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26/08/2008

Friedman: a diversidade racial conhece a Grande Muralha

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
As Olimpíadas podem ser apenas um evento esportivo, mas é difícil não ler mensagens mais amplas nas entrelinhas dos seus resultados, especialmente ao se constatar como a China e os Estados Unidos dominaram na lista de medalhas conquistadas. Ambos os países podem ver - e verão - os seus sucessos olímpicos como validações dos seus sistemas políticos distintos. Mas o que mais me surpreende é o quanto um poderia aprender com o outro. Conforme costuma-se dizer, este é um momento par se aprender lições.

Vamos chamá-lo de "uma Olimpíada, dois sistemas".

AFP 
O corredor Lopez Lomong olha o resultado dos 1500m no monitor durante as Olimpíadas

Mas como isto ocorre? É impossível olhar para a equipe olímpica dos Estados Unidos sem perceber a força decorrente da diversidade, assim como não dá para voltar-se para a equipe olímpica chinesa sem enxergar a força resultante do foco intenso e da concentração de poder.

Comecemos por nós. Outro dia, ao caminhar pela Vila Olímpica, eis o que mais me surpreendeu: a equipe russa tem aparência russa, as equipes africanas tem um visual africano, a chinesa tem cara de chinesa, mas a equipe dos Estados Unidos se parece com todas elas.

Este fato é especialmente verdadeiro quando incluímos os técnicos. Liang Chow, o técnico de Shawn Johnson, a ginasta de Iowa, foi um popular co-capitão da seleção nacional chinesa de ginástica na década de 1980, antes de emigrar para Des Moines. A equipe norte-americana de vôlei tinha como técnica uma ex-jogadora chinesa, Jenny Lang Ping, quando derrotou a seleção da China alguns dias atrás. Lang, uma heroína nacional na China, conduziu a equipe chinesa à medalha de ouro nas Olimpíadas de Los Angeles em 1984. Isso seria equivalente a Michael Jordan atuar como técnico da seleção de basquete da China para vencer os Estados Unidos.

A Associated Press anuncia que existem 33 atletas estrangeiros na equipe olímpica dos Estados Unidos, incluindo quatro jogadores de tênis de mesa nascidos na China, um canoísta do Reino Unido, sete membros da equipe de atletismo - bem como Lopez Lomong, um dos "garotos perdidos" da guerra civil do Sudão, que obteve asilo nos Estados Unidos por meio da instituição Catholic Charities, e Leo Manzano, filho de um trabalhador mexicano que era imigrante ilegal. Manzano veio para os Estados Unidos aos quatro anos de idade, mas só obteve a cidadania estadunidense em 2004.

"É impressionante que no momento em que esta 'Arca de Noé' que é a nossa equipe olímpica esteja se saindo tão bem haja, ao mesmo tempo, apelos crescentes para que se restrinja a imigração para os Estados Unidos", diz Robert Hormats, vice-presidente do Goldman Sachs International. "Algumas pessoas desejam estrangular exatamente aquelas coisas que nos tornam fortes e únicos".

A China também poderia aprender algo com a nossa equipe olímpica: o poder resultante de uma sociedade forte, que é um entrelaçamento de diversos fios distintos oriundos das bases. Por exemplo, ultimamente é difícil dirigir em Pequim sem apreciar o tráfego leve e o céu azul - o que deve-se em grande parte ao fato de a China ter fechado as fábricas e ordenado aos motoristas que não dirigissem - e questionar como tal situação poderia ser mantida após as Olimpíadas. Muitos chineses com os quais conversei perguntaram: como poderemos manter este quadro? Agora que vimos o quão azul pode ser o nosso céu, não queremos abrir mão dele.

Porém, o problema para a China é que no resto do mundo o ambientalismo é um movimento oriundo das bases. Embora seja necessário um governo forte para impor as regulamentações de cima para baixo, o movimento ecológico não funcionar sem a presença de uma sociedade civil independente e vigorosa que haja como fiscal, expondo os poluidores e processando as empresas que não respeitem as leis ambientais. A China pode ser verde de cima para baixo durante as duas semanas das Olimpíadas, mas não conseguirá ser verde durante os próximos 20 anos sem que haja mais movimentos a partir das bases da sociedade.

Dito isto, há algumas coisas que poderíamos aprender com a China. Por exemplo, a capacidade de focar-se em metas de construção nacional amplas e de longo prazo e concretizá-las. Um amigo chinês que é acadêmico disse-me que o sucesso das Olimpíadas já está fazendo com que algumas autoridades graduadas argumentem que somente uma China forte, liderada de cima para baixo pelo Partido Comunista, poderia ter organizado tais projetos de construção impressionantes para estas Olimpíadas e obtido um desempenho tão bom com tantos atletas chineses diferentes. Por exemplo, a China não tem tradição de grandes remadores, mas nestes jogos Pequim apresentou a primeira equipe feminina de quatro sem que deu ao país a sua primeira medalha de ouro no remo.

É claro que a lição para nós não é a necessidade de um governo autoritário, e sim a importância de fazer com que a democracia funcione melhor. A equipe norte-americana masculina de basquete saiu-se mal nas últimas Olimpíadas porque não foi capaz de jogar como um conjunto. Assim, os nossos astros foram vencidos por jogadores inferiores que apresentavam melhor trabalho de equipe. A nossa seleção de basquete aprendeu a sua lição.

O Congresso piorou. A nossa democracia parece estar cada vez mais paralisada porque a colaboração em Washington tornou-se quase impossível, seja por causa do dinheiro, das divisões internas, de um ciclo de notícias de 24 horas ou da campanha presidencial permanente. E, como resultado, a capacidade de nos concentrarmos nas incríveis energias provenientes das bases dos Estados Unidos - fora da área esportiva - diminuíram. Isto pode ser visto na nossa infra-estrutura que está se esfacelando ou na incapacidade de criar um programa real de energia. A China está focada. Nós estamos distraídos.

Assim sendo, sim, os Estados Unidos e a China devem usufruir as suas vitórias olímpicas - mas cada um precisa também refletir sobre como o outro país conseguiu tantas medalhas. UOL

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