UOL Notícias Internacional
 

21/08/2008

Mikhail Gorbachov - a Rússia nunca quis uma guerra

The New York Times
Mikhail Gorbachov*
A fase aguda da crise provocada pelo ataque das forças georgianas contra Tskhinvali, a capital da Ossétia do Sul, agora está para trás. Mas como se pode apagar da memória as cenas horríveis do ataque noturno com foguetes contra uma cidade pacífica, a demolição de quarteirões inteiros da cidade, as mortes de pessoas se abrigando em porões, a destruição de monumentos antigos e sepulturas ancestrais?

A Rússia não queria esta crise. A liderança russa está domesticamente em uma posição forte o suficiente; ela não precisava de uma pequena guerra vitoriosa. A Rússia foi arrastada para a briga pela imprudência do presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili. Ele não ousaria atacar sem apoio externo. Assim que o fez, inação não era uma opção para a Rússia.

A decisão do presidente russo, Dmitri Medvedev, de agora cessar as hostilidades foi a decisão certa por parte de um líder responsável. O presidente russo agiu com calma, confiança e firmeza. Qualquer um que esperava confusão em Moscou ficou desapontado.

Os planejadores desta campanha claramente queriam assegurar que, independente de qual fosse o resultado, a Rússia seria culpada pelo agravamento da situação. O Ocidente então montou um ataque de propaganda, liderado pela imprensa americana.

A cobertura da imprensa está longe de ser justa e equilibrada, especialmente durante os primeiros dias da crise. Tskhinvali estava em ruínas fumegantes e milhares de pessoas estavam fugindo antes da chegada de qualquer soldado russo. Mas a Rússia já era acusada de agressão; as notícias freqüentemente eram uma recitação embaraçosa das declarações enganadoras do líder georgiano.

Não está claro se o Ocidente estava ciente dos planos de Saakashvili de invadir a Ossétia do Sul, e isto é algo sério. O que está claro é que a assistência do Ocidente no treinamento das tropas georgianas e o envio de grandes estoques de armas estavam empurrando a região para a guerra, não para a paz.

Se esta aventura militar malsucedida foi uma surpresa para os benfeitores estrangeiros do líder georgiano, então pior. Parece um caso clássico de manipulação.

Saakashvili vinha sendo coberto de elogios por ser um ferrenho aliado americano e um verdadeiro democrata -e por ajudar no Iraque. Agora o amigo dos Estados Unidos promoveu o caos, e todos nós -os europeus e, mais importante, os civis inocentes da região- temos que recolher os cacos.

Aqueles que se apressam em julgar o que está acontecendo no Cáucaso, ou aqueles que buscam influenciar a região, devem primeiro ter alguma idéia sobre suas complexidades. Os ossetianos vivem tanto na Geórgia quanto na Rússia. A região é uma colcha de retalhos de grupos étnicos vivendo em grande proximidade. Portanto, toda a conversa sobre "esta é nossa terra", "nós estamos libertando nossa terra", não tem sentido. Nós temos que pensar nas pessoas que vivem nas terras.

Os problemas da região do Cáucaso não podem ser resolvidas à força. Isto já foi tentado mais de uma vez nas últimas duas décadas e sempre voltou como bumerangue.

O que é necessário é um acordo legal que obrigue o não uso da força. Saakashvili se recusou repetidamente a assinar um acordo destes, por motivos que agora ficaram abundantemente claros.

O Ocidente seria sábio em ajudar na obtenção deste acordo. Se, em vez disso, ele optar por culpar a Rússia e rearmar a Geórgia, como estão sugerindo as autoridades americanas, uma nova crise será inevitável. Neste caso, é possível esperar o pior.

Nos últimos dias, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e o presidente Bush estão prometendo isolar a Rússia. Alguns políticos americanos ameaçaram expulsá-la do Grupo dos 8 maiores países industrializados, abolir o Conselho Otan-Rússia e manter a Rússia de fora da Organização Mundial do Comércio.

São ameaças vazias. Há algum tempo, os russos se perguntam: se nossa opinião não vale nada para estas instituições, nós realmente precisamos delas? Apenas para nos sentarmos à mesa de jantar bem arrumada e escutar sermões?

De fato, há muito é dito à Rússia para que simplesmente aceite os fatos. Aqui está a independência de Kosovo para vocês. Aqui está a anulação do Tratado de Mísseis Antibalísticos e a decisão americana de instalar defesas antimísseis nos países vizinhos. Aqui está a expansão sem fim da Otan. Todas estas ações foram realizadas tendo como fundo a conversa doce de parceria. Por que alguém armaria tamanha charada?

Há muita conversa atualmente nos Estados Unidos sobre repensar as relações com a Rússia. Uma coisa que definitivamente deve ser repensada: o hábito de falar com a Rússia de forma condescendente, sem respeito por suas posições e interesses.

Nossos dois países podem desenvolver uma agenda séria de cooperação genuína, em vez de simbólica. Muitos americanos, assim como russos, entendem a necessidade disto. Mas será que os líderes políticos entendem?

Uma comissão bipartidária liderada pelo senador Chuck Hagel e pelo ex-senador Gary Hart foi formada recentemente em Harvard para elaborar um relatório sobre as relações russo-americanas para o Congresso e para o próximo presidente. Ela inclui pessoas sérias e, a julgar pelas primeiras declarações da comissão, seus membros entendem a importância da Rússia e a importância de relações bilaterais construtivas.

Mas os membros dessa comissão devem ser cuidadosos. Seu mandato é apresentar "recomendações de políticas para um novo governo para promover os interesses nacionais da América nas relações com a Rússia". Se apenas esta for a meta, então eu duvido que algo de bom virá dela. Mas se a comissão estiver pronta a também considerar os interesses do outro lado e os interesses comuns de segurança, ela poderá realmente ajudar a reconstruir a confiança entre a Rússia e os Estados Unidos, permitindo que comecem a trabalhar juntos de forma útil.

* Mikhail Gorbachov é o ex-presidente da União Soviética. Este artigo foi traduzido do russo para o inglês por Pavel Palazhchenko. George El Khouri Andolfato

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