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26/08/2008

Convenção Democrata: três clãs e apenas um palco geram mistura desconfortável

The New York Times
Patrick Healy, do The New York Times
Em Denver
Nem os Kennedy nem os Clinton desejavam que as coisas se passassem desta forma. Mas a abertura da Convenção Democrata na segunda-feira (25) for marcada por um forte contraste: uma celebração ao mesmo tempo agradável e dolorosa da vida do senador Edward M. Kennedy, que está sofrendo de câncer no cérebro, e um drama privado e amargo referente aos termos segundo os quais os Clinton cederão o partido ao senador Barack Obama.

AFP 
O senador Ted Kennedy faz aparição surpresa na Convenção Democrata, em Denver

Kennedy, que endossou Obama em janeiro, esperava liderar uma alegre e animada noite de passagem de liderança política à próxima geração. Em vez disso, o tributo a ele assumiu um caráter de adeus ao último dos famosos irmãos Kennedy, com uma intensidade que competiu com a animação em torno do discurso feito por Michelle Obama sobre o marido dela, o próximo detentor principal da sigla democrata.

Enquanto uma dinastia política celebrava o seu legado e cedia o palco político na noite de segunda-feira, a outra família dominante do Partido Democrata empenhava-se em proteger o seu legado e relutava em aceitar a sua saída da ribalta. Não faz muito tempo que a senadora Hillary Rodham Clinton e Bill Clinton esperavam que esta fosse a convenção deles, e uma celebração das Casas Brancas passada e futura da família. Em vez disso, eles viram-se relegados a papéis secundários, de importância diminuída.

As maiores frustrações tiveram de ser engolidas por Hillary Clinton: em um café-da-manhã com democratas de Nova York na manhã da segunda-feira, ela foi obrigada a criticar uma nova propaganda de televisão do senador John McCain que usou contra Obama os antigos ataques feitos por ela ao atual candidato democrata. E Hillary enfrentou questões relativas aos comentários feitos pelos amigos da família segundo os quais o seu marido continua irritado com a agressiva batalha das primárias e insatisfeito com o fato de ter que discursar na Convenção.

Em determinado momento, ela disse aos assessores que, para acabar com o mau estar em relação ao seu marido, bastaria que a campanha de Obama reconhecesse as realizações políticas de Bill Clinton e os esforços dele no sentido de promover a reconciliação nacional na década de 1990 - corrigindo aquilo que os Clinton viram como falta de respeito por parte de Obama durante as primárias. Um assessor, ao narrar a conversa na segunda-feira, observou que Hillary Clinton está desempenhando um antigo papel: cuidando do marido enquanto tenta proteger o seu próprio futuro.

Um dos arrecadadores de verbas para a campanha de Hillary Clinton disse durante uma entrevista na segunda-feira: "Hillary diz com freqüência que Bill não é uma pessoa complicada - a equipe de Obama não precisa se esforçar muito para fazer as pazes com ele".

Se os Obama vêem companheiros no clã dos Kennedy, eles enxergam nos Clinton uma família mais complicada e tática - ou mesmo uma dupla de estraga prazeres.

O mesmo pode se dizer quanto ao relacionamento Kennedy-Clinton. Na convenção de 1992, quando foi nomeado candidato pelo partido, Bill Clinton utilizou no seu filme biográfico imagens pouco nítidas de um encontro dele - quando era adolescente, em 1963 - com o presidente John F Kennedy, a fim de tentar passar a imagem de uma progressão política natural. As duas famílias tornaram-se amigas (embora não muito próximas) na década de 1990. Mas este vínculo foi rompido violentamente quando o senador Kennedy endossou Obama em janeiro deste ano. O rito da passagem da tocha política democrata assumiu um caráter doloroso e pessoal.

Os Clinton e os Kennedy conferiram glamour uns aos outros durante os seus passeios de barco, bastante fotografados, na costa de Martha's Vineyard alguns anos atrás. Mas isto acabou. Agora os Obama estão injetando uma nova dose de glamour nos Kennedy, e estes estão oferecendo um apoio a Obama que é maior do que o que deram aos Clinton. Caroline Kennedy chegou até a desempenhar um papel importante, ajudando Obama a selecionar o seu companheiro de chapa, o senador Joseph R. Biden Jr.

Enquanto os Kennedy procuravam abrir espaço para os Obama no pedestal democrata, os Clinton lembravam aos democratas que ainda falta algo para que o partido possa afirmar de forma verossímil que encontra-se unido. Críticos dos Clinton afirmaram que eles estão agindo de maneira egoísta.

Mas o fato é que milhões de norte-americanos votaram em Hillary Clinton, e que em determinados momentos Obama minimizou de fato os sucessos do governo Bill Clinton. E, segundo amigos do ex-presidente, Bill Clinton acredita visceralmente que o campo de Obama retratou-o como sendo um "race-baiter" (pessoa que procura pautar todas as discussões de questões sociais, civis, legais e criminais segundo a opressão racial de um respectivo grupo, agindo geralmente com o intuito de se beneficiar). Ao mesmo tempo, até mesmo os assessores da campanha de Hillary Clinton admitem que em certos momentos que o marido dela foi agressivo e ofensivo em relação a Obama - tendo sido advertido por Kennedy devido a isto.

"É algo muito difícil, no sentido mais humano possível; não há dúvida alguma quanto a isso", afirma James Carville, amigo e assessor político de longa data dos Clinton. "Algum dia os Clinton e Obama poderão tornar-se amigos. Por hora, este é um processo humano difícil - abrir espaço no palco para uma outra pessoa".

Robert Shrum, assessor de longa data de Kennedy, diz que assim como a ascensão de Bill Clinton em 1992 marcou uma mudança de geração no partido, o sucesso de Obama representou um outro momento marcante que ressoou de maneiras diferentes para muitos democratas.

"O apoio que Kennedy deu a Obama deveu-se em parte ao fato de ele ter visto no candidato qualidades pessoais que enxergava nos seus irmãos", afirma Shrum. "Para os Clinton, que estiveram no poder e fora dele bem mais recentemente, a questão é mais complicada. Os democratas terão um novo líder em novembro, e o presidente Clinton e Hillary ainda estão absorvendo este fato".

Nos últimos dias os Clinton recusaram-se a dar entrevistas. Obama, que na segunda-feira fazia campanha em Iowa, disse ter garantido a Bill Clinton que ele poderia dizer o que quisesse na Convenção. Obama afirmou não ter nenhuma dúvida de que o casal Clinton abraçou a sua candidatura.

"Teremos de nos empenhar bastante para persuadir alguns apoiadores da senadora Clinton a embarcar na nossa campanha - isto não é nenhuma surpresa", afirmou Obama. "Mas, após analisar os fatos desta semana, estou absolutamente convencido de que tanto Hillary Clinton quanto Bill Clinton entendem o que está em jogo". UOL

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