposição.

Seis meses depois, após as eleições parlamentares, Musharraf formulou um apoio político para o clã Chaudhry, um grupo poderoso de políticos da província Punjab, considerado anti-reforma. Eles criaram um partido político, a Liga Q Paquistanesa Muçulmana, como veículo para Musharraf. Quando os partidos religiosos conservadores venceram essas eleições parlamentares na província da Fronteira Noroeste, Musharraf também quis seu apoio.

Em março de 2007, enfrentando eleições dali a alguns meses, Musharraf demitiu o advogado geral da União, Iftikhar Muhammad Chaudhry, aparentemente por medo que o judiciário pudesse minar sua reeleição.

Uma onda de apoio a Chaudhry por parte de advogados do país tornou-se uma campanha vibrante contra Musharraf.

Em novembro, Musharraf declarou estado de emergência e demitiu 60 juízes. Quando finalmente sustou o decreto, em dezembro, já era considerado um ditador impopular, e seus principais opositores políticos, Benazir Bhutto e Nawaz Sharif, tinham voltado ao Paquistão para concorrer nas eleições.

Bhutto foi assassinada no final de dezembro, adiando as eleições marcadas para o início de janeiro. Entretanto, o viúvo de Bhutto, Asif Ali Zardari, pegou as rédeas do Partido do Povo Paquistanês, e os dois partidos de oposição chegaram ao poder nas eleições de fevereiro. Eles formaram uma coalizão desconfortável que deixou o partido político de Musharraf sem apoio.

No final, seu fracasso em seu jogo duplo mantendo os americanos de seu lado enquanto ainda permitia que extremistas religiosos prosperassem talvez tenha levado a sua queda e deixado Paquistão em uma posição mais precária, disse Rashid.

No ano passado, houve 56 ataques suicidas no Paquistão, muitos deles executados pelo Taleban, escondido nas áreas tribais. O Taleban está saindo das áreas tribais para as regiões mais estabelecidas, gerando ansiedade em um exército não acostumado a lutar contra a insurgência.

"O Taleban não é apenas um problema externo para Paquistão, agora se tornou um problema interno", disse Rashid. Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host