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29/08/2008

Bolívia e Estados Unidos são parceiros desconfortáveis na guerra contra as drogas

The New York Times
Simon Romero
Em Chimore, na Bolívia
O refrão dirigido contra os norte-americanos aqui na selva de Chapare é forte, mas poderoso: "Longa vida à coca! Morte aos ianques!".

Assim, quando o presidente Evo Morales veio recentemente à área, levantando o punho e gritando essas palavras perante os seus apoiadores, a ironia da situação não passou despercebida para uma unidade de elite das forças armadas bolivianas que só sobrevive com o apoio dos Estados Unidos.

"Nós dependemos dos norte-americanos para quase tudo: nossos bônus, nossos treinamentos, nossos veículos e até as nossas botas", afirma o tenente-coronel Jose German Cuevas, comandante da unidade de forças especiais bolivianas que caça os traficantes de cocaína, falando em uma base militar aqui, na região central da Bolívia.

Contando com helicópteros Huey da era da Guerra do Vietnã doados pelos Estados Unidos que sobrevoam a base e dezenas de militares bolivianos e que foram treinados ao lado dos Boinas Verdes na Escola das Américas, em Fort Benning, no Estado da Geórgia, a Bolívia é uma das frentes mais conturbadas da guerra andina contra as drogas.

Morales, um ex-cultivador de coca, a matéria-prima para a fabricação da cocaína, é ao mesmo tempo antagonista e parceiro ativo da política norte-americana anti-drogas na região. Ele descreve com freqüência os Estados Unidos como o seu principal adversário e fez do direito de produzir a folha da coca um dos maiores símbolos de soberania e anti-imperialismo.

Mas Morales também se empenhou em restringir o cultivo da coca, e aceita US$ 30 milhões anuais dos Estados Unidos - o que representa quase que a totalidade do seu orçamento anti-narcóticos - para combater a produção de cocaína.

Por ora, Morales e os Estados Unidos continuam sendo companheiros em uma relação desconfortável. Morales tem hesitado em romper as relações com os Estados Unidos, especialmente porque o país fornece anualmente à Bolívia cerca de US$ 100 milhões em ajuda para o desenvolvimento. Washington também concede acesso dos têxteis bolivianos ao mercado norte-americano com isenção de impostos, o que se constitui em uma fonte preciosa de recursos para o país sul-americano.

Do lado norte-americano, as autoridades argumentam que um aumento drástico do cultivo da coca poderia provocar o envio de mais cocaína aos Estados Unidos, mesmo que aquele seja atualmente um mercado insignificante para a cocaína boliviana. Um motivo mais profundo pode ser o fato de que o dinheiro anti-drogas proporciona aos norte-americanos uma rara janela para perscrutar o governo Morales.

Mas essa cooperação está sofrendo pressões crescentes. Membros radicais da base política de Morales, que foram peças fundamentais para conduzi-lo ao poder, estão irritados com as políticas anti-drogas norte-americanas, especialmente aqui em Chapare, onde os cultivadores de coca expulsaram funcionários de auxílio de desenvolvimento dos Estados Unidos em meio a alegações de que eles conspiravam para derrubar Morales.

As tensões também são intensas na capital La Paz. Dois meses atrás, uma multidão de 20 mil manifestantes marchou até os portões da Embaixada dos Estados Unidos, entrando em conflito com a polícia e ameaçando incendiar o prédio, um episódio que levou o Departamento de Estado a trazer temporariamente o embaixador Philip Goldberg de volta para Washington como protesto. Após o incidente, Morales elogiou os manifestantes.

"Evo Morales simplesmente não pode atender às exigências dos Estados Unidos após ter sido eleito democraticamente por uma grande massa de camponeses índios furiosos, famintos e que não enxergam nenhuma alternativa real para eles o os seus filhos", afirma Bruce Bagley, especialista em políticas andinas anti-drogas da Universidade de Miami.

Mas em uma guerra contra as drogas na qual o que não falta são contradições, Morales está se saindo melhor do que os especialistas em combate aos narcóticos esperavam antes que ele assumisse o poder.

Naquela época, alguns deles advertiram que a presidência Morales estimularia um retorno ao início da década de 1980, quando governantes militares permitiram uma disparada da produção de coca em Chapare, desestabilizando o país. Mas Morales está ansioso por demonstrar que não governa um narco-Estado, e o trabalho conjunto com os norte-americanos contribui para fortalecer a sua legitimidade internacional.

Cultivando coca

O cultivo da coca aumentou durante os dois anos em que Morales está no cargo, mas ao invés de disparar, ele apenas subiu. Segundo a Organização das Nações Unidas, o aumento em 2006 foi de 8% e em 2007 de 5%.

Isto ainda deixa a Bolívia muito atrás do maior produtor de coca do mundo, a Colômbia. Apesar de ser o aliado mais ardente do governo Bush na região, a Colômbia teve um aumento de 27% do cultivo da coca no ano passado, e continua sendo a principal fonte da cocaína contrabandeada para os Estados Unidos.

Embora em público as autoridades norte-americanas elogiem Morales por impedir que o cultivo dispare, elas são bastante críticas ao falar reservadamente. "Coloquemos as coisas desta forma: essa política está indo na direção errada", disse uma autoridade da Embaixada dos Estados Unidos em La Paz, referindo-se à política anti-drogas de Morales. Ele não quis que o seu nome fosse identificado devido às relações tensas com a Bolívia.

Ainda assim, é de se surpreender que a Bolívia e os Estados Unidos ainda continuem sendo aliados no combate aos narcóticos, ao se considerar que Morales está reduzindo a influência norte-americana na Bolívia.

De fato, Morales afirmou que as décadas de auxílio norte-americano à Bolívia não tiveram como único objetivo combater as drogas e ajudar o povo, mas também controlar governos fantoches. No início deste ano, ele dissolveu uma unidade de inteligência do exército que recebia dinheiro de Washington, e anunciou que a Bolívia deixaria de enviar oficiais para receber treinamentos de combate nos Estados Unidos.

Enquanto isso, aqui em Chapare, as Forças Especiais Anti-Narcóticos, apoiadas pelos Estados Unidos, conhecidas como Leopardos, seguem com o seu trabalho. Todos os dias, ao nascer do sol, equipes camufladas de oito homens saem de uma base militar daqui, em veículos utilitários esportivos Nissan novos, dirigindo por estradas de terra rumo à selva. A seguir eles descem dos veículos e caminham, cortando o mato com facões, empunhando fuzis M-16, em busca de pequenas fábricas móveis de pasta de cocaína que fizeram com que a produção de cocaína boliviana atingisse o seu patamar mais elevado em dez anos. Quando encontram uma dessas fábricas, eles a incendeiam.

Após descobrir um laboratório em uma clareira na mata fechada, o tenente Freddy Saenz, 27, diz que tentou não pensar na ideologia pró-coca que se tornou um elemento de definição da presidência Morales. "Nós simplesmente fazemos o nosso trabalho, tentando destruir os laboratórios", explica Saenz, com o suor descendo pela testa. "A coca sempre será parte da vida na Bolívia".

Arqueólogos dizem que a coca é cultivada nos Andes desde uma época anterior ao nascimento de Cristo. Embora grande parte do mundo ocidental associe a coca à cocaína, muitos bolivianos mascam a folha da planta para aliviar o mal-estar da altitude, combater os sofrimentos provocados pela fome ou permanecer alertas, em um ritual diário similar ao consumo de café com leite nos países ricos. Em alguns dos cafés da moda em La Paz, é comum que seja servido um prato de folhas de coca ao freguês quando este se senta à mesa.

"Caldeirão de violência"

Morales, 48, passou a adolescência nos campos de coca de Chapare depois que a sua família pobre migrou dos altiplanos para cá. A seguir ele foi subindo de escalão na estrutura dos sindicatos de plantadores de coca da região nas décadas de 1980 e 1990, em uma época na qual as tropas apoiadas pelos Estados Unidos procuravam agressivamente erradicar todos os pés de coca ilegais da Bolívia.

Em uma atitude desafiadora, os plantadores de coca, ou cocaleros, bloquearam estradas fundamentais e entraram em choque com as forças de segurança. Em uma nova biografia do presidente, o escritor argentino Martin Sivak descreve um episódio no qual um grupo de Leopardos espancou Morales após ele ter discursado em uma manifestação. Os soldados só foram embora quando acharam que ele estava morto. Uma fotografia no livro mostra o presidente quando era um rapaz minúsculo, deitado em uma maca e repleto de hematomas.

"A região de Chapare é o caldeirão de violência no qual Evo nasceu", diz Jim Shultz, um analista político de Cochabamba. "Se não houvesse a guerra dos Estados Unidos contra as drogas, não teria havido um presidente Evo".

Agora Morales governa no palácio presidencial, no qual as paredes são ornamentadas com retratos dele e Che Guevara, feitos por Gaston Ugalde, o enfant terrible do cenário artístico da Bolívia, que faz colagens com folhas de coca. Mas em uma reviravolta da sua filosofia pró-coca, Morales também procurou reprimir a produção de cocaína.

Primeiro, em uma concessão aos plantadores de coca, ele quase que dobrou a quantidade de terra na qual os plantadores podem dedicar-se legalmente ao cultivo dessa planta. Atualmente esta área é de 20 mil hectares. Mas a seguir Morales procurou fazer com que os plantadores aceitassem uma nova regra que impede que eles dediquem mais de um cato, ou menos de 0,2 hectares, ao cultivo da coca.

Citando cartéis como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), os organizadores dos sindicatos de cocaleros de Chapare, onde o apoio doutrinário ao presidente é muito forte, mobilizaram-se para convencer os plantadores de que o limite reduziria a oferta e manteria estáveis os preços da coca.

Devido às ameaças de penalidades duras para quem desobedecesse, a pressão funcionou. Ela também contribuiu para fomentar uma rara paz social em Chapare. Os plantadores ganham cerca de US$ 100 por mês com a coca - uma quantia significativa em um país no qual o salário mínimo é de cerca de US$ 70 por mês - e complementam esta renda cultivando culturas como arroz, banana e mandioca.

Surgiram até alguns sinais de relativa prosperidade. Uma universidade financiada pelo governo para treinar professores deverá ser inaugurada em breve, com um currículo em quechua, a língua indígena, e espanhol. Nos fins de semana, o tráfego de veículos é muito intenso em cidades como Chimore, já que os plantadores saem a passeio com as suas minivans recém-adquiridas, chamadas aqui de Surubis.

E embora projetos financiados pela Venezuela para transformar a coca em produtos como xampu e creme dental ainda não tenham se materializado, os plantadores de coca não parecem se importar com o fato de uma grande parte de suas colheitas ser transformada em cocaína que é contrabandeada para o Brasil e a Argentina, os principais mercados para a produção boliviana.

"Agora que temos um pouco de dinheiro, somos tratados como seres humanos", diz Maria Eugenia Ledezma, 30, funcionária do principal sindicato de plantadores de coca em Chapare. "Nós morreremos lutando antes de nos tornarmos escravos ou lacaios dos norte-americanos na Bolívia".

Cooperação tênue

Embora Morales tenha desafiado diretamente Washington, tendo, entre outras coisas, exigido vistos dos visitantes norte-americanos, as autoridades dos Estados Unidos têm geralmente evitado entrar em atrito público com Morales quanto às políticas da coca, em parte porque a cooperação entre eles é muito tênue.

"Paradoxalmente, os Estados Unidos têm sido bem mais tolerantes em relação a este regime do que com outros governos do passado que eram amistosos", diz Roberto Laserna, cientista político de Cochabamba que estuda o comércio da cocaína.

Esta situação desconfortável pode mudar. O governo boliviano saiu fortalecido de um plebiscito realizado neste mês, no qual a presidência de Morales foi ratificada por mais de 67% dos eleitores. Agora o governo pretende assumir o controle sobre os projetos anti-narcóticos financiados pelos Estados Unidos, segundo Felipe Caceres, um plantador de coca que é o czar anti-drogas de Morales, o que sugere que a Bolívia poderá tornar-se um parceiro ainda mais independente.

Este conflito deixa Cuevas,o comandante da base dos Leopardos, em uma situação esquisita, agradecendo os Estados Unidos por proverem o seu sustento, e ao mesmo tempo elogiando Morales pela defesa da folha da coca. Ele sorri, e com a discrição de um soldado, aponta para uma inscrição em um dos muros da base: "Atipasunchaj". Uma proclamação idealista em quechua, que quer dizer: "Nós prevaleceremos". UOL

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