UOL Notícias Internacional
 

29/08/2008

Atacando Bush, Obama mira em McCain

The New York Times
Adam Nagourney e Jeff Zeleny, do The New York Times
Em Denver
O senador Barack Obama aceitou a indicação presidencial pelo Partido Democrata na quinta-feira (28), declarando que a "promessa americana está ameaçada" após oito anos sob o presidente Bush, e que o senador John McCain representa uma continuação das políticas que minaram a economia do país e colocaram em perigo sua posição ao redor do mundo.

O discurso de Obama, diante de uma audiência de quase 80 mil pessoas, em uma noite quente em um estádio de futebol adaptado em um vasto palco político para o público de televisão, deixou pouca dúvida de como ele pretende conduzir sua campanha contra McCain nos próximos meses. Ele associou McCain ao que descreveu como a "presidência fracassada de George W. Bush", em uma linguagem incisiva que aparentemente visava tranqüilizar democratas nervosos, mostrando que ele tem garra para atacar um adversário republicano que provou nos últimos meses ser bom de briga.

"O retrospecto é claro: John McCain votou com George Bush em 90% das vezes", disse Obama em comentários feitos sob medida. "O senador McCain gosta de falar sobre julgamento, mas falando sério, o que diz a respeito do julgamento de uma pessoa quando ela pensa que George Bush esteve certo em mais de 90% das vezes? Eu não sei quanto a vocês, mas não estou pronto para aceitar 10% de chance de mudança."

"América, nós somos melhores do que estes últimos oito anos", ele disse. "Nós somos um país melhor do que isso."

O discurso despontava como sendo o mais importante da campanha de Obama até o momento. Era a oportunidade para apresentar si mesmo aos americanos que apenas agora estão começando a se voltar para esta campanha, de argumentar contra McCain e oferecer o que muitos democratas disseram que ele fracassou em fazer até o momento: passar uma idéia do que ele defende, além de uma promessa de mudança.

Com o discurso, Obama encerrou a convenção de seu partido e se preparou para o rápido deslocamento da atenção do público para os republicanos, enquanto McCain se prepara para apresentar seu companheiro de chapa na sexta-feira e seu partido inicia sua convenção em Saint Paul, na segunda-feira.

Ele o fez no cenário menos convencional, se tornando o terceiro candidato de um grande partido na história do país a deixar o local de sua convenção para fazer seu discurso de aceitação em um estádio. Neste caso, foi o Invesco Field, tendo com fundo as Rochosas e a cerca de 1,5 quilômetro da arena onde foi indicado na noite anterior. Seus assessores escolheram o estádio para sinalizar uma ruptura da política habitual e permitir que milhares de simpatizantes de todo país pudessem ouvi-lo falar.

E ocorreu em uma noite que oferecia - por coincidência de data - um lembrete da natureza histórica da candidatura de Obama: há exatamente 45 anos o reverendo Martin Luther King Jr. fazia seu discurso "Eu Tenho um Sonho" em Washington.

Obama é o primeiro afro-americano a ser indicado para a Casa Branca por um grande partido, um fato que, apesar de toda sua importância, mal foi mencionado ao longo deste encontro de quatro dias.

Mesmo ao invocar o aniversário do discurso de King, Obama mencionou a raça apenas de passagem. "Os homens e mulheres que se reuniram ali poderiam ter ouvido muitas coisas", ele disse. "Eles poderiam ter ouvido palavras de raiva e discórdia. Poderiam ter sido incitados a sucumbir ao medo e frustração de tantos sonhos adiados."

"Mas o que as pessoas ouviram - pessoas de todos os credos e cores, de todas as profissões - é que, na América, nosso destino está inextricavelmente ligado. Que juntos, nossos sonhos podem ser um."

McCain marcou a ocasião do discurso lançando uma propaganda de televisão na qual, olhando para a câmera, ele saudou Obama e seu feito. "Que perfeito sua indicação sair neste dia histórico", disse McCain. "Amanhã nós voltaremos a isso. Mas nesta noite, senador, bom trabalho."

A propaganda marcou um forte contraste em relação a um verão de fortes ataques de McCain contra Obama, que aparentemente contribuíram para o acirramento desta disputa.

Com seu discurso, Obama atacou McCain por questionar seu patriotismo, tentando transformar uma grande eleição em uma briga em torno de coisas menores, tentando diminuí-lo ao apresentá-lo como uma celebridade.

Ele ofereceu uma lista de pessoas que o inspiraram em sua vida - de sua avó aos trabalhadores de fábrica desempregados que conheceu durante a campanha - em resposta ao ataque de ser uma celebridade, o que os assessores de Obama disseram ter sido particularmente danoso ao candidato.

"Eu não sei que tipo de vida John McCain acha que as celebridades levam, mas esta tem sido a minha", ele disse. "Estes são meus heróis. As histórias deles me moldaram. E é em prol deles que pretendo vencer esta eleição e manter nossa promessa viva na condição de presidente dos Estados Unidos."

"E qual é esta promessa?" ele prosseguiu. "É uma promessa que diz que cada um de nós tem a liberdade de fazer com sua vida o que desejar, mas que também temos a obrigação de tratarmos uns aos outros com dignidade e respeito."

Obama fez seu discurso em um dia de considerável agitação política. Enquanto McCain prestava tributo a Obama na televisão, seus assessores revelavam que ele tinha escolhido seu candidato a vice-presidente e que o anunciaria na sexta-feira, visando desviar a atenção de Obama em um dia em que ele e seu companheiro de chapa, o senador Joe Biden, dariam início à campanha conjunta. Os democratas passaram o dia preocupados com a possibilidade do vazamento da notícia da escolha de McCain, que roubaria a atenção da grande noite de Obama.

A platéia de Obama - delegados, doadores, mas também milhares de simpatizantes de Obama do Colorado, um Estado que Obama está tentando remover da coluna republicana, e de várias partes do país - começaram a fazer fila para passar pela segurança e entrar no estádio oito horas antes do horário em que ele falaria. À medida que as cadeiras eram ocupadas, eles assistiram a uma série de apresentações musicais, inclusive de Stevie Wonder, que cantou "Signed, Sealed, Delivered", música com presença constante nos comícios de Obama.

A apresentação de Obama também foi preparada por discursos de alguns dos líderes democratas mais conhecidos. Eles foram liderados por Al Gore, o ex-vice-presidente que perdeu por margem estreita a Casa Branca para Bush em 2000.

"Há oito anos, alguns disseram que não havia muita diferença entre os candidatos dos dois grandes partidos e que realmente não importava quem viria a ser o presidente", disse Gore, enquanto helicópteros da polícia passavam ao alto. "Nossa nação desfrutava de paz e prosperidade. Alguns presumiam que manteríamos ambas independentemente do resultado. Mas aqui estamos todos nós em 2008, e eu duvido que alguém argumentaria agora que a eleição não importou."

E Gore confrontou uma questão que, bem ou mal, paira sobre Obama, enquanto ele disputa arduamente com McCain em no momento em que as pesquisas sugerem que os americanos se voltaram contra Bush e os republicanos.

"Por que esta eleição está tão apertada?" perguntou Gore. "Bem, eu sei alguma coisa sobre eleições apertadas, então me permitam oferecer minha opinião. Eu acredito que esta eleição está apertada principalmente porque as forças do status quo estão desesperadamente temerosas da mudança que Barack Obama representa."

Obama usou grande parte de seu discurso para associar McCain e Bush - uma linha de ataque que seus assessores vêem como sua mais forte nos próximos meses- e sinalizaram que vêem a convenção republicana da próxima semana, quando McCain e Bush aparecerão juntos, mesmo que brevemente, como uma forma de pressionar esta linha de ataque.

"Na próxima semana, em Minnesota, o mesmo partido que deu a você dois mandatos de George Bush e Dick Cheney pedirá a este país um terceiro", ele disse. "E nós estamos aqui porque amamos demais este país para permitir que os próximos quatro anos pareçam com os últimos oito. Em 4 de novembro, nós temos que nos erguer e dizer: 'Oito bastam'."

Falando de modo geral, Obama ofereceu um contraste entre os pontos de vista republicanos e democratas sobre o papel do governo.

"Nós medimos a força da nossa economia não pelo número de bilionários que temos ou pelos lucros da Fortune 500", ele disse, "mas sim por se alguém com uma boa idéia pode correr o risco e abrir um negócio, ou se a garçonete que vive das gorjetas pode tirar um dia de folga para cuidar de um filho doente sem correr o risco de perder seu emprego - uma economia que honra a dignidade do trabalho".

A cena dentro do Mile High Stadium era certamente uma das mais incomuns nos anais das convenções políticas americanas. Da noite para o dia, os adereços familiares do salão de convenção foram movidos para o ar livre, com faixas de cada Estado ocupando o campo onde os Denver Broncos costumam jogar.

Esta foi uma aposta arriscada de uma campanha que demonstrou gosto pelo risco e por romper com as convenções, como reconheceram seus assessores. O tempo ruim poderia ter estragado o momento. A primeira pergunta de Obama aos assessores quando propuseram isso foi: "Choverá?" Não choveu; o dia foi seco, apesar de quente.

Quando John F. Kennedy realizou seu comício ao ar livre no Los Angeles Memorial Coliseum em junho de 1960, metade dos assentos estava vazio, como notou o repórter do "The New York Times" ao descrever pejorativamente o evento como sendo "vaudeville ao ar livre".

O estádio aqui estava lotado às 17h15, cinco horas antes de Obama subir ao palco, após uma semana na qual os democratas e simpatizantes de Obama vinham correndo atrás de ingressos.

Mas os maiores riscos, como reconheceram os assessores de Obama, era que a simples teatralidade e escala do debate - a multidão vibrando, o palco estilo Hollywood - reforçariam aquela que se tornou a principal linha de ataque dos republicanos contra ele: de que ele é uma celebridade sem conteúdo ou experiência para lidar com os problemas enfrentados pelo país. Antes da convenção, os republicanos ridicularizaram o cenário, o comparando a um templo grego.

Na verdade, na televisão, ele parecia mais uma fachada digna de um prédio federal em Washington.

Kitty Bennett, Janet Elder, Carl Hulse, Michael Luo e Jim Rutenberg contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host