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22/08/2008

Homem rouba mais de 2.800 bicicletas no Canadá, mas por quê?

The New York Times
Ian Austen
Em Toronto
O que ele pretendia fazer exatamente com 2.865 bicicletas?

Esta é apenas uma dentre várias questões com as quais a polícias e diversas pessoas têm se deparado desde a prisão, no mês passado, de Igor Kenk, proprietário de uma loja de bicicletas usadas em Toronto.

Atualmente o legado de Kenk abarrota uma ex-garagem da polícia que tem um teto cheio de goteiras. Organizadas pelas marcas e apoiadas em sua maioria nos guidons, com as rodas para cima, encontram-se no local 2.396 bicicletas que, segundo a polícia, Kenk roubou (ou cujo roubo foi encomendado por ele).

A coleção confusa de bicicletas sugere que Kenk é o campeão mundial não oficial dos ladrões de bicicletas. Mas enquanto aguarda o seu julgamento no mês que vem, devido a 58 acusações relacionadas a roubo e posse de drogas, os maiores mistérios de todos são os motivos de Kenk e o plano dele para a frota de aço, borracha e alumínio que acumulou.

"Ele é certamente o homem mais odiado em Toronto", afirma Alex Jansen, um cineasta que trabalha em um documentário sobre Kenk há mais de um ano como parte de um estudo da transição do seu tumultuado bairro para a cultura hipsterdom. "Mas descobri que as coisas não são tão branco e preto quanto eu pensava".

Jensen explica que Kenk era uma espécie de assistente social que fornecia trabalho a moradores de rua e pacientes de uma instituição de saúde mental próxima. Segundo a polícia, é claro que parte deste trabalho dizia respeito ao roubo de bicicletas.

A prisão provocou uma onda de fúria e publicidade em uma cidade conhecida por ser uma das mais amigáveis do mundo para com os ciclistas. Cerca de 15 mil ciclistas esperançosos, alguns com lágrimas nos olhos, vasculharam a coleção de Kenk em busca de suas bicicletas desaparecidas. Mas, até a manhã da última quinta-feira (21/08), apenas 469 bicicletas tinham sido devolvidas, quando tiveram início mais 17 dias de busca por parte dos ciclistas vítimas de roubo.

"A reação pública foi impressionante", afirma Ruth White, superintendente da 14ª Divisão de Polícia, a unidade que efetuou a prisão. "Nunca vi nada como isso em 30 anos de profissão".

Por mais estranho que pareça, a polícia e vários ciclistas sabiam que a pequena loja de Kenk, a Bicycle Clinic, parecia ser um buraco negro que consumia bicicletas roubadas. Vítimas de roubo descobriam freqüentemente lá as suas bicicletas desaparecidas, e muitas vezes conseguiam recuperá-las, ou por meio de acaloradas discussões, ou mediante o pagamento de US$ 30 ou US$ 40.

Embora já tenha sido preso uma vez antes, Kenk foi absolvido porque a acusação foi incapaz de provar que ele sabia que as bicicletas que estavam em sua posse eram roubadas. Depois disso, a polícia perdeu o interesse em persegui-lo, e muitas pessoas no bairro passaram a tolerá-lo, e a evitar tanto a ele quanto a sua loja.

"Visitar a loja do Igor para recuperar a bicicleta roubada passou a fazer parte da cultura do bairro; as pessoas aceitavam isso", diz White.

O único motivo para a prisão de Kenk foi o aumento acentuado dos roubos de bicicletas em junho, o que fez com que a 14ª Divisão desse início a um esforço generalizado para prender os ladrões, colocando bicicletas nas ruas e esperando para ver quem as roubava.

Enquanto policiais à paisana observavam na tarde de 16 de julho, Kenk e um outro homem passaram pela isca sem manifestar interesse. Mas Kenk logo orientou o seu companheiro, que tem um histórico de doença mental, a cortar os cadeados de duas outras bicicletas - que não tinham sido plantadas pela polícia. Após o corte dos cadeados eles fugiram pedalando.

"Foi a forma de Deus dizer: 'É hora de pôr um fim a isso'", diz o inspetor Bryce Evans, da 14ª Divisão. Quando a polícia subseqüentemente invadiu a Bicycle Clinic, o Corpo de Bombeiros a princípio impediu os policiais de entrarem por motivos de segurança. O prédio estava tão abarrotado de bicicletas e peças que uma equipe de resgate dos bombeiros precisou remover as janelas do andar superior e retirar as bicicletas com uma corda.

E isso foi só o começo. Outras 200 bicicletas foram apreendidas na casa de Kenk. Dez locadores de imóveis da cidade anunciaram que as suas garagens foram alugadas por Kenk e estavam cheias de bicicletas. Enquanto recolhia as montanhas de bicicletas, a polícia descobriu também cocaína, crack, cerca de sete quilos de maconha e uma escultura de bronze roubada mostrando um centauro e uma cobra em uma batalha.

White é uma das pessoas que ficaram boquiabertas. Ela observa: "Ele ganhou muito dinheiro com isso, a julgar pelo local em que morava". Embora a sua loja estivesse caindo aos pedaços, Kenk dividia uma casa alugada em Yorkville, um bairro prestigiado e caro de Toronto, com a sua parceira, Jeanie Chung.

Uma pianista brilhante, Chung, que também é acusada de posse de drogas e objetos roubados, entregou-se após retornar de dois concertos que deu em Banff, na província de Alberta (o advogado de Chung não respondeu a solicitações para que fizesse comentários sobre o caso).

Desde a prisão de Kenk, as teorias sobre os seus atos proliferaram. Como Kenk tinha uma licença para o comércio de ferro-velho, Evans especula que ele estava de olho no mercado de commodities, aguardando um outro aumento dos preços dos metais para derreter as bicicletas.

No passado, Kenk disse que acumulava bicicletas para preparar-se para uma intensa escassez de petróleo. Mas em uma entrevista meio sem sentido, dada em julho para uma rádio que fazia um documentário - que teve alguns trechos publicados no "The Globe and Mail", um jornal de Toronto - Kenk apresentou-se como um cruzado contra o roubo e um protetor das bicicletas abandonadas.

Kenk tem um passaporte esloveno, e alega que foi policial e agente da KGB. Ele esclareceu muito pouca coisa após a sua prisão. Após uma audiência no tribunal, ele disse aos jornalistas: "Sou um homem morto".

Em uma breve entrevista, Lon G. Rose, o advogado de Kenk, recusou-se a entrar em detalhes ou a prestar qualquer informação sobre o passado de Kenk, antes de afirmar: "A reação pública é um pouco extremada e reflexa".

Jansen, o cineasta, e outras pessoas acham que Kenk é um filósofo carismático - embora transviado - do bairro. Jansen, que mora perto da loja de bicicletas, diz que Kenk era o elo com uma era anterior às placas de rua que declararam que este bairro outrora decadente é o Distrito da Arte e do Design.

"Você fica simplesmente cativado ao começar a conversar com ele", afirma Jensen. "Com a modificação do bairro, eu sabia que isso culminaria com a expulsão de Igor. Só fiquei chocado com o número de bicicletas e depósitos. E a quantidade de drogas é incrível".

Não há nenhum padrão discernível na coleção de bicicletas de Kenk, que inclui diversos reboques para bebês e pelo menos um velocípede. Mas nem tudo é velho, incompleto ou danificado. Ao longo de duas paredes da garagem há dezenas de caixas cheias de um produto que é ou apropriado ou chocante, tendo em vista as circunstâncias: cadeados de bicicletas novos. UOL

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