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23/08/2008

Estados Unidos tentam encontrar novo aliado paquistanês contra o Taleban

The New York Times
Jane Perlez
Em Islamabad
Agora que o grande amigo de Washington, o presidente Pervez Musharraf, saiu de cena, a questão é a seguinte: para quem, dentre o conjunto de figuras do universo político daqui, os Estados Unidos irão se voltar na complicada luta contra um fortalecido Taleban?

Musharraf, que foi presidente do país e comandante do exército durante quase todo o período de nove anos em que esteve no poder, e que renunciou na última segunda-feira sob a ameaça de sofrer um impeachment, era uma espécie de vendedor de serviços para Washington.

O governo Bush contou com ele para o apoio militar necessário para suprimir o Taleban nas regiões tribais, e para as informações de inteligência resultantes da prisão de suspeitos de serem membros da Al Qaeda. No fim das contas, Washington deixou de conseguir muito daquilo que queria. Mas Musharraf, um autocrata que parecia disposto a cooperar, proporcionou aos norte-americanos uma sensação de poder.

Mas, com a saída de Musharraf, pessoas que visitaram recentemente a Embaixada dos Estados Unidos aqui em Islamabad dizem que as autoridades norte-americanas estão perdidas no que se refere a determinar a quem devem apoiar.

Na sexta-feira (22/08), o maior partido do país, o Partido dos Povos Paquistaneses, anunciou que nomeará o seu líder, Asif Ali Zardari, para a presidência do país, um cargo que ele poderá conquistar em uma eleição em um colégio eleitoral no dia seis de setembro.

Isso faria de Zardari o aliado norte-americano automático, embora a gama de poderes do novo presidente e o seu compromisso e capacidade de combater a insurgência do Taleban não estejam bem determinados.

Nos seus primeiros quatro meses, o governo civil que Zardari de fato lidera ficou imobilizado devido às brigas internas para determinar se Musharraf deveria ser removido do poder, como deveria ser feita esta remoção e quem o substituiria.

Essa batalha tem sido tão desgastante que a coalizão quase não presta atenção à tarefa de governar, ainda que a economia esteja em frangalhos e o Taleban demonstre disposição cada vez maior de conquistar o poder neste Estado que possui armas nucleares.

E há também as lutas quanto ao legado de Musharraf, das quais a mais acirrada foi aquela no sentido de determinar se os 60 juízes exonerados no ano passado devem recuperar os seus cargos.

Nawaz al-Sharif, presidente da Liga-N Muçulmana Paquistanesa, um partido menor da coalizão, declarou na sexta-feira que Zardari terá até a próxima semana para reconduzir os juízes aos seus cargos, incluindo o procurador-geral do Tribunal Supremo.

Ele disse em uma coletiva à imprensa que uma resolução será redigida no fim de semana, e apresentada ao parlamento na próxima segunda-feira. "Após ser debatida, ela deverá ser aprovada na quarta-feira, e os juízes deverão ser readmitidos", disse ele. Caso isto não aconteça, ele ameaça deixar a coalizão governista.

Este tiroteio político tem aumentado os temores das autoridades norte-americanas de que ninguém esteja de fato no comando, enquanto a insurgência do Taleban ganha força. O número de baixas provocadas pelo pior ataque suicida a bomba do Taleban, em frente a uma fábrica de munições, na última quinta-feira, subiu para 78, e há 108 feridos.

Além do mais, crescem as dúvidas entre as autoridades norte-americanas quanto ao grau de cooperação que podem esperar do novo chefe do exército, Ashfaq Parvez Kayani, um ex-diretor de inteligência que assumiu em novembro do ano passado o posto anteriormente ocupado por Musharraf.

Após avaliações iniciais favoráveis dos norte-americanos, Kayani pareceu estar menos interessado em como lidar com o Taleban do que em elevar a moral das suas tropas mal treinadas e equipadas.

"Na minha opinião, eles não fazem uma contra-insurgência agressiva porque não têm condições", diz Christine Fair, cientista política da Rand Corporation, referindo-se ao exército paquistanês.

Segundo ela, na era pós-Musharraf, o exército deseja concentrar-se na reabilitação da moral e da reputação, que foram prejudicadas pelas impopulares decisões políticas de Musharraf. "Isto significa que será menos provável que eles cooperem", acrescenta Fair. "Neste momento eles só se preocupam com aquilo que seja do interesse da sua própria instituição".

E isto não inclui uma briga sangrenta com o Taleban. Mas, talvez o mais importante no longo prazo seja o fato de o Taleban continuar sendo um importante instrumento para que o Paquistão influencie os fatos ocorridos além da fronteira caso os norte-americanos deixem o Afeganistão, conforme fizeram após a partida dos soviéticos, diz Fair.

Enquanto isto, o trio de líderes civis - Zardari, Sharif e o primeiro-ministro Yousaf Raza Gilani - não conta com nenhuma figura ideal para tornar-se o defensor dos interesses dos Estados Unidos no Paquistão.

Gilani, um novato que foi tirado da obscuridade por Zardari para tornar-se primeiro-ministro, causou uma má impressão pública na sua visita a Washington no mês passado, e não se saiu muito melhor nos bastidores.

Em uma reunião no Conselho de Relações Internacionais, ele tropeçou em algumas questões básicas sobre as relações paquistanesas-americanas feitas por especialistas.

Segundo uma autoridade que presenciou as reuniões privadas dele com membros do governo Bush, Gilani só foi capaz de fornecer um mantra simples para derrotar o Taleban: "Vamos trabalhar juntos".

Sharif desfrutou de uma boa relação com o presidente Clinton quando foi primeiro-ministro na década de 1990, mas o ex-premiê é motivo de preocupações em Washington devido à sua proximidade com as forças islâmicas conservadoras no Paquistão.

O fato de Sharif estar surfando uma onda de popularidade devido à sua postura intensamente contrária a Musharraf não impressiona o governo Bush, afirma Daniel Markey, do Conselho de Relações Exteriores.

Para a surpresa de muitos aqui, o civil com o ás na manga pode ser Zardari, o viúvo de Benazir Bhutto, que assumiu o comando do partido da mulher depois que ela foi assassinada em dezembro passado.

Zardari não disputou nenhuma eleição, e não conta com muita experiência de governo, mas ele controla dos bastidores o maior bloco parlamentar. Ele é o poder que está por trás de Gilani, e é ele que toma as decisões diárias a respeito de políticas de governo e da nomeação de pessoas para cargos importantes, tendo incluído no governo amigos com os quais cumpriu pena de prisão por acusações de corrupção.

Zardari passou mais de oito anos na cadeia devido a estas acusações, mas ele nunca foi sentenciado e diz que tudo não passou de uma vendetta dos seus inimigos políticos.

As acusações foram finalmente retiradas, como parte de um acordo de anistia com Musharraf quando ele e Bhutto retornaram ao Paquistão.

Este histórico faz de Zardari uma figura divisiva na política paquistanesa, ainda que ele se mova sistematicamente no sentido de abocanhar a presidência. Mas após o fraco desempenho de Gilani em Washington, autoridades do governo Bush podem estar se inclinando em direção a Zardari como o provável aliado alternativo.

Como presidente, ele poderia acabar sendo uma das figuras mais poderosas já vistas no Paquistão. Ele sem dúvida continuaria controlando efetivamente o primeiro-ministro.

A grande questão é saber se como presidente ele contaria com o instrumento de poder absoluto do qual Musharraf usufruiu: a capacidade de dissolver o parlamento segundo uma emenda constitucional. A coalizão prometeu abolir essa emenda.

Mas caso Zardari consiga preservar esse poder, os Estados Unidos poderão ter que voltar a comprar serviços, apesar de contarem com um outro personagem atrás do balcão. UOL

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