UOL Notícias Internacional
 

25/08/2008

Sonhando com o crescimento de um parque industrial na Coréia do Norte

The New York Times
Martin Fackler
O Parque Industrial Kaesong parece ter saído de outro mundo, em relação aos arredores da cidade norte-coreana onde se situa. Enquanto o parque industrial administrado pela Coréia do Sul tem fábricas modernas e motoristas usando utilitários, a cidade de Kaesong parece ter saído diretamente da Guerra Fria.

Longas faixas de tristes blocos de apartamentos cinzentos se destacam nas avenidas vazias e berrantes cartazes vermelhos proclamam a vitória do partido dos trabalhadores.

Cercas e soldados em vigília separam o parque do restante da Coréia do Norte. Isso não impediu os sul-coreanos de sonhar que o parque industrial venha a se tornar a base que algum dia desestabilize esse estado estalinista, tornando a Coréia do Norte o equivalente a Shenzhen, a zona especial de investimentos que ajudou a dar início ao milagre do livre mercado na China, há quase 20 anos.

Apesar do isolamento e da sensação de se estar em uma prisão, avançam as construções no Parque Industrial Kaesong. A operadora do parque, uma empreiteira da Coréia do Sul, Hyundai Asan, espera expandi-lo para uma mini-cidade durante os próximos 12 anos, com torres de apartamentos e hotéis, um lago artificial e três campos de golfe.

Até essa época, a empresa espera que haja cerca de 2.000 fábricas no local, empregando 350.000 norte-coreanos e produzindo cerca de US$ 20 bilhões em bens por ano.

Isso se compara a uma produção manufatureira de apenas US$ 366 milhões no primeiro semestre deste ano, segundo o ministério da unificação da Coréia do Sul.

Nos seis meses até junho, o fluxo de bens enviados e saídos do parque industrial correspondeu a 42% dos US$ 881 milhões em comércio entre as duas Coréias, informou o ministério.

Os Estados Unidos atenuaram algumas das sanções contra a Coréia do Norte no início do verão (junho a setembro) depois que o país forneceu detalhes sobre o seu programa nuclear e destruiu a torre de resfriamento nas instalações nucleares em Yongbyon, mas as restrições às importações continuam em vigor, tornando o parque Kaesong menos atraente para as grandes empresas da Coréia do Sul e do exterior.

Na verdade, o próprio presidente conservador da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, provocou a ira da Coréia do Norte ao sugerir inicialmente que não iria honrar os acordos de seu antecessor de expandir a cooperação econômica.

Apesar de tudo isso, 72 empresas sul-coreanas menores já construíram suas fábricas aqui, tentando explorar a barata oferta de mão-de-obra do Norte, que fala coreano. Até agora, apenas uma empresa estrangeira veio.

A marca da mudança gradual pode ser vista na experiência da SJ Tech, uma fabricante sul-coreana de peças para carros e celulares que construiu uma fábrica de US$ 4 milhões há quatro anos.

Os primeiros funcionários norte-coreanos da empresa jamais haviam sequer visto um teclado, muito menos um computador, disse Yoo Chang-geun, presidente da SJ Tech.

A empresa gastou tanto tempo ensinando a eles coisas como operação de máquinas e conceitos de administração que Yoo brinca, chamando sua fábrica de "a primeira faculdade de administração da Coréia do Norte".

Mas os norte-coreanos foram alunos aplicados, desenhando teclados no papel e aprendendo sozinhos a digitar. Agora, os 430 funcionários norte-coreanos da SJ Tech aprenderam o suficiente para administrar a fábrica sem supervisores sul-coreanos.

Num aspecto revelador, eles também mudaram os cortes de cabelo para se parecer mais com os colegas da Coréia do Sul.

"Os norte-coreanos são como esponjas," disse Yoo, "absorvendo rapidamente tudo o que mostramos a eles."

Esse é exatamente o tipo de resultado que o governo sul-coreano busca. Persistiu com investimentos e turismo no Norte, apesar das críticas do maior aliado, os Estados Unidos. Até mesmo Lee, eleito em dezembro, indicou recentemente que vai apoiar a cooperação econômica.

Os defensores do engajamento em Seul dizem que sua meta de longo prazo é preparar pacificamente o Norte para uma unificação tranqüila com o Sul mais rico.

Para o Norte, as ligações econômicas tornaram-se uma fonte valiosa de moeda forte para uma economia moribunda que não consegue alimentar sua população de 23 milhões.

O Norte consegue dinheiro cobrando pelos arrendamentos de terra por 50 anos no parque Kaesong. A operadora do parque, Hyundai Asan, também paga ao Norte mais de US$ 100 por pessoa por dois circuitos turísticos que opera, um para Kaesong e outro para o pitoresco Monte Kumgang no sudeste da Coréia do Norte.

Os críticos da Coréia do Sul e dos Estados Unidos dizem que o dinheiro de tais projetos, em análise final, banca o pródigo estilo de vida do líder da Coréia do Norte,Kim Jung-Il, ou pior que isso, suas ambições nucleares.

Mas com as evidências cada vez mais fortes de que o crescente contato fornecido pelos enclaves resulta em pequenas mudanças, alguns dos antes obstinados críticos saíram em apoio à política de engajamento do Sul.

"Quando você está alimentando o rato com veneno, mas você o cobre com açúcar, você não está realmente alimentando o rato," disse Andrei Lankov, professor de história da Coréia do Norte na Universidade Kookmin em Seul, um persistente crítico do regime que recentemente surpreendeu colegas ao publicar um artigo em apoio ao parque Kaesong.

"Quando o os coreanos do Norte e do Sul puderem interagir em contatos diários, haverá uma chance para que os coreanos do Norte vejam com seus olhos que sua própria propaganda não tem sentido," ele afirma.

A política de engajamento há muito tempo desfruta de um amplo apoio entre os sul-coreanos, para os quais os norte-coreanos são primos temerosos que precisam de ajuda.

Mesmo depois da morte de um turista sul-coreano em 11 de julho, atingido por tiros de um soldado norte-coreano no monte Kumgang, não houve protestos públicos para a mudança geral da política de engajamento, embora Seul tenha suspenso o roteiro turístico enquanto a segurança é revisada.

Em uma aparente revanche, a Coréia do Norte ordenou que todos os cidadãos da Coréia do Sul saíssem do enclave no período em que as excursões estiverem suspensas.

Claro, a maior parte das mudanças no Norte podem apenas estar afetando as pessoas que moram perto de Kaesong, uma cidade de 140.000 pessoas. E é difícil de avaliar uma mudança numa sociedade tão obscura quanto a da Coréia do Norte, que proíbe viagens ilimitadas e grande comunicação com seu povo.

Por exemplo, em uma recente excursão de visitantes a Kaesong, os únicos norte-coreanos com os quais era permitido conversar eram os guias e funcionários das lojas de presentes.

Os turistas, principalmente sul-coreanos, visitaram uma antiga escola e uma cachoeira dentro de grandes ônibus que circulavam pelas vazias e poeirentas ruas de Kaesong sem fazer paradas. Os norte-coreanos podiam ser vistos observando cautelosamente das janelas dos prédios de apartamentos.

Nas poucas conversas mantidas, eles se ativeram cuidadosamente à linha oficial do país em questões políticas, admitindo que a Coréia do Norte é muito pobre, mas colocando a culpa nas sanções econômicas dos Estados Unidos.

Ainda assim, às vezes, os norte-coreanos pareciam ser mais sinceros que no passado.

Alguns descreveram como o parque industrial administrado pelos sul-coreanos estava melhorando a vida, ao pagar aos seus trabalhadores o equivalente a cerca de US$ 60por mês, três vezes o salário médio no resto de Kaesong.

Até agora, a única empresa estrangeira no parque Kaesong é a fabricante alemã de peças para veículos Prettl Group, que está construindo uma fábrica. Duas empresas chinesas iniciarão suas operações em breve.

Mas a maior parte das empresas que estão aqui continuam sendo as sul-coreanas de menor porte, produzindo bens de baixa tecnologia, de frigideiras a calçados de corrida, em grande parte para o consumo interno.

O governo sul-coreano, que gastou mais de US$ 150 milhões, subsidiando o parque, concede empréstimos com juros reduzidos e seguros às empresas, para compensar os riscos de investir no instável e hostil Norte.

Yoo, da SJ Tech, disse que os salários de US$ 75 mensais que ele paga aos seus funcionários norte-coreanos, em contraste com os US$ 2.000 que paga na Coréia do Sul, tornaram o investimento na Coréia do Norte totalmente válido, apesar de quaisquer riscos.

"Nós nos arrependeríamos de não ter vindo para cá," ele disse. "Acredito no futuro." Claudia Dall'Antonia

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