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21/08/2008

Tornando a política salarial de uma empresa mais transparente

The New York Times
Lisa Belkin
CKoren Shadmi/The New York Times 

No topo da lista das tarefas que eu menos aprecio estão a compra de um automóvel e as negociações salariais. Ambas me deixam com a impressão de que estou sendo enganada. A pior das duas costumava ser a compra de um carro. "Se eles demonstrarem o desejo de vender, isto significa que você está pagando mais do que o valor do veículo", dizia sempre o meu pai. Mas, nos últimos anos, com o Edmunds.com e a "Consumer Reports" para nos informar o que a concessionária está pagando, e companhias como a Saturn, onde a regra para não esfolar o cliente significa que o preço pedido é o preço real, alguns dos elementos que provocavam dor de cabeça neste processo saíram de cena.

Mais recentemente, surgiram sinais de que a negociação salarial também está avançando lentamente rumo a uma maior transparência.

"Acredito que a tendência para uma transparência salarial está aumentando", afirma Traci Fenton, diretor-executivo da WorldBlu, em Austin, no Texas, que assessora companhias que desejam criar "locais de trabalho mais democráticos", e que pratica aquilo que prega. Os 11 funcionários da WorldBlu, a maioria dos quais trabalha por contrato, sabem o quanto cada um ganha.

"A abertura em relação à folha salarial das companhias irá se tornar a norma", prevê Fenton. "E isso acontecerá mesmo que as pessoas adotem esta tendência com relutância. Se os indivíduos receberem aquilo que valem, não haverá motivo para que eles sintam-se desconfortáveis com a divulgação dos seus salários".

A abertura tem um caráter um pouco diferente na Motek, uma companhia de Beverly Hills, na Califórnia, que cria softwares para depósitos de mercadorias. Os funcionários que estão no mesmo nível recebem salários idênticos, e os aumentos salariais são negociados para toda a equipe. "Cada um dos meus funcionários conhece o salário de todos os outros, do recepcionista aos engenheiros de software", afirma Ann Price, a diretora-executiva da empresa. "Não há comparações, invejas ou manobras traiçoeiras".

Alguns salários são há muito tempo de conhecimento público. Os funcionários do governo sabem quanto os colegas levam para casa, e esta informação também está disponível para as pessoas que não trabalham na instituição. As empresas sem fins lucrativos precisam apresentar uma lista dos seus salários quando se candidatam a doações. Os trabalhadores que ganham por hora, especialmente os iniciantes, costumam saber quanto os colegas ganham. E os salários dos indivíduos que estão no topo das organizações, especialmente aquelas que têm ações negociadas publicamente, também não costumam ser um segredo.

Porém, para todos os demais, os detalhes do contracheque são secretos.

"Este é um fenômeno bem norte-americano e de classe média", afirma Ed Lawler, diretor do Centro de Organizações Efetivas na Escola de Administração Marshall, da Universidade do Sul da Califórnia, que estuda a questão da transparência salarial desde 1962. "Nos ensinam desde pequenos que falar sobre quanto ganhamos denota mau-gosto".

"O nosso salário informa às pessoas aquilo que elas acreditam ser o nosso valor, e nós ficamos com medo de que tal valor seja baixo", acrescenta ele.

Lawler descobriu que a maioria das pessoas tem uma imagem mental da posição em que se encontram em relação aos colegas de trabalho. Segundo ele, é provável que tal imagem não corresponda à realidade. "Nós subestimamos os salários daqueles que ocupam cargos mais elevados do que os nossos, e superestimamos os rendimentos de trabalhadores do nosso nível. Isto é uma receita certa para que o indivíduo sinta-se mal remunerado.

Então, a solução seria fazer com que todo mundo conhecesse o salário de todos os outros no local de trabalho? Penelope Trunk acha que sim.

No mês passado ela deu início a um debate acalorado no seu blog, The Brazen Careerist (penelopetrunk.com) com uma mensagem defendendo a transparência salarial (na mensagem ela admitiu que ainda não criou as bases para a adoção de uma política deste tipo na sua companhia).

Segundo a lógica de Trunk, o secretismo quanto aos salários mascara a desigualdade. Aquilo que você recebe deveria refletir o seu valor aos olhos do empregador. As companhias deveriam contar com diversos salários para cada função, e caso um trabalhador estivesse na extremidade inferior da escala salarial haveria um motivo para isto.

Mas, segundo Trunk, o que ocorre com mais freqüência é que o salário das pessoas reflete aquilo que o empregador é capaz de retirar delas. Os negociadores habilidosos ganham mais. Os funcionários de melhor aparência física ou que são os favoritos por razões misteriosas também ganham mais. O mesmo ocorre em relação àqueles que foram contratados quando o gerente estava desesperado ou quando tinha verbas sobrando. Isso resulta em uma escala salarial que não tem o menor sentido, e que faz com que muitos se sintam ludibriados.

Basta ver a reação dos funcionários de duas companhias nas quais os salários foram acidentalmente divulgados publicamente.

Alguns anos atrás, Laura Harris, cuja empresa de seguros em Corpus Christi, no Texas, tinha seis funcionários, foi pega de surpresa quando a companhia que faz a sua lista salarial enviou por fax, sem avisar, a folha de pagamentos de um determinado mês para o seu escritório. Uma funcionária descobriu a lista e mostrou-a aos colegas.

Harris tinha razões concretas para remunerar cada funcionário com um salário específico. "Aqueles que fazem com que a companhia ganhe mais dinheiro recebem aumentos salariais", diz ela. "Tempo de serviço não paga as minhas contas e não aumenta os meus rendimentos" Tive na minha firma pessoas com sete anos de casa que geraram mais lucros do que outras que trabalhavam comigo havia nove anos".

Harris conta que alguns funcionários "não ficaram muito satisfeitos" com as revelações, mas ninguém reclamou.

As coisas não se passaram de forma tão tranqüila há três meses para a Golden Lasso, uma agência de marketing de Seattle que tem 15 funcionários. O problema ocorreu quando alguém retirou uma pilha de contracheques da impressora e divulgou o que viu em uma reunião informal de funcionários fora do trabalho. Não demorou muito para que Philip Swanstrom Shaw, o diretor de criatividade da agência, se deparasse com uma funcionária agitada. Shaw conta que ela queria saber por que não estava ganhando tanto quanto uma outra funcionária.

"Tive que dizer a ela que a sua função era diferente, e que ainda a estávamos preparando e desenvolvendo o seu potencial", diz ele.

Enquanto tentava acalmar a funcionária, Shaw percebeu o quanto a estrutura salarial da sua agência baseava-se em valores nebulosos. "Não pagamos tanto quanto outros na área, mas nós enfatizamos a qualidade de vida, não trabalhamos todos os finais de semana como alguns dos nossos concorrentes e garantimos o emprego dos funcionários mesmo em épocas de crise. Tudo isto é difícil de quantificar", afirma Shaw.

Ele conta que, enquanto conversava com a funcionária, compreendeu que algumas das suas explicações pareciam vazias. A funcionária que divulgou os salários já deixou a empresa. A que reclamou recebeu um aumento. "Foi um incidente venenoso e ainda estamos lidando com os seus desdobramentos", diz Shaw.

O secretismo favorece o empregador na hora da contratação. Pode ser difícil para os potenciais funcionários saber se uma oferta é justa quando eles não contam com todas as informações. Na ausência de transparência generalizada por parte das companhias, os websites estão preenchendo as lacunas.

"Informação é algo de bom, e quanto mais informação, melhor", diz Robert Hohman, fundador do Glassdoor.com, que começou a funcionar em junho. O Glassdoor permite que as pessoas publiquem anonimamente informações salariais, o que faz dele um dos diversos websites que listam salários de acordo com companhias específicas, e não por uma descrição genérica do emprego.

Hohman compara a sua firma à Expedia, o site de viagens da Internet. "Antes da Internet, somente os indivíduos que pertenciam aos círculos internos tinham acesso a toda a gama de preços, horários e reservas em companhias aéreas e hotéis. Mas agora todo mundo pode obter tais informações", afirma Hohman.

Ele espera que cedo ou tarde um funcionário possa se conectar à Internet, clicar no nome da sua companhia e verificar a faixa de salários para o seu tipo de trabalho.

Ele observa que, como as informações salariais em tais sites são publicadas anonimamente, elas não podem por si próprias modificar a cultura que originalmente tornou o anonimato necessário. Segundo Hohman, dizer aos outros quanto se ganha provavelmente será sempre complicado.

Mas algumas pessoas já estão desafiando esse tabu. Price, por exemplo, ficou contente em me dizer que o seu salário anual é de US$ 300 mil. Os seus gerentes de projeto ganham US$ 80 mil.

Mas, quando fiz esta pergunta a Hohman, ele titubeou, e, a seguir, respondeu: "US$ 200 mil". Mais tarde, ele me enviou um e-mail informando que fizera aquilo que vinha adiando: publicar o seu salário no seu próprio website.

E quanto a Lawler? Fiz-lhe a mesma pergunta, mas, consciente da ironia da situação, ele disse que não podia me informar quanto ganha. "Eu poderia perder o emprego se falasse", afirmou. "A Universidade do Sul da Califórnia não permite que revelemos os nossos salários". UOL

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