UOL Notícias Internacional
 

29/08/2008

Em uma cidade do Texas, armas são permitidas na sala de aula

The New York Times
James C. McKinley Jr.
Em Harrold, Texas
Os estudantes desta minúscula cidade de silos de grãos e casas ao estilo de fazenda passaram os primeiros dois dias na escola nesta semana tentando adivinhar quais de seus professores estavam carregando pistolas sob suas roupas.

"Nós rimos deles", disse Eric Howard, um estudante colegial de 16 anos. "Todo mundo conhece todo mundo aqui. Nós descobriremos."

O conselho escolar deste vilarejo rural pobre no norte do Texas atraiu atenção nacional com sua decisão de permitir que alguns professores andassem com armas escondidas, uma política não adotada por nenhuma outra escola do país. A idéia é impedir um massacre como o que aconteceu no colégio Columbine no Colorado, em 1999.

"As pessoas daqui não querem que seus filhos sejam como peixes em um aquário", disse David Thweatt, o superintendente escolar e autor da política. "As pessoas do campo costumam cuidar delas mesmas. Elas não têm ilusão de que a polícia está lá para protegê-las."

Mesmo no Texas, com sua tradição de leis lenientes de armas e justiça de fronteira, a idéia de professores levando armas para a sala de aula irritou algumas pessoas e provocou um debate feroz.

Defensores do controle de armas estão furiosos enquanto grupos pró-armas estão felizes. Os líderes dos principais sindicatos de professores do Estado expressaram ultraje, enquanto o governador republicano conservador, Rick Perry, endossou a idéia.

No centro da tempestade está Thweatt, um homem que se descreve como "um planejador de contingências", que acredita que os americanos devem ter menos medo de protegerem a si mesmos e que acha que avisos nas escolas dizendo "zona livre de armas" as tornam alvos de ataques armados. "É como dizer 'pega eles' para um cão", ele disse.

Thweatt argumenta que ter professores portando armas é uma resposta racional a uma ameaça real. O escritório do xerife do condado fica a 27 quilômetros de distância e o distrito não tem recursos para contratar policiais, como fazem as escolas urbanas em Dallas e Houston.

O conselho escolar decidiu que professores com armas escondidas era uma melhor forma de segurança do que oficiais de paz armados, porque um agressor não saberia em quem atirar primeiro, disse Thweatt. Os professores receberam treinamento de um consultor de segurança privado e usarão munição especial projetada para prevenir ricochete, ele acrescentou.

Harrold, a cerca de 290 quilômetros a noroeste de Dallas, difere muito dos distritos gigantes nas grandes cidades do Texas, onde a violência de gangue é a principal preocupação e a maioria das escolas possui suas próprias forças policiais. Menos de 100 estudantes de todas as idades assistem às aulas aqui em dois prédios de tijolos construídos há mais de 60 anos. Há duas dúzias de professores, um punhado de ônibus e um campo de futebol cercado por plantações.

Mas a cidade não é isolada em paz rústica, apontam os defensores do plano. Uma estrada de quatro faixas passa pela cidade, trazendo consigo um rio de humanidade, incluindo criminosos, eles dizem. A polícia fechou recentemente um laboratório de produção de drogas em uma casa caindo aos pedaços, próxima da escola. Vagabundos às vezes dormem sob o viaduto.

"Eu não sou exatamente paranóico", disse Thweatt. "Eu gosto de me considerar preparado."

Mas alguns pais e moradores acham que Thweatt pode estar exagerando a ameaça. Muitos dizem que raramente trancam suas portas, muito menos se preocupam com vagabundos aleatórios com pistolas atacando às cegas na escola. Moradores antigos tinham dificuldade de lembrar-se de um único incidente violento lá.

Outros disseram temer que a introdução de armas na sala de aula possa criar mais problemas do que resolver. Um professor brigando com um aluno poderia perder o controle da arma, ou uma arma poderia disparar acidentalmente, eles disseram.

"Eu não acho que haja lugar para uma arma na escola a menos que haja um policial lá", disse Bobby G. Brown, um fazendeiro e ex-presidente do conselho escolar, cujos dois filhos foram educados na escola. "Eu não me importo com quanto treinamento tenham."

Sua esposa, Diane Brown, acrescentou: "Há muitas coisas que podem acontecer. Eles não são treinados para tomar decisões em situações de vida ou morte".

Thweatt se recusou a dizer quantos professores estavam armados, ou quem eles eram, seguindo a teoria de que isso daria a dica aos bandidos. Ele também se recusou a identificar o consultor privado que forneceu aos professores cerca de 40 horas de treinamento de armas.

A maioria dos críticos questiona se os professores, mesmo com treinamento adicional, estão tão qualificados quanto policiais para neutralizar um agressor armado.

"Nós somos treinados para ensinar e educar", disse Zeph Capo, o diretor legislativo da Associação dos Professores de Houston. "Nós não somos treinados para domar o Velho Oeste."

As leis de armas do Texas proíbem armas em propriedade escolar. Mas o Legislativo abriu uma exceção ao permitir que os conselhos escolares autorizem pessoas com porte para armas escondidas levem suas armas. Nenhum distrito escolar fez uso da exceção antes do conselho escolar de Harrold.

Debbie Ratcliffe, uma porta-voz da Agência de Educação do Texas, disse que as mãos do Estado estavam atadas. "Nós realmente não tentamos nos envolver nisso", disse Ratcliffe. "Francamente, é uma questão de controle local."

Mas defensores do controle de armas dizem que apesar do distrito escolar estar cumprindo a lei estadual de armas, ele parece estar violando o estatuto da educação. A lei diz que os "agentes de segurança" autorizados a portar armas nos campi devem ser "oficiais de paz contratados" que passaram por treinamento policial.

"Nos parece não apenas uma política insensata, mas também ilegal", disse Brian Siebel, um advogado em Washington da Campanha Brady para Prevenção da Violência de Armas.

O distrito escolar respondeu que os professores não são "agentes de segurança", logo não precisam se tornar oficiais de paz.

Como regra geral, os sete membros do conselho escolar - um conjunto de fazendeiros e trabalhadores do petróleo liderados por um paramédico - encaminharam todas as perguntas dos repórteres a Thweatt. Mas um membro, Coy Cato, deu uma breve entrevista.

"Na minha opinião, é a melhor forma de proteger nossas crianças", disse Cato. Ao ser perguntado se outros na comunidade compartilhavam sua opinião, ele disse que não fez uma pesquisa, mas "eu acho que sim".

Vários moradores se queixaram de que o conselho fez pouco ou nenhum esforço para saber a opinião da comunidade sobre o assunto. Alguns disseram que só souberam do plano após os repórteres começarem a fazer perguntas a respeito no início de agosto.

Thweatt disse que o conselho discutiu a proposta por quase dois anos e considerou várias opções - armas com tranqüilizantes, armas para atordoar e seguranças armados, entre outras coisas - mas cada uma deixava a desejar de alguma forma. "Nós fizemos o papel do advogado do diabo até o fim."

Essa discussão passou despercebida por muitos pais.

Traci McKay, uma funcionária de restaurante de 34 anos, tem três filhos na escola, mas ela só soube dos professores portando arma duas semanas antes do início do semestre. Ela ficou atônita.

"Eu deveria ter sido informada", disse McKay. "Se algo acontecer, nós realmente queremos todas essas pessoas atirando umas contra as outras?"

McKay disse que Thweatt ainda precisa explicar por que uma cidade com um índice de criminalidade tão baixo precisa dessas medidas. Mas ela teme que seus filhos possam sofrer represálias caso promova uma petição contra a idéia.

"Basicamente nos está sendo dito para aceitarmos isso ou nos mudarmos", disse McKay. George El Khouri Andolfato

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