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21/08/2008

Friedman -Putin merece medalha de ouro por estupidez brutal

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Se o conflito na Geórgia fosse um evento olímpico, a medalha de ouro por estupidez brutal iria para o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin. A medalha de prata por inconseqüência tacanha iria para o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, e a medalha de bronze por falta de visão iria para as equipes de política exterior de Clinton e Bush.

Vamos começar por nós. Depois do colapso da União Soviética, eu estava no grupo - liderado por George Kennan, o pai da teoria de "contenção", pelo senador Sam Nunn e pelo especialista em política internacional Michael Mandelbaum - que argumentava contra a expansão da Otan, na época.

Parecia-nos que uma vez tendo derrubado o comunismo soviético e visto o nascimento da democracia na Rússia, a coisa mais importante a fazer era ajudar a democracia russa a se enraizar e integrar a Rússia à Europa. Não foi por isso que fizemos a Guerra Fria - para dar aos jovens russos as mesmas chances de liberdade e integração com o ocidente que tinham os tchecos, georgianos e poloneses? Não era mais importante consolidar a democracia na Rússia do que trazer a Marinha tcheca para a Otan?

Tudo isso era verdade especialmente porque, argumentávamos, não havia nenhum problema no cenário mundial com o qual podíamos lidar efetivamente sem a Rússia - particularmente no Irã ou Iraque. A Rússia não estava prestes a invadir a Europa de novo. E os europeus do leste seriam integrados ao oeste através da filiação à União Européia.

Mas não, disse a equipe de política exterior de Clinton, nós vamos forçar a expansão da Otan garganta abaixo dos russos, porque Moscou está enfraquecida e, a propósito, eles vão se acostumar com isso.
Mensagem para os russos: esperamos que vocês se comportem como democratas ocidentais, mas vamos tratá-los como se vocês ainda estivessem na União Soviética. A Guerra Fria acabou para vocês, mas não para nós.

"As equipes de política exterior de Clinton e Bush agiram com base em duas falsas premissas", disse Mandelbaum. "Uma era a de que a Rússia tem uma agressividade inata e que o fim da Guerra Fria não seria capaz de mudar isso, então deveríamos expandir nossa aliança militar até as fronteiras do país. Apesar de todo o discurso nonsense sobre usar a Otan para promover a democracia, a crença na eterna agressividade russa é a única base sobre a qual a expansão da Otan fazia sentido - especialmente levando em consideração que dissemos aos russos que eles não poderiam se juntar à organização. A outra premissa era a de que a Rússia sempre seria muito fraca para colocar em perigo qualquer um dos novos membros da Otan, então nunca teríamos de montar tropas para defendê-los. Isso não nos custaria nada. Eles estavam errados em ambas as crenças."

A humilhação que a expansão da Otan criou na Rússia foi essencial para alimentar o crescimento de Putin depois que Boris Yeltsin saiu. E o vício americano por petróleo ajudou a empurrar os preços da energia a um nível que deu a Putin o poder de agir sobre essa humilhação. Esse pano de fundo é crucial.

Entretanto, devemos apoiar todos os esforços diplomáticos para fazer recuar a invasão russa na Geórgia. A Geórgia é uma democracia emergente de mercado livre, e não podemos simplesmente assistir seu esmagamento. Mas tampouco podemos deixar de notar que a decisão de Saakashvili de colocar suas tropas em Tskhinvali, no coração do enclave semi-autônomo e pró-Rússia da Ossétia do Sul, deu a Putin uma desculpa fácil para exercitar seu pulso de ferro.

Como notou Michael Dobbs, que observa a Rússia há muito tempo para o jornal The Washington Post, "na noite de 7 de agosto (...), Saakashvili ordenou uma barreira de artilharia contra Tskhinvali e enviou uma coluna armada para ocupar a cidade. Ele aparentemente esperava que o apoio do Ocidente protegesse a Geórgia de uma grande retaliação russa, mesmo apesar de que os 'pacificadores' russos tivessem sido quase que com certeza mortos ou feridos no ataque da Geórgia. Foi um enorme erro de cálculo."

E como a revista The Economist também escreveu, "Saakashvili é um nacionalista impetuoso." Seu ataque à Ossétia do Sul "foi impensado e possivelmente criminoso. Mas diferentemente de Putin, ele liderou seu país na direção de uma democracia ampla, combateu a corrupção e governou durante um crescimento econômico rápido que não se sustentou, como a Rússia, com os altos preços do petróleo e do gás."

É por isso que a medalha de ouro por brutalidade vai para Putin. Sim, a expansão da Otan foi tola. Putin explorou-a para sufocar a democracia russa. Mas agora, a conquista de poder do petróleo subiu à sua cabeça - seja invadindo a Geórgia, intimidando agentes financeiros e companhias de petróleo ocidentais que trabalham na Rússia, ou usando os suprimentos de gás da Rússia para intimidar seus vizinhos.

Se isso persistir, esse comportamento irá pressionar os países vizinhos da Rússia a buscar a proteção de Moscou e levará os europeus a redobrarem seus esforços para encontrar alternativas ao petróleo e gás russos. Isso não acontecerá da noite para o dia, mas com o tempo isso irá ampliar as defesas russas e tornará o país cada vez mais isolado, mais inseguro e menos próspero.

Por todas essas razões, seria sábio por parte da Rússia reconsiderar a manobra de Putin na Geórgia. Se ela fizer isso, seria inteligente de nossa parte reconsiderar para onde nossa política Otan/Rússia está nos levando - e se realmente queremos passar o século 21 contendo a Rússia da mesma forma que passamos o século 20 contendo a União Soviética. Eloise De Vylder

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