UOL Notícias Internacional
 

19/08/2008

Presidente do Paquistão renuncia diante do processo de impeachment

The New York Times
Jane Perlez*

Em Islamabad, Paquistão
Sob pressão diante de um processo de impeachment, o presidente Pervez Musharraf anunciou na segunda-feira que renunciaria, colocando um fim a quase nove anos como um dos aliados mais importantes dos Estados Unidos na campanha contra o terrorismo.

Falando na televisão de seu gabinete presidencial às 13 horas daqui, Musharraf, vestindo um terno cinza e gravata, disse que após consultar seus assessores, "eu decidi renunciar hoje". Ele disse que estava colocando o interesse nacional acima de "bravatas pessoais".

"Independente de vencer ou perder no processo de impeachment, o país perderá", ele disse, acrescentando que não estava preparado para submeter a presidência a um processo de impeachment.

MUSHARRAF RENUNCIA À PRESIDÊNCIA DO PAQUISTÃO
Khalid Tanveer/AP
Paquistaneses pisam cartaz com foto de Musharraf durante manifestação em Multan, nesta segunda-feira (18)
RENÚNCIA ANTES DE IMPEACHMENT
NOVE ANOS NA CORDA BAMBA
ÍNDIA TEME VIOLÊNCIA NA CAXEMIRA
Musharraf disse que a coalizão de governo, que está buscando o impeachment, está tentando "transformar mentiras em verdades".

"Eles não percebem que podem ter sucesso contra mim, mas que o país sofrerá danos irreparáveis."

Em um encerramento emocionado para um discurso que durou mais de uma hora, Musharraf ergueu seus punhos cerrados na altura do peito e disse: "Vida Longa ao Paquistão!"

Sua renúncia ocorreu após 10 dias de manobras políticas intensas no Paquistão e abriram o caminho para que a coalizão de governo de quatro meses escolha um novo presidente, por votação no Parlamento e nas assembléias provinciais. Mas há intensa preocupação em Washington de que a partida de Musharraf possa dar início a uma nova era de instabilidade em um país com armas nucleares e 165 milhões de habitantes, à medida que a frágil coalizão começar a disputar sua parcela do poder.

Musharraf, 65 anos, permanecerá no Paquistão no futuro imediato, algo em que ele insistiu, segundo Nasir Ali Khan, um membro importante da Liga Muçulmana-N do Paquistão, partido que participa da coalizão. A coalizão, liderada por Asif Ali Zardari, o líder do Partido do Povo do Paquistão, e Nawaz Sharif, o presidente da Liga Muçulmana-N, iriam se reunir aqui na capital na tarde de segunda-feira para discutir como proceder, disse Khan.

Há poucas indicações de quem poderá ser o próximo presidente. Segundo a Constituição, um novo presidente deve ser escolhido em 30 dias. Funcionários americanos disseram que Zardari, o viúvo de Benazir Bhutto, a ex-primeira-ministra que foi assassinada em dezembro, gostaria do cargo. Mas Sharif, que têm um relacionamento difícil com Zardari, é fortemente contrário à indicação dele.

Musharraf estava sob forte pressão nos últimos dias, à medida que a coalizão dizia ter concluído a elaboração das acusações para impetrar no Parlamento o processo do seu impeachment. As acusações se concentravam em "grandes violações" da Constituição, segundo a ministra da Informação, Sherry Rehman.

A retórica da coalizão ganhou força no fim de semana, mas os principais políticos não determinaram a data exata para apresentar as acusações, deixando assim uma janela para a saída de Musharraf.

Em seu discurso, Musharraf atacou a coalizão pelo que chamou de suas políticas econômicas fracassadas. Ele disse que ela é responsável pela situação econômica crítica do Paquistão -uma desvalorização da moeda, fuga de capital e alta da inflação. Em comparação, ele disse, suas políticas promoveram a prosperidade após um quase colapso econômico, quando ele assumiu o poder em 1999.

Ele então apresentou uma lista de suas realizações, que variavam da ampliação da malha rodoviária a uma galeria nacional de arte na capital. Apesar do índice de alfabetização no Paquistão pairar em torno de 50% e ser bem mais baixo entre as mulheres, ele assumiu o crédito por novas escolas.

O Exército, a instituição mais poderosa no Paquistão, permaneceu publicamente de fora da disputa nos últimos 10 dias. Mas ao permanecer neutro e se recusando em sair em defesa de Musharraf, o novo líder do Exército, o general Ashfaq Parvaz Kayani, fez a balança pender contra o presidente, disseram os políticos.

Musharraf tomou o poder em um golpe sem derramamento de sangue em outubro de 1999, que derrubou o primeiro-ministro Nawaz Sharif, o homem que escolheu Musharraf como chefe do Exército. Por oito anos, ele governou como chefe do Exército e presidente, posições que lhe deram um poder quase irrestrito e permitiram que o governo Bush contasse com Musharraf na campanha contra o terrorismo.

Lou Fintor, o porta-voz da embaixada americana em Islamabad, se recusou a comentar sobre o anúncio da renúncia.

Do outro lado da fronteira, no Afeganistão, autoridades do governo expressaram satisfação com a saída de Musharraf. O relacionamento entre os países vizinhos há muito é tenso, com as autoridades afegãs atribuindo a crescente violência em seu país ao fracasso do Paquistão em combater os militantes na região de fronteira.

Um porta-voz do Ministério do Interior afegão, Zemeri Bashary, disse na segunda-feira que Musharraf era aliado dos Estados Unidos "apenas da boca para fora, não em ações" e argumentou que o governo dele não foi bom para o Afeganistão, informou a agência de notícias "The Associated Press". Além disso, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Sultan Ahmed Baheen, disse que o Afeganistão espera que a renúncia fortaleça a democracia em ambos os países, disse a "AP".

À medida que Musharraf perdia a popularidade no ano passado, Washington tentou forjar um relacionamento de divisão de poder entre ele e Bhutto, que estava no exílio desde o final dos anos 90 e que retornou ao Paquistão no ano passado. Ela foi assassinada em 27 de dezembro.

O governo de Musharraf acusou o líder do Taleban, Baitullah Mehsud, do seu assassinato. Àquela altura Sharif também retornou do exílio para concorrer nas eleições. O Partido do Povo do Paquistão de Bhutto, sob a condução do marido dela, Zardari, e a Liga Muçulmana-N, sob Sharif, venceram por grande margem as eleições em fevereiro.

Musharraf deixa o cargo em um momento em que a insurreição do Taleban nas áreas tribais ganhou novo vigor na semana passada, levando os civis a deixarem seus lares lá e colocando o paramilitar Corpo de Fronteira, dirigido pelo Exército, diretamente contra os insurgentes.

* Salman Masood, em Islamabad, Paquistão, e Tom Rachman, em Paris, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host