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21/08/2008

Corpos incomuns valem medalha de ouro em Pequim

The New York Times
Gina Kolata
Em Pequim
Usain Bolt é alto demais para ser um velocista mundial. Mike Friedman é pesado demais para ser um ciclista de elite. Stefan Holm é baixo demais para ser campeão de salto em altura. E Erin Donohue é baixa e troncuda demais para ser uma estrela das corridas. Ainda assim, todos eles são atletas olímpicos e anômalos, que vão contra a sabedoria convencional e, de alguma forma, elevam-se às mesmas arenas que Michael Phelps, He Kexin e Dara Torres.

Friedman, com 1,75 m e 77 kg, sabe que não se parece como a maior parte de seus colegas magros. "Tenho um corpo estranho, isso é certo", disse Friedman em uma entrevista dias antes de competir na terça-feira pela equipe de ciclismo americana. Entretanto, ele acrescentou: "Posso pedalar bastante bem para um garoto gordo."

Se tais atletas de formatos incomuns podem ter sucesso nesse nível de elite, os pesquisadores de exercícios se perguntam o que isso diz sobre as qualidades físicas necessárias para ser campeão olímpico?

Chang W. Lee/The New York Times 
Jamaicano Usain Bolt comemora ao vencer a final dos 200 m rasos nos Jogos Olímpicos

Não existe uma resposta: esses atletas anômalos têm formas de compensar o que os outros talvez considerem as desvantagens de suas dimensões. Ainda assim, seus sucessos também são desafios para as expectativas da ciência do exercício. Há explicações lógicas, mas são limitadas. A resposta completa "é uma espécie de mistério", disse Edward F. Coyle, fisiologista do exercício e diretor do Laboratório de Desempenho Humano da Universidade do Texas.

Esportes diferentes exigem corpos diferentes. Em um extremo, estão eventos como o lançamento de martelo. Seus atletas são enormes - altos, poderosos e musculosos como o vencedor do ouro Primoz Kozmus da Eslovênia, que tem 1,87m e 122 kg.

No outro extremo, estão os corredores de longa distância. Geralmente são magros, com pernas de graveto e nenhum músculo evidente em seu torso superior, como Kenenisa Bekele da Etiópia. Bekele tem 1,64m e 56 kg e no domingo foi novamente campeão olímpico da competição de 10.000 m masculino.

"Dentro de um esporte, os atletas temem ser mais parecidos do que diferentes", disse Robert Malina, professor emérito de cinesiologia e de educação da saúde do Texas.

Ah, é claro, os que não se encaixa num protótipo, mesmo nível olímpico. Bolt, o corredor da Jamaica, diminuiu seu recorde mundial nos 100 m no sábado, passando tranquilamente pelos seus competidores mais baixos e mais musculosos.

Holm, o sueco dos saltos, tem apenas 1,80m, "um anão" para um esporte em que a média é de 1m93, disse Francis Holway, pesquisadores de exercícios nutrição em Buenos Aires. Ainda assim, Holm estava defendendo sua medalha de ouro quando competiu na terça-feira à noite, terminando em quarto, depois de saltar 2,31m.

Donohue, dos EUA na quinta-feira os 2.500 m, tem 1m75 e 65 kg - mais pesado que todos os três homens da equipe olímpica americana e em seu revela.

Holway, que trabalha para o time de futebol River Plate, analisou a variedade nos eventos em pistas do campeonato de 2005 em Helsinque, Finlândia. Em geral, disse ele, os atletas em cada evento tendiam a ter altura e peso similares. Ele disse que a maior variabilidade estava entre lançadores mulheres, talvez porque não é socialmente aceitável para as mulheres adotarem o lançamento de martelo ou dardo. Com menos atletas competindo, aquelas que têm corpos diferentes do ideal têm maior chance.

Tal seleção competitiva para atletas de elite começa logo cedo, disse Malina. Os meninos que amadurecem cedo têm vantagem natural, é certo para corredores de distância, que tendem a amadurecer tarde. Malina observou que o amadurecimento cedo era comumente associado à força muscular, à velocidade e à energia.

As meninas que amadurecem tarde têm uma vantagem porque elas tendem a ter corpos mais longilíneos, disse Malina; elas tendem a ser mais magras, com pernas mais longas e quadris mais estreitos. Esses traços são uma vantagem na maior parte dos esportes femininos.

Entretanto, "você tem que lembrar que cada evento é composto de partes diferentes", disse Coyle. Uma pessoa com desvantagem física em um aspecto de um evento talvez possa se superar em outro.

O ponto fraco de Bolt é o início da competição; ele disse que ele e seu treinador sempre trabalharam nesse ponto. Ele não tem as pernas curtas e musculosas que permitem que os corredores partam rápido e com forte aceleração. Entretanto, ele leva vantagem mais tarde na disputa, porque suas pernas mais compridas permitem que mantenha alta velocidade por um período mais longo.

"Se você consegue superar o seu início lento, é melhor ser alto", disse Coyle.

Bengt Saltin, professor de fisiologia humana da Universidade de Copenhague, disse que Bolt era tão rápido que suspeitava que tivesse uma vantagem fisiológica escondida. A forma que seu músculo da perna se insere no osso talvez dê a ele o que Saltin chamou de maior alavanca, que pode dar a Bolt força explosiva e inesperada.

"Frações de milímetros nessa alavanca fazem diferença", disse. Saltin.

Holm, do salto em altura, disse que, desde os 15 anos as pessoas viviam dizendo que ele era baixo demais para o esporte. Entretanto, ele adorava saltar. "Era o único esporte no qual eu era realmente bom", disse ele.

E ele é teimoso. "Se alguém me diz: 'você não pode fazer isso', tenho que provar que a pessoa está errada", disse ele.

Ser baixo, disse Holm, permite que ele corra mais rápido na direção da trave. Ele consegue saltar acima dela arqueando seu corpo mais do que seus competidores mais altos, disse ele.

Holway observou outro atributo em Holm. Ele disse que Holm era menos esbelto que os outros saltadores, mas que os músculos mais poderosos em seus membros inferiores ajudavam-no a pular mais alto. O saltador ideal deve se parecer com Holm, mas ser mais alto, acrescentou Howlay. O detentor do recorde mundial de salto em altura, Javier Sotomayor, de Cuba, tem essa combinação de traços, disse Holway.

Donohue, a corredora de 1.500 m, talvez seja mais intrigante para os pesquisadores. "Ela corre como uma pessoa grande - pesadamente", disse Coyle. "Ela tem menos molejo em seus passos; é um pouco lenta na reação. Parece que ela corre com força pura."

Para compreender como ela corre, seria preciso testá-la em um laboratório de fisiologia, disse Coyle. Ele suspeita que ela seja extraordinariamente econômica quando corre.

Donohue tem sua própria teoria. Ela diz que sabe que é grande para ser corredora, algo que fica evidente quando está ao lado de alguém como sua colega de equipe Shalane Flanagan, que venceu o bronze nos 10.000 m na sexta-feira.

"Meus ombros são o dobro de Shalane", disse Donohue, que tem 1m64 e 47kg. "Não há jeito de eu ter isso."

No entanto, nos 1.500 m, a velocidade e a força são importantes, e ela pode usar a força extra que vem com seu peso para se empurrar pela corrida. Ela corre desde muito jovem, disse ela, que desenvolveu grande resistência. Em geral, Donohue corre entre 130 e 145 km por semana e nunca teve uma lesão séria.

A vitória nos 1.500, em geral, se resume a qual o corredor pode puxar mais no final. "Eu tenho a resistência para chegar até esse ponto", disse Donohue, "especialmente contra meninas menores que talvez não tenham tanta força".

Friedman, o ciclista, compete nas pistas, nas quais um corpo maior e músculos mais largos podem ajudar. Entretanto, ciclistas mais magros têm a vantagem de serem mais aerodinâmicos; seus corpos oferecem menos resistência ao ar.

Na competição de Madison na terça-feira no velódromo em Laoshan, Friedman e seu colega Bobby Lea, 1m87 e 77 kg, chegaram em 16º.

Friedman disse que conseguiu entender como compensava por seu tamanho em 2006, quando viu fotografias dele mesmo competindo. Foi assim que compreendeu tantos comentários sobre seu estilo estranho.

"Eu me contraio como uma bolinha na ponta do selim", disse ele. Seus braços curtos permitem que pedale dessa forma. "Eu fico realmente compacto", disse ele, observando que era por isso que seu apelido era "meatball", ou almôndega.

No entanto, o que funciona nas pistas não ajuda nas disputas nas estradas, nas quais ser mais pesado pode deixar o competidor muito lento em morros e montanhas. E Friedman, que também compete nas estradas, diz que sabe que tem que perder algum peso, algo que sempre foi difícil para ele. Entretanto, ele tem um plano para mudar seu corpo para a temporada de disputas nas estradas.

"Eu vou para o Colorado e vou pedalar 160 a 180 km por dia nas montanhas", disse ele acrescentando que faria isso todos os dias por duas semanas. Seu objetivo, disse ele, é perder 7 kg. "Dá para mudar muito em duas semanas", disse Friedman. Deborah Weinberg

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