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24/08/2008

Economia mundial cai junto com a economia dos EUA

The New York Times
Os problemas econômicos se espalharam muito além dos Estados Unidos para os principais países da Europa e da Ásia, ameaçando os negócios americanos com a perda de vendas internacionais e investimentos que haviam se tornado cada vez mais vitais para seu sustento.

Apenas alguns meses atrás, economistas ainda ofereciam esperanças de que a robusta expansão podia continuar na maior parte do mundo mesmo com a desaceleração da economia dos EUA.

Esperava-se que o investimento estrangeiro continuasse nutrindo os bancos americanos, que ainda sangravam por causa de suas apostas desastrosas nos imóveis e fornecesse dinheiro para as companhias que buscavam se expandir. A demanda internacional por bens e serviços americanos deveria continuar compensando a redução da demanda nos Estados Unidos.

Agora, os altos preços da energia, os sistemas financeiros paralisados pelo medo, e o declínio dos parceiros comerciais combinaram-se para sufocar o crescimento em muitas das principais economias. O Fundo Monetário Internacional espera que o crescimento global desacelere significativamente até o fim do ano, caindo de 5% em 2007, para 4,1%.

"A economia global está em um ponto difícil, presa entre a queda brusca na demanda em muitas economias avançadas e o aumento da inflação em toda parte", declarou o FMI no mês passado em seu relatório oficial Panorama Econômico Mundial.

Tudo isso significa que os problemas econômicos dos Estados Unidos podem se intensificar durante e o período de eleições e após. Isso também pode dificultar que companhias financeiras como a Lehman Brothers —que tem recebido investimento novo na Coréia do Sul— e as gigantes das hipotecas, apoiadas pelo governo, Fannie Mae e Freddie Mac consigam atrair o capital tão necessário de outros países.

Conforme os Estados Unidos e muitas outras grandes economias escorregam em uníssono, a realidade dos mercados integrados está se revelando: assim como a globalização espalha a prosperidade —ligando os fazendeiros de algodão do Texas aos moinhos têxteis da China— as mesmas forças espalham o prejuízo quando a época é de crise.

"A desaceleração atingiu uma amplitude tão grande de países que agora eles estão comendo uns aos outros", disse Alan Ruskin, diretor de estratégia internacional do RBS Greenwich Capital.

O impacto da queda reflete-se na experiência da Vermeer Corp., em Pella, Iowa. A companhia, que fabrica equipamentos agrícolas e para a construção civil, acostumou-se a buscar o crescimento fora do país quando a falência do mercado imobiliário nos Estados Unidos interrompeu a compra de maquinário pelos construtores americanos.

A porcentagem total de suas vendas para fora do país dobrou nos últimos cinco anos e hoje representa um terço dos lucros da companhia, diz Steve Heap, diretor sênior de vendas internacionais.

Mas nos últimos meses, mesmo que o crescimento tenha continuado de modo geral, algumas partes do mundo mergulharam na depressão.

"O Reino Unido foi muito fraco nos últimos seis meses", disse Heap. "A Europa ocidental de modo geral foi ruim. Não vimos o mesmo crescimento que observamos nos últimos anos."

Muitas das principais economias estão ou estagnadas ou encolhendo também. O Japão, cuja fortuna é atrelada às exportações, viu sua economia contrair-se a uma taxa de 2,4% de abril até junho depois de contabilizar a inflação. A Alemanha, outra potência de exportação, caiu em 2%. A França e a Itália também tiveram quedas leves.

A Espanha e o Reino Unido —ambos se debatendo com a ressaca de seus próprios excessos imobiliários— não tiveram nenhum crescimento, em meio a opiniões de que eles já escorregaram para a recessão. A festividade do dinheiro fácil abriu caminho para a recriminação dos empréstimos ruins, desemprego e inflação.

"O ano de 2009 na Europa será bem pior do que 2008", diz Marco Annunziata, economista-chefe do banco italiano UniCredit.

Mesmo a China e a Índia, cujo crescimento rápido desencadeou discussões sobre uma nova ordem mundial, esfriaram nos últimos meses, apesar de continuarem se expandindo a taxas que fariam inveja em qualquer outro país.

"Tivemos um crescimento mundial inflado durante alguns anos", diz William R. Cline, membro do Instituto Peterson para a Economia Internacional em Washington. "Tudo estava quente demais para resfriar-se, como diz a música."

A queda tem um lado positivo potencialmente significativo que está a caminho: ela pode derrubar os preços dos alimentos e da energia, que aumentaram por causa do crescimento da demanda em uma economia mundial em rápida expansão.

O presidente do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), Ben S. Bernanke, têm apostado nesse cenário ao rejeitar os pedidos para o aumento nas taxas de juros para sufocar a inflação.

A queda recente nos preços dos commodities, combinada com um "ritmo de crescimento que não deve atingir seu potencial durante algum tempo, deveria tornar a inflação moderada no final desse ano e no ano que vem", disse Bernanke na sexta-feira durante o simpósio anual de economia do Fed em Jackson Hole, Wyoming.

Ainda assim, a preocupação está centrada na possibilidade de que a diminuição do crescimento global prejudique as vendas de bens e serviços americanos fora do país. As exportações tem sido um ponto luminoso evidente numa economia tingida pela queda nos preços dos imóveis e no declínio do consumo.

O dólar tem se fortalecido em relação a muitas moedas nas últimas semanas —não por causa de uma nova crença nas perspectivas americanas, dizem os economistas, mas sim porque os investidores estão evitando os mercados que estão se enfraquecendo, como a Inglaterra e outras partes da Europa, reduzindo o valor da libra e do euro.

"É o resto do mundo que está caindo, não os Estados Unidos que estão crescendo", diz Kenneth S. Rogoff, ex-economista-chefe do FMI e hoje professor de Harvard.

Um dólar mais forte torna os bens americanos mais caros nos mercados mundiais. Se o dólar continuar a se fortalecer, isso pode afetar as vendas.

"As exportações estão de certa forma nos mantendo fora do túmulo", diz Martin N. Baily, ex-presidente do Conselho Econômico do governo Clinton, e hoje membro sênior da Brookings Institution em Washington. "Isso pode começar a enfraquecer se o dólar continuar a subir."

Alguns economistas argumentam que o recente fortalecimento do dólar é uma correção depois de seis anos de quedas que tiraram um quarto de seu valor em relação às moedas dos seus principais parceiros comerciais.

Outros sustentam que o dólar ainda vai cair mais, notando que os Estados Unidos continuam no lado mais curto de uma balança de comércio irregular, com as importações ultrapassando as exportações em quase US$ 800 bilhões no final do ano passado.

Independentemente do valor do dólar, as vendas de bens americanos podem sofrer erosão por conta de uma força mais decisiva: uma perda global do apetite por bens. "Se o restante da economia mundial desacelerar, a demanda simplesmente não vai existir", disse Ruskin.

Isso poderá ser doloroso para as companhias americanas que confiam nas vendas para os mercados estrangeiros. Em 2001, grandes companhias americanas que revelaram seus lucros internacionais, registraram cerca de um terço de suas vendas fora do país, de acordo com uma análise feita por Howard Silverblatt, analista sênior da Standard & Poor's. No ano passado, as vendas internacionas cresceram 46%. A Europa representou 29% do total.

Algumas empresas americanas dizem que é muito cedo para se preocupar com uma queda global.

"Quando vejo as manchetes, fico preocupado, mas quando olho para o meu livro de pedidos, paro de me preocupar", diz James W. Griffith, presidente e diretor-executivo da Timkin Co., uma fábrica de rolamentos industriais e equipamentos para transmissão de energia de Canton, Ohio, com operações em 27 países.

Quase metade dos negócios de rolamentos da Timken acontece fora do país, protegendo a companhia contra as perdas das vendas para a indústria automobilística americana —uma tendência que Griffith diz ter certeza que irá continuar.

"Quando a China decide construir um carro, alguém põe para funcionar um moinho de aço com carvão e minério de ferro da Austrália, extraídos com o auxílio de caminhões de carga que estão cheios de rolamentos da Timken", diz Griffith. "O que está impulsionando nosso sucesso é a globalização dos mercados."

Ainda assim, a transformação das terras estrangeiras de um refúgio para as empresas americanas em uma fonte de ansiedade é um testemunho de quão rapidamente o problema pode se proliferar na economia global.

Os serviços de call center da Índia —altamente dependentes da demanda norte-americana— agora estão se preparando para cortes.

Na China, o ritmo de crescimento caiu de uma taxa anual acima dos 12% no ano passado para algo próximo dos 9 ou 10% de acordo com a maioria dos economistas.

Os líderes chineses têm se preocupado com o enfraquecimento das exportações, alterando recentemente suas prioridades de procurar inibir a inflação para, em vez disso, sustentar o crescimento econômico. O governo está diminuindo as restrições para empréstimos bancários, que haviam sido impostas para colocar freios na economia.

Quando a China faz menos computadores, ela precisa de menos chips produzidos em Taiwan e projetados nos Estados Unidos. Precisa de menos aço, e portanto menos minério de ferro do Brasil e da Austrália. O que significa que esses países precisam de menos equipamentos de construção feitos na Alemanha, Japão ou Ohio.

"O desaceleramento global irá criar um vento contrário para os Estados Unidos", diz Stephen Jen, economista do Morgan Stanley em Londres. Eloise De Vylder

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