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21/08/2008

Feira de feitiçaria mostra cultura de povo indígena na Bolívia

The New York Times
Simon Romero
Em El Alto, na Bolívia
Agachado perto de um estande de mercado que vende mais de uma dúzia de fetos de lhama, de um outro que vende caudas de porco-espinho e de uma barraca especializada em singani caseiro (a bebida alcoólica boliviana destilada extremamente forte, feita de uva moscatel), Ponciano Janco moveu-se para chegar um pouco mais perto do cliente.

"Tenho algo para você", disse Janco, 45, mergulhando as mãos em um saco de estopa e retirando dele um tatu vivo do tamanho de uma bola de rúgbi. Tanto o tatu quanto o potencial cliente de Janco sentiram um calafrio, como se uma rajada de vento gelado tivesse varrido o mercado desta cidade de favelas, que fica a cerca de 4.100 metros de altitude.

Por apenas 50 bolivianos, o equivalente a cerca de US$ 7, Janco disse ser capaz de realizar um ritual com o tatu que faria com o que o seu cliente ficasse mais bem preparado para as vicissitudes da vida nos anos vindouros. "É um preço insignificante a ser pago pela boa sorte", acrescentou ele.

Noah Friedman-Rudovsky/The New York Times 
Pele e fetos de lhama são expostos para venda em feira em El Alto, na Bolívia

Com os agricultores esperando colheitas saudáveis e a população urbana procurando bênçãos neste que é um dos países mais pobres da América do Sul, nenhum mês supera agosto para os yatiris, os especialistas na adivinhação da sorte, que vendem os seus serviços ao longo da Avenida Panoramica, em El Alto.

Em um período de transição do inverno para a primavera no calendário agrícola regional, agosto é o mês no qual as divindades da terra e das montanhas estariam particularmente famintas, segundo os especialistas que estudam a cultura dos aymaras, o grupo indígena que representa a maioria da população de cerca de 800 mil habitantes de El Alto.

A alimentação da Pachamama, a quem os Aymaras chamam também de Mãe Terra ou Mãe Virgem, envolve uma rede intrincada de gestos simbólicos com o uso de folhas de coca, espíritos clandestinos e animais mortos, especialmente na forma de fetos quando se trata de lhamas, porcos, gatos e cães.

"Embora a época das oferendas esteja vinculada a um tradicional calendário rural agrícola, é importante lembrar que esse tipo de oferta pode, de fato, referir-se a preocupações rurais e urbanas bem contemporâneas", explica Andrew Orta, antropólogo da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, e especialista nos altiplanos bolivianos.

O mercado revela não só os yatiris e os gritos estridentes dos vendedores, mas também uma próspera cultura urbana. Perto de um estande que vende peles de raposas e leões da montanha e um outro especializado em fetos de porco, Miguel Miranda reproduz no aparelho de som o rap dos Rimadores Locos, uma banda de El Alto especializada em uma música cantada em uma linguagem híbrida composta de termos aymaras e espanhóis.

"Agosto é também o meu melhor mês para a venda de CDs", diz Miranda, 25, em frente a sua barraca de música. "A pessoa passa por aqui procurando um feto de lhama, ou talvez uma pele de gambá, mas caso ela seja jovem poderá também querer um pouco de música".

Assim que os ingredientes necessários são vendidos pelos comerciantes no mercado de feitiçaria, os yatiris os reúnem naquilo que chamam de uma misa. A palavra é pronunciada da mesma maneira que o termo missa, referente à cerimônia religiosa católica, mas os linguistas dizem que isto pode ser também uma aymarização de mesa, uma outra palavra espanhola.

Após ajeitarem os fetos e outros objetos em uma bandeja, os yatiris a colocam sobre uma superfície forrada de carvão para queimá-la. Ao longo da Avenida Panoramica, e em um labirinto de ruelas, a fumaça das oferendas mistura-se ao odor das valas de esgoto que correm a céu aberto. Os yatiris jogam álcool puro ou cerveja nas pequenas piras, fazendo com que as chamas saltem no ar frio ou diminuam de intensidade.

Depois que os objetos são consumidos pelo fogo, os yatiris geralmente enterram o que restou, alimentando, desta forma, a terra no momento em que a primavera - ou aquilo que corresponde à primavera nesses altiplanos gelados - se aproxima.

Em um reflexo da fusão de costumes rurais e urbanos, os clientes destas oferendas alimentam diversas esperanças, como safras abundantes, sucesso nos estudos, um ano sem acidentes para os motoristas de caminhão ou muitas vendas para as fábricas industriais ou manufaturas de tecidos que recentemente se instalaram aqui.

Um cartaz na porta do pequeno barraco de Jorge Sharon, um yatiri, resume estas esperanças: "Para amor, viagem, casamento, saúde, problemas legais, recuperação de objetos perdidos, inspeções da alfândega, provas na escola".

As receitas para a boa sorte são igualmente variadas. Um feto de veado, por exemplo, traz sorte para os mineradores de estanho que se adentram pelas montanhas. Para um triângulo amoroso, os yatiris recomendam os fetos de um cão e de um gato. A idéia é que um romance ilícito pode ser desfeito caso os amantes briguem como gatos e cachorros.

E há também as receitas para as preocupações financeiras, grandes ou pequenas.

"Os caras ricos de La Paz dirigem até aqui para obter fetos de vicunha", diz Nina Quispe, uma vendedora de 28 anos, referindo-se a um animal ameaçado de extinção, que geralmente não pode ser vendido no relativamente limpo mercado de feitiçaria da capital, La Paz. Segundo ela, o feto de vicunha é o produto mais caro do mercado, custando 800 bolivianos, o equivalente a cerca de US$ 117.

Funcionando como uma espécie de cidade gêmea de La Paz, cidade situada em uma altitude menor, El Alto foi criada por veteranos da sangrenta Guerra do Chaco, na década de 1930, sendo mais tarde ocupada por mineiros que perderam os seus empregos após as demissões nas companhias estatais na década de 1980.

A seguir vieram os migrantes dos altiplanos, que expandiram a rede de habitações de blocos de concreto e de estuque. O ativismo político passou a fazer parte da identidade de El Alto.

"Bloqueando estradas e impedindo o acesso ao aeroporto internacional próximo, por simples razões geográficas, os manifestantes de El Alto foram capazes de sitiar La Paz", diz Sian Lazar, autor de "El Alto, Cidade Rebelde", um novo livro sobre o crescente poder político da cidade.

Evo Morales, um ex-pastor de lhamas que ascendeu à presidência graças em parte ao apoio dos manifestantes de El Alto, às vezes aparece em eventos políticos acompanhado de yatiris. Fotos de Morales, o primeiro presidente boliviano a identificar-se explicitamente com as suas raízes indígenas, podiam ser vistas ao longo da Avenida Panoramica em um sábado recente.

Mas até mesmo a vibrante politica boliviana parecia estar eclipsada por outras preocupações das pessoas que faziam compras nos estandes do mercado. "Estou procurando algo que ajude um amigo em uma viagem de emigração", disse Fernando Sinani, 34. "O que é necessário para ajudar alguém que está prestes a atravessar o oceano?" UOL

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