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25/08/2008

Toque pessoal faz instituição de crédito prosperar

The New York Times
Julia Werdigier, Varsóvia (Polônia)
Quando Ewa Rachwal faz uma visita a domicílio a um dos seus 150 clientes, é recebida mais como a amiga que não se vê há muito tempo do que alguém que vem, para receber o pagamento semanal de juros de um empréstimo.

Rachwal é uma entre os mais de 28.000 agentes autônomos de uma empresa britânica, a International Personal Finance, que presta serviço como instituição de crédito para pessoas de origens modestas no Centro e no Leste da Europa, com pouco ou nenhum acesso aos bancos convencionais.

Ao contrário da maior parte das principais instituições financeiras, a empresa está prosperando em meio à turbulência global no mercado de crédito que deixou muitos credores com prejuízos imensos e baixas contábeis.

Embora o endividamento possa ser um conceito mal recebido nos Estados Unidos e no Oeste da Europa hoje em dia, parece mais atraente para as pessoas no Leste da Europa e de todas outras regiões que estão começando a se firmar na economia de consumo e anseiam por uma vida melhor.

A International Personal Finance, ou IPF, encontrou meios de explorar esse mercado de uma forma antiga, ao oferecer o crédito diretamente e depois mantendo uma atenção personalizada nos clientes.

Seus agentes visitam as pessoas em suas casas para avaliar melhor a capacidade de crédito delas, antes de oferecer pequenos empréstimos em dinheiro vivo no valor médio de US$ 500, para qualquer coisa, desde o conserto de uma máquina de lavar roupa a férias familiares.

O pagamento de juros de cerca de 20% atraiu críticas de grupos de consumidores e reguladores, mas a companhia insiste que tais taxas são necessárias para pagar pelo serviço a domicílio e cobrir o seu risco.

O lucro da IPF aumentou 40% este ano e suas ações, negociadas na Bolsa de Londres, subiram 52%, numa época em que os valores de muitos bancos americanos e do Oeste da Europa estão em declínio.

Christopher Rodrigues, o presidente executivo da companhia, chama a IPF de 'Avon do setor de serviços financeiros', referindo-se à empresa global de vendas diretas de produtos de beleza.

Rodrigues admite que a empresa não seja imune às incertezas da economia que atormentam outras instituições bancárias, mas o fato de evitar complexos modelos financeiros e o contato próximo com seus 1,94 milhão de clientes lhe permite minimizar o risco.

Embora as despesas com baixas contábeis, representando 22% da receita, sejam substanciais, ela acompanha seus empréstimos cuidadosamente e evita surpresas vindas de perdas imensas e inesperadas.

Balazs Pap, diretor da IPF na Polônia, explica que a abordagem dos negócios foi além das verificações de crédito com base em computadores da qual dependem os bancos maiores.

Se "alguém lhe diz pelo telefone que tem um filho," diz ele, "e depois você anda pela casa e vê três pares de sapatos de tamanhos diferentes," o agente já sabe que algo está errado.

Rachwal, que trabalha oferecendo empréstimos da IPF há oito anos, disse que quando visitou um cliente pela primeira vez, prestou muita atenção ao apartamento e tentou descobrir o máximo que podia, além das perguntas de rotina a respeito do nível de renda ou se a família possuía um telefone.

Cada agente é responsável por uma pequena área da cidade que não abrange mais de 2,6 quilômetros quadrados, e é geralmente bem conhecido na comunidade. "As pessoas me cumprimentam nas ruas, conheço seus filhos e famílias," disse Rachwal. "Nem mesmo os membros da família os visitam com tanta freqüência quanto eu."

O crescimento econômico no Centro e no Leste da Europa também ajudou a empresa a prosperar.

Ao contrário do Oeste da Europa, onde o crescimento começou a se desacelerar drasticamente este ano e alguns países provavelmente venham a enfrentar uma recessão, as economias do Leste europeu devem manter uma taxa de crescimento médio em torno de 4% este ano, disse Neil Shearing, economista na Capital Economics de Londres.

Essa é uma boa notícia para a IPF, que também opera na República Tcheca, Romênia, Eslováquia, Hungria e México e pretende se expandir para Rússia, Ucrânia e Índia. Com a expansão das economias, os clientes ganham mais e estão mais dispostos e em melhores condições de tomar emprestadas somas maiores.

Mas mesmo no Leste da Europa a inflação começou a subir e haverá risco para os negócios da IPF se o desemprego também aumentar. A empresa diz que está preparada, caso as economias comecem a enfrentar dificuldades.

"Isso exigirá uma reação imediata de nossa parte," diz Pap, da unidade polonesa. "Precisaremos encerrar os acordos de empréstimos mais arriscados e reforçar nossas exigências para fornecer crédito. Mas devido ao contato direto com os clientes, podemos ver muito rapidamente as mudanças na situação deles."

A empresa tem raízes que vêm de 1880, quando Joshua Waddilove, um filantropo, começou a fornecer crédito para famílias de trabalhadores britânicos. A empresa da família vendeu ações em uma oferta pública inicial em 1962 e se expandiu para outros produtos bancários, incluindo cartões de crédito.

No ano passado, a controladora, Provident Financial, criou uma subsidiária para suas operações no exterior, a IPF.

Agora, o lucro na IPF cresce de forma rápida, principalmente porque ela opera em uma região onde os mercados de crédito ainda estão relativamente pouco desenvolvidos. Na Polônia, 40% da população têm uma conta bancária, em comparação com 90% na Grã-Bretanha.

A dívida das famílias aqui é 15,6% do produto interno bruto, em comparação com 98,7% nos Estados Unidos, 111% na Grã-Bretanha e 59,7% entre os países que adotam o euro.

Para muitas das pessoas nos países que a IPF atende agora e as que espera alcançar no futuro, tomar emprestado de um banco pode ser mais barato, mas eles não têm essa opção.

Hanna Krzysiewska-Rybinska, especialista em dietética num hospital, que vive com seu marido e sua mãe de 90 anos, disse que precisava do dinheiro rapidamente para ajudar o filho, motorista de táxi, comprar um carro novo.

"Ele não pode levantar um empréstimo por conta própria porque ele e a esposa acabaram de comprar uma casa nova e já têm uma grande hipoteca," diz Krzysiewska-Rybinska.

"Com o banco, eu preciso pagar em uma data fixa. Aqui eu tenho a flexibilidade de pagar depois."

Krzysiewska-Rybinska tomou emprestados 5.000 zlotys poloneses (US$ 2.225), por dois anos. Ela agora terá que reembolsar 95 zlotys (US$ 42) por semana, o que significa que depois de dois anos ela terá reembolsado 9.880 zlotys (US$ 4.396).

A taxa de juros é excepcionalmente elevada, mas o empréstimo é bem superior à média concedida pelo IPF. Os clientes da IPF na Polônia têm uma renda mensal média de 2.500 zlotys (US$ 1.112).

Rodrigues disse que as taxas de juros da IPF não são muito mais elevadas que as comuns a vários cartões de crédito nos Estados Unidos e Europa, e ajudam a cobrir o risco de fornecer empréstimos a pessoas com um histórico de crédito limitado, ou mesmo sem qualquer um, e a pagar pela rede de agentes.

A remuneração aos seus funcionários é estruturada de forma a evitar a concessão antiética de empréstimos, ele afirma. Os funcionários recebem apenas comissões, a maior parte das quais são concedidas com a cobrança de um pagamento de empréstimo e não quando um novo cliente se inscreve. Cláudia Dall'Antonia

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